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"Meu Refúgio Era um Bilionário" Parte 4 — O homem do outro lado da mesa

正文开头

Parte 4 — O homem do outro lado da mesa

“Porque sou o acionista controlador da Aurora”, Samuel respondeu.

Ele não desviou os olhos dos meus.

“A empresa que está avaliando o investimento de vocês.”

Ricardo olhou para André, esperando uma correção.

Ela não veio.

“Samuel preside o conselho”, André confirmou. “A negociação precisa passar pela aprovação dele.”

Meu irmão baixou os olhos para a proposta de trezentos mil reais.

Ainda estava sobre a bancada, entre um formão e um pedaço de lixa.

Eu me lembrava de ter visto o nome Aurora em apresentações. Conhecia os hotéis, os investimentos, o porte do grupo. O sobrenome completo do controlador aparecia nos documentos societários como Samuel Azevedo Rocha.

Nunca tinha visto seu rosto.

Agora ele estava diante de mim, com serragem na camiseta.

“Você sabia quem eu era?”

“Não quando tirei você do carro.”

“E depois?”

Samuel apertou os lábios.

“Quando ouvi sua ligação com Bianca.”

Senti o rosto esquentar.

Ricardo encontrou a própria voz.

“Isso muda completamente a situação.”

Virei para ele.

“Qual parte?”

“Helena, eu não tinha todas as informações.”

“Você tinha informação suficiente para oferecer dinheiro e ameaçar os clientes dele.”

Meu irmão puxou a pasta.

“Foi uma conversa mal conduzida.”

Samuel colocou a mão sobre o documento antes que Ricardo o recolhesse.

“Você disse que alguns clientes meus poderiam deixar de contratar a oficina. Quero saber se já entrou em contato com alguém.”

“Não houve ameaça.”

“Então responda à pergunta.”

A voz de Samuel não estava mais baixa, mas havia perdido a leveza que eu conhecia. Ele esperava uma resposta sem preencher o silêncio.

Ricardo olhou para André.

“Acho melhor tratarmos disso numa reunião.”

“Você escolheu a oficina para tratar da minha relação com sua irmã”, Samuel respondeu. “Pode terminar aqui.”

“Não existe relação nenhuma”, meu irmão soltou.

Meu estômago se contraiu.

Samuel virou o rosto para mim.

Eu poderia ter me escondido naquela indefinição. Não havíamos nos beijado. Não tínhamos combinado exclusividade. Eu ainda tentava entender por que sentia falta de uma casa onde passara três noites.

Mas Ricardo usava aquela falta de nome para apagar o que já existia.

“Existe uma aproximação que eu quero continuar”, falei. “E você tentou impedir isso.”

Meu irmão abriu a boca.

Ergui a mão.

“Agora você vai embora. Amanhã conversaremos na empresa sobre as mensagens e sobre essa proposta.”

“Você está expondo nossa família…”

“Você veio até aqui sem me dizer.”

Ricardo recolheu a pasta. Antes de sair, tentou recuperar alguma dignidade dirigindo-se a Samuel.

“Espero que isso não interfira na avaliação do projeto.”

“Você receberá as informações pela equipe responsável.”

Meu irmão passou por mim sem se despedir.

Ouvi a porta do carro bater.

André permaneceu perto da entrada, desconfortável.

Samuel apontou para a casa.

“Deixe o material na mesa da sala. Eu ligo mais tarde.”

“Claro.”

Quando ele saiu, o espaço pareceu grande demais.

Eu continuava segurando a sacola com a blusa de Luana.

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Coloquei-a na bancada.

“Vim devolver isso.”

Samuel olhou para a sacola.

“Helena…”

“Você podia ter contado.”

“Podia.”

“Quantas vezes decidiu não contar?”

Ele passou a mão pela nuca.

“Naquela noite, você estava exausta. Depois, achei que teríamos outra oportunidade.”

“Você teve três dias.”

“Eu sei.”

Não tentou me convencer de que sua omissão tinha sido uma gentileza. Aquilo me permitiu continuar ouvindo.

“Na primeira ligação que ouvi, reconheci o grupo. Não participei das reuniões preliminares com Ricardo. André conduz essa fase.”

“Mas sabia do projeto.”

“Sabia que existia uma proposta. Eu tinha recebido um resumo.”

