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"Meu Refúgio Era um Bilionário" Parte 5 — Não decida por mim outra vez

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Parte 5 — Não decida por mim outra vez

Às oito e quinze da manhã, a pasta estava aberta na minha tela.

R$ 24 mil.

O serviço havia sido descrito como análise reputacional de potencial parceiro comercial.

Samuel não era fornecedor do Grupo Bastos, não tinha contrato conosco e, até a tarde anterior, Ricardo nem sabia quem ele era.

Liguei para a responsável pelo controle de despesas.

“Quero preservar essa documentação e verificar quem aprovou o pagamento.”

“Existe alguma suspeita específica?”

“Uso de recursos da empresa numa investigação pessoal. Ainda estou reunindo os fatos.”

Ela pediu que formalizasse a solicitação.

Fiz isso.

Não enviei uma acusação para todos os diretores. Não queria transformar uma descoberta em uma conclusão antes de saber o que havia sido contratado.

Ricardo entrou na minha sala vinte minutos depois.

“Precisamos conversar sobre ontem.”

“Concordo. Sente.”

Mostrei o número do processo de pagamento.

Ele não precisou ler a segunda linha.

“Você está procurando problemas onde não existem.”

“Qual era a relação comercial de Samuel com a nossa empresa?”

“Eu precisava saber quem estava perto de você.”

“Então por que a empresa pagou?”

“Helena, você desapareceu numa tempestade e apareceu na casa de um desconhecido.”

“Eu avisei onde estava assim que consegui sinal.”

“Mandou uma fotografia de uma habilitação.”

“E você usou essa fotografia para quê?”

Meu irmão recostou na cadeira.

Eu o conhecia bem o suficiente para perceber quando estava escolhendo a versão mais conveniente.

“Solicitei informações públicas.”

“Quero o contrato, o relatório e as mensagens trocadas com o fornecedor.”

“Isso é um exagero.”

“Será analisado por quem pode avaliar. Você pode explicar a finalidade por escrito.”

Ricardo me observou por um momento.

Depois mudou de assunto.

“Samuel pode ser uma excelente aproximação para nós.”

Senti uma espécie de cansaço chegar antes da raiva.

“Ontem você pagaria para ele se afastar.”

“Ontem eu não sabia…”

“Quem ele era. Eu sei.”

“Você também não sabia.”

“E isso é um assunto meu com ele.”

Ricardo inclinou o corpo para a frente.

“Só estou dizendo que não precisamos transformar um mal-entendido em uma perda de oportunidade.”

Fechei a pasta.

“Se você está falando da minha vida pessoal, encerre a conversa. Se está falando do projeto, mande os documentos para a equipe.”

Ele saiu irritado.

Eu fiquei sentada alguns minutos antes de conseguir voltar ao trabalho.

O celular vibrou.

Samuel.

Bom dia. Posso saber como você está?

Li a mensagem sem responder imediatamente.

Então escrevi:

Trabalhando. E tentando não discutir com três pessoas ao mesmo tempo.

A resposta veio:

Posso esperar minha vez.

Dessa vez, sorri.

O sorriso desapareceu quando Bianca entrou com outra informação.

O assistente de Ricardo havia comprado um aparelho de telefone com o cartão corporativo. A despesa era recente e não estava vinculada a uma linha de funcionário.

Eu precisava ouvir sua explicação.

Antes que marcássemos a conversa, Samuel ligou.

“Um cliente cancelou a restauração de doze peças”, disse.

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Levantei.

“Qual cliente?”

Ele me contou o nome de uma pousada cujo proprietário eu conhecia das reuniões de Ricardo.

“Ele deu algum motivo?”

“Disse que os planos mudaram.”

“Você acha que meu irmão…”

“Não sei. Estou te contando porque ontem ele falou de clientes.”

A diferença importava.

Samuel não tinha telefonado para acusar. Tinha me dado um fato que precisava ser verificado.

“Você já comprou material?”

“Parte.”

“Tem funcionários dependendo dessa encomenda?”

“Um ajudante que trabalha comigo por diária. Eu tinha reservado a semana dele.”

Olhei para a agenda.

“Posso ir amanhã?”

“Pode.”

Fui com uma ideia que parecia razoável enquanto eu ainda estava sozinha no carro.

Dois hotéis do grupo tinham móveis antigos guardados. Eu havia visto fotografias de cadeiras quebradas, mesas riscadas e cômodas cuja restauração vinha sendo adiada.

