"Meu Refúgio Era um Bilionário" Parte 3 — Quanto custa você ir embora?
Parte 3 — Quanto custa você ir embora?
“Eu ainda não sei quando consigo voltar.”
Samuel fechou a caixa de ferramentas.
“Tudo bem.”
“Não estou dizendo isso para desaparecer.”
Ele me olhou.
“Eu não disse que estava.”
Era nossa terceira manhã juntos. Na tarde anterior, tínhamos voltado à casa de dona Célia e levado algumas peças pequenas para secar na oficina. À noite, assistimos à metade de um filme que nenhum de nós conseguiu terminar.
Eu dormira no sofá, a cabeça apoiada numa almofada. Acordara com uma manta sobre as pernas e Samuel sentado na poltrona, lendo.
Tinha sido a coisa mais íntima que me acontecera em meses.
Agora o motorista enviado por Bianca aguardava na estrada, perto do portão.
Eu segurava uma sacola com minhas roupas lavadas.
A blusa cinza de Luana estava dobrada dentro dela.
“Posso devolver na próxima vez?”
Samuel olhou para a sacola.
“Minha irmã vai sobreviver.”
“Você precisa perguntar para ela?”
“Se eu perguntar, vai descobrir que emprestei a blusa favorita.”
“Então eu devolvo…”
“Helena.”
Parei.
Ele estava sorrindo.
“Pode levar.”
Eu também sorri, mas não consegui me mover.
Havia coisas que eu sabia resolver. Uma reunião ruim. Um fornecedor atrasado. Uma previsão financeira incoerente.
Não sabia encerrar aqueles dias sem parecer indiferente ou oferecer mais do que ainda conseguia nomear.
Samuel tirou o celular do bolso.
“Seu número está salvo. Se esquecer alguma coisa, eu aviso.”
“Esqueci a bolsa dentro do carro.”
“Essa vai precisar de outro tipo de entrega.”
Ri, olhando para o chão.
Então dei um passo e o abracei.
Ele ficou imóvel apenas por um instante antes de me envolver pela cintura.
Encostei o rosto no peito dele. A camiseta tinha cheiro de sabão e madeira. Seus braços me seguraram com firmeza, mas sem a urgência daquela primeira noite.
Não havia perigo exigindo que ele me tocasse.
Eu estava ali porque queria.
“Obrigada”, murmurei.
“Pelo quê?”
“Por esses dias.”
Sua mão se moveu uma vez nas minhas costas.
“Eu gostei deles também.”
Afastei-me antes que minha coragem acabasse.
Samuel permaneceu na varanda até eu entrar no carro.
No caminho, Bianca ligou para conferir se eu precisava de atendimento por causa do braço. Respondi que não, pedi que organizasse os documentos do seguro e avisei que chegaria ao escritório depois do almoço.
Quando desliguei, vi uma mensagem de Ricardo.
Você já descobriu quem é esse homem?
Li duas vezes.
Como você sabe quem ele é?, escrevi.
A resposta veio depressa.
Bianca me passou a placa.
Não tinha sido isso que eu perguntara.
Guardei o celular e olhei pela janela.
Naquela tarde, meu irmão entrou na minha sala antes que eu terminasse de revisar os relatórios acumulados.
“Você está bem?”
“Estou.”
Ele observou o curativo na minha mão.
“O que aconteceu?”
“Uma dobradiça.”
“Você estava fazendo o quê?”
“Ajudando a tirar móveis de uma casa.”
Ricardo fechou os olhos por um segundo, como se eu tivesse confessado algo absurdo.
“Helena, nós temos pessoas para organizar ajuda.”
“Dona Célia precisava que alguém segurasse uma caixa. Eu tinha duas mãos.”
Ele puxou a cadeira.
“Você mal conhece esse sujeito.”
“Conheço o suficiente para saber que me ajudou.”
“Isso não cria obrigação.”
“Eu sei.”
“Quero ter certeza de que ele também sabe.”