Pensei na ligação da varanda.

Não hoje, André.

Eu estivera na cozinha, acreditando que finalmente conhecia alguém fora do círculo onde tudo se transformava em negociação.

“Você gostou de me ver sem saber?”

A pergunta o fez ficar imóvel.

“Gostei de estar com você.”

“Isso não responde.”

Samuel apoiou as mãos na borda da bancada.

“Sim. Gostei de não precisar explicar a empresa, o patrimônio, o conselho. E deixei isso durar mais do que devia.”

Minha raiva encontrou um lugar mais preciso.

“Você teve o conforto de saber quem eu era. Eu não tive o mesmo.”

“Tem razão.”

Eu queria que ele negasse alguma coisa. Queria poder discutir até ficar menos confusa.

Aquela concordância me deixou com o trabalho mais difícil: decidir o que fazer com um homem que reconhecia o erro.

“E as mensagens? Você podia mandar alguém descobrir quem estava por trás.”

“Podia pedir ajuda para verificar o número. Não tinha direito de investigar sua vida.”

“Mas resolveu acreditar que eu estava voltando com Otávio.”

“Resolvi me afastar antes de perguntar. Foi covardia.”

Olhei para o curativo quase solto na minha mão.

Samuel acompanhou meu olhar, mas não se aproximou.

“Posso trocar isso?”

“Agora não.”

Ele assentiu.

A recusa foi aceita sem mágoa exibida, sem tentativa de me tocar mesmo assim.

Respirei melhor.

“Por que a oficina?”

“Era da minha mãe.”

Olhei ao redor.

“Ela restaurava móveis?”

“Meu avô fazia marcenaria. Ela aprendeu com ele e começou a recuperar peças antigas. Eu vinha nas férias.”

Samuel pegou uma fotografia pequena numa prateleira.

Uma mulher de cabelos escuros estava sentada na varanda. Ao lado dela, um adolescente segurava uma cadeira desmontada.

“Depois que ela morreu, mantive a casa. Passei anos vindo pouco. Há três anos voltei a trabalhar aqui com frequência.”

“Você mora aqui?”

“A maior parte do tempo. Vou a São Paulo quando preciso.”

Ele colocou a fotografia no lugar.

“Tenho uma equipe que administra a Aurora. Continuo responsável pelo conselho e por algumas decisões. Não abandonei a empresa.”

A explicação não desfazia tudo. Pelo menos a oficina tinha uma história que não começara comigo.

“Não quero que você ache que foi armado”, ele disse.

“Não acho.”

Minha resposta veio antes de eu preparar uma defesa.

Eu lembrava da corda, do esforço, da água batendo nas pernas dele. Lembrava da expressão quando meu carro deslizou.

Aquela parte era verdadeira.

“Mas preciso de tempo para entender o resto.”

“Tudo bem.”

Já estava escurecendo. Eu tinha dirigido por horas, discutido com meu irmão e descoberto que o homem de quem sentia falta controlava o investimento mais importante da nossa empresa naquele ano.

Samuel olhou para a estrada.

“Você comeu?”

“Não precisa cuidar de mim para melhorar essa conversa.”

“Não melhora. Mas você ainda precisa comer.”

Quase sorri.

Não sorri.

Aceitei um sanduíche e um café na varanda. Samuel sentou longe o suficiente para que eu não me sentisse cercada.

Falamos pouco.

Antes de sair, entreguei a blusa.

“Diga à Luana que obrigada.”

“Digo.”

Peguei o celular.

“Guarde as mensagens. Não apague nada.”

“Já estão salvas.”

“Eu vou descobrir de onde vieram.”

Samuel me acompanhou até o carro.

“Posso escrever amanhã?”

Pensei por um momento.

“Pode. Só não finja que essa conversa terminou.”

“Não vou fingir.”

No caminho, parei num posto para ligar a Bianca.

Pedi que preservasse os registros de acesso à fotografia e verificasse, com a área responsável, se havia algum gasto recente relacionado a pesquisas sobre pessoas físicas.

“Sobre Samuel?”

“Sim.”

Ela ficou em silêncio.

Depois sua voz mudou.

“Helena, há uma solicitação de pagamento que eu vi semana passada. Consultoria reputacional.”

Apoiei a mão no volante.

“Quem solicitou?”

“Seu irmão.”

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