Se houvesse trabalho de verdade, por que não oferecê-lo?

Samuel me recebeu com café.

Eu percebi que ele havia colocado o açúcar perto da minha caneca, embora bebesse o dele sem nada.

Sentei à mesa da cozinha e mostrei as fotografias.

“Podemos contratar uma avaliação.”

Ele passou as imagens devagar.

“Isso estava previsto?”

“Os móveis precisam de reparo.”

“Não foi o que perguntei.”

Pousei o celular.

“Eu sei.”

Samuel se recostou.

“Você está tentando compensar a encomenda cancelada?”

“Estou tentando resolver um problema que minha família pode ter criado.”

“E vai usar sua empresa para isso?”

A frase me atingiu.

“Não é a mesma coisa que Ricardo fez.”

“Eu não disse que era. Estou perguntando se o trabalho existe e se você faria essa contratação se não me conhecesse.”

Não respondi depressa.

Ele tinha razão em exigir uma resposta melhor.

“Eu provavelmente pediria à equipe que avaliasse o que vale restaurar.”

“Então faça isso.”

“Você está recusando trabalho porque vem de mim?”

“Estou recusando uma decisão tomada antes da avaliação.”

Levantei da cadeira.

“Às vezes parece que você prefere perder dinheiro a aceitar qualquer ajuda.”

Samuel também se levantou, mas permaneceu do outro lado da mesa.

“Às vezes parece que você precisa resolver tudo antes de ouvir a pessoa envolvida.”

Ficamos nos olhando.

Eu não gostava do que tinha ouvido.

Gostava menos ainda de reconhecer uma parte de verdade.

Peguei minha caneca e fui para a varanda.

Samuel não veio atrás imediatamente.

Deu-me alguns minutos.

Quando apareceu, trazia o telefone.

“Olha.”

Mostrou uma planilha simples com os próximos serviços.

“Essa encomenda era importante. Não vou fingir que não era. Mas tenho outras entregas. A oficina não vai fechar.”

“Você pode cobrir qualquer prejuízo.”

“Posso. Isso não torna irrelevante o que acontece aqui. Nem me dá o direito de pedir que um funcionário reserve dias e depois deixe de pagar.”

Sentei no degrau.

Ele se sentou ao meu lado, sem encostar.

“Aceito ajuda”, continuou. “Só quero saber o que estamos combinando.”

Olhei para as fotografias no meu celular.

“Vou pedir uma avaliação dos móveis. Com orçamento, comparação e pessoas que não dependam da minha decisão. Se quiser participar, participa.”

“Quero.”

“E não vou te prometer o contrato.”

“É assim que deve ser.”

Soltei o ar.

“Eu vim com saudade e consegui transformar a visita numa discussão sobre compras.”

Samuel inclinou a cabeça.

“Essa parte você não tinha mencionado.”

Virei o rosto para ele.

“Qual?”

“A saudade.”

O calor subiu pelo meu pescoço.

“Não se aproveita. Ainda estou irritada.”

“Eu também estava com saudade.”

Nenhum de nós se moveu por alguns segundos.

Depois Samuel olhou para a oficina.

“Preciso terminar uma mesa antes das seis. Quer ficar?”

“Você vai me deixar usar a espátula?”

“Com supervisão rigorosa.”

Passei a tarde ajudando numa entrega que nada tinha a ver com hotéis ou investimentos. A cliente chegou acompanhada da filha e passou a mão na mesa como se conferisse o rosto de alguém.

Samuel recebeu o restante do pagamento, mostrou os cuidados necessários e ajudou a colocar a peça no veículo.

Eu fiquei segurando o portão.

Mais tarde, pedi comida para nós dois.

Antes de confirmar, perguntei o que ele queria.

Samuel reparou.

Não fez comentário.

Depois do jantar, meu celular tocou.

Bianca havia conseguido falar com o assistente de Ricardo.

“O aparelho foi comprado a pedido dele”, disse. “O rapaz confirmou que entregou o telefone diretamente ao seu irmão.”

Olhei para Samuel.

Ele estava recolhendo os copos, mas parou quando viu minha expressão.

“Consegui mais uma resposta”, falei.

Ele colocou os copos na pia.

“E ela não é boa.”

“Não.”

Samuel puxou uma cadeira para mim.

Dessa vez, sentei sem tentar resolver tudo antes de contar.

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