Pousei a caneta.
“Você falou com Samuel?”
Meu irmão ajeitou o relógio.
“Não preciso falar para entender a situação.”
“Então não faça comentários sobre o que ele quer.”
Ricardo ficou em silêncio.
Antes de sair, pediu que eu comparecesse a um jantar com representantes do grupo de Otávio na semana seguinte.
“Sobre o projeto da Bahia?”
“Também.”
“Também o quê?”
“Nada. Vamos conversar lá.”
“Se é uma reunião, mande a pauta.”
Ele saiu sem responder.
Naquela noite, enviei uma fotografia da blusa cinza dobrada na minha cama.
Sua irmã ainda não abriu uma investigação?
Samuel respondeu alguns minutos depois.
Ainda não percebeu. Estou contando com sua discrição.
Escrevi que havia encontrado um restaurante perto da oficina e que gostaria de conhecê-lo na próxima visita.
Ele respondeu:
Pode ser. Mas dona Célia vai dizer que cozinha melhor.
Sorri para a tela.
Nos dias seguintes, trocamos mensagens sobre coisas pequenas. Ele enviou a fotografia da mesa restaurada. Eu mostrei a vista da minha janela depois de uma reunião que terminara tarde.
Na quinta-feira, escrevi:
Sábado consigo ir. Você trabalha até que horas?
A mensagem foi lida.
Não houve resposta.
Na manhã seguinte, perguntei se estava tudo bem.
Samuel respondeu apenas à noite.
Está. Semana complicada.
Eu conhecia semanas complicadas.
Deixei espaço.
No sábado, não viajei. Passei a manhã trabalhando e a tarde andando pelo apartamento com a sensação ridícula de que havia esquecido alguma coisa importante.
A blusa cinza continuava sobre a cadeira.
Na segunda-feira, liguei.
Samuel atendeu depois de alguns toques.
“Oi.”
“Você tem cinco minutos?”
“Tenho.”
Respirei.
“Se você mudou de ideia sobre me ver, prefiro que diga. Eu sei lidar com uma resposta.”
Houve um silêncio.
“Você voltou com alguém?”
Franzi a testa.
“Com quem?”
“Otávio.”
Levantei da cadeira.
“Não. Por que está perguntando?”
“Recebi algumas mensagens.”
“Que mensagens?”
“Helena…”
“Samuel, eu não tenho como responder a uma coisa que não vi.”
Ele concordou em encaminhar as capturas.
A primeira mostrava uma fotografia minha com Otávio na entrada de um restaurante.
Eu usava um vestido que havia doado oito meses antes.
A legenda dizia que tínhamos retomado a relação.
A segunda mensagem afirmava que minha família estava organizando a reconciliação e que o que acontecera na serra fora uma distração enquanto eu estava incomunicada.
A terceira era pior.
Ela não vai querer constranger você dizendo pessoalmente. Tenha bom senso e pare de insistir.
Voltei à ligação.
“Essa foto é antiga. Otávio e eu terminamos há mais de um ano.”
“Foi o que pensei no começo.”
“No começo?”
“Depois chegaram outras coisas. Detalhes do seu trabalho. O nome da sua assistente. Parecia alguém próximo.”
“E você acreditou mais nessa pessoa do que em mim?”
Samuel soltou o ar.
“Eu devia ter perguntado.”
A admissão reduziu minha raiva, sem eliminá-la.
“Devia.”
“Você também não precisava ter passado por isso.”
Sentei novamente.
“Quero descobrir quem mandou. Você pode guardar tudo?”
“Posso.”
“E sábado… eu queria mesmo ir.”
“Eu também queria que viesse.”
Fechei os olhos.
Ali estava a resposta que eu havia esperado durante dois dias.
Mas alguém tinha se colocado entre nós.
Pedi a Bianca que entrasse na sala. Mostrei a fotografia.
“Quem tem acesso a esse álbum?”
Ela reconheceu a imagem.
“Você, seu irmão e a conta que usamos para organizar os arquivos da família. Posso pedir uma verificação dos acessos.”
“Peça. Sem acusar ninguém.”
No fim do expediente, recebemos a informação de que a fotografia havia sido baixada por uma sessão associada à conta de Ricardo.
Aquilo não provava quem enviara as mensagens.
Provava que eu precisava fazer perguntas melhores.
Liguei para meu irmão.
Ele não atendeu.
O assistente informou que Ricardo estava fora do escritório e que tinha cancelado os compromissos da tarde.
Peguei a sacola com a blusa.
Avisei Bianca de que iria à oficina, compartilhei o trajeto e saí de São Paulo antes que pudesse transformar a viagem em mais uma discussão comigo mesma.
Dessa vez, consultei as condições da estrada.
Não chovia.
Cheguei ao fim da tarde. O portão estava aberto, e havia um carro que eu conhecia estacionado perto da varanda.
O de Ricardo.
Desliguei o motor.
A voz do meu irmão vinha da oficina.
“Você vai conseguir contratar gente, comprar equipamento e deixar de depender dessas encomendas pequenas.”
Parei junto à porta entreaberta.
Samuel estava do outro lado da bancada. Ricardo, sentado numa cadeira, tinha colocado uma pasta sobre a madeira.
“E o que você quer em troca?”, Samuel perguntou.
Meu irmão abriu a pasta.
“Que seja razoável. Minha irmã passou por uma experiência difícil. Confundiu gratidão com outras coisas.”
Entrei.
“Minha irmã está aqui e consegue falar.”
Ricardo se levantou depressa.
“Helena…”
Peguei a primeira folha.
Uma proposta de apoio financeiro à oficina.
R$ 300 mil.
Olhei para Samuel.
Ele estava sério, mas não parecia surpreso por me ver. Seus olhos passaram pela sacola na minha mão e voltaram ao meu rosto.
“Você recebeu as fotos?”, perguntou.
“Recebi.”
Ricardo tentou pegar o documento.
Mantive a folha comigo.
“Você veio oferecer dinheiro para ele parar de me ver?”
“Eu vim evitar uma situação que pode prejudicar todos.”
“Você também mandou as mensagens?”
“Não vamos discutir isso aqui.”
“Foi aqui que você decidiu discutir a minha vida.”
Samuel fechou a pasta e a empurrou na direção dele.
“Leve.”
Meu irmão olhou para o papel, depois para a oficina.
“Pense antes de responder. Alguns dos seus clientes têm relações próximas com a minha empresa.”
O som de um carro entrando no terreno interrompeu a frase.
Um homem de camisa social desceu, trazendo uma pasta fina de couro. Ricardo virou para a porta e imediatamente ajeitou a postura.
“André?”
O visitante parou ao me ver. Depois olhou para Samuel.
“Desculpe aparecer sem confirmar. A equipe precisa de uma decisão antes de amanhã.”
Meu irmão deu um passo em direção a ele.
“Eu não sabia que você conhecia o proprietário. Podemos conversar sobre nossa proposta…”
André franziu a testa.
Samuel permaneceu ao meu lado.
“O assunto pode esperar alguns minutos”, disse.
O homem assentiu.
Ricardo abriu um sorriso tenso.
“Samuel, o André representa o grupo com que estamos negociando o investimento na Bahia. Talvez ele consiga explicar por que…”
“Eu não vim avaliar a oficina”, André interrompeu.
O sorriso do meu irmão desapareceu.
O visitante olhou para a pasta que Samuel havia recusado.
Depois se dirigiu a ele com uma formalidade que eu ainda não tinha ouvido naquela casa.
“Senhor Rocha, o conselho está aguardando sua autorização para continuar a negociação com o Grupo Bastos.”
Ricardo ficou imóvel.
Eu virei devagar para o homem que me emprestara uma blusa, preparara meu café e me abraçara na varanda.
“Samuel”, perguntei, “por que o conselho deles está esperando a sua autorização?”
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