"Meu Refúgio Era um Bilionário" Parte 1 — A mão que eu não queria soltar
Parte 1 — A mão que eu não queria soltar
“Larga a bolsa! Olha para mim!”
O carro se moveu antes que eu entendesse de onde vinha aquela voz.
Não foi um solavanco do motor. O motor já estava morto. Foi a traseira deslizando de lado, empurrada pela água que atravessava a estrada e desaparecia numa escuridão onde eu não conseguia enxergar o acostamento.
Apertei o volante como se pudesse manter o veículo no lugar.
O homem bateu a palma no vidro do passageiro.
“Destrava a porta. Você precisa sair agora.”
A chuva escorria pelo rosto dele. Havia uma corda presa à cintura, esticada até uma árvore na parte alta da estrada.
Meu celular vibrou no colo.
Ricardo, outra vez.
Quinze chamadas perdidas.
Destravei as portas.
O homem puxou a do passageiro, que abriu apenas alguns centímetros contra a corrente. Eu me inclinei, tentei alcançar minha bolsa e ouvi o metal ranger.
“A bolsa fica.”
“Meu celular…”
“Pega o celular. Depois vem.”
Enfiei o aparelho no bolso do casaco, soltei o cinto e passei para o banco ao lado. A água já entrava pelo vão da porta.
Ele firmou um pé numa pedra e me ofereceu a mão.
“Pisa onde eu pisar. Não tenta atravessar sozinha.”
Segurei seus dedos.
Consegui apoiar o primeiro pé. Quando tirei o segundo de dentro do carro, alguma coisa cedeu sob a sola do meu sapato.
A corrente puxou minhas pernas.
Meu grito se perdeu na chuva.
Ele me segurou pelo braço e pela cintura, prendendo meu corpo contra o dele enquanto a corda se esticava.
“Não solta.”
Eu não teria conseguido soltar nem se quisesse.
Subimos aos poucos, com a água batendo nos meus joelhos. Ele indicava cada apoio antes de se mover. Na margem mais alta, caí de joelhos sobre a terra molhada.
Só então olhei para trás.
Meu carro girou devagar. Uma das rodas desapareceu além da borda do asfalto.
O homem se abaixou diante de mim.
“Você bateu a cabeça?”
Neguei, sem conseguir falar.
“Está sentindo dor em algum lugar?”
Olhei para minhas mãos. Estavam tremendo tanto que eu não conseguia abri-las.
Ele tirou o casaco e colocou sobre meus ombros.
“Respira. Já saiu.”
“Eu achei que dava para passar.”
Minha voz saiu pequena, irreconhecível.
“Agora não adianta discutir com a estrada.”
Ele disse aquilo sem irritação. Apenas conferiu se eu conseguia me levantar e me conduziu até uma caminhonete estacionada longe da água.
Antes de abrir a porta, parou.
“Meu nome é Samuel. Tenho uma oficina perto daqui. A Defesa Civil já foi avisada, mas essa estrada não vai abrir hoje.”
Levantei os olhos.
Na luz interna da caminhonete, vi um rosto que a chuva havia escondido. Cabelo escuro, barba curta, uma cicatriz fina perto da sobrancelha. Ele tinha as mangas da camisa dobradas e uma mancha de verniz no antebraço.
“Posso ver sua habilitação?”
“Pode.”
Não sorriu da minha desconfiança. Não perguntou se eu achava que ele tinha acabado de se arriscar para me sequestrar.
Pegou a carteira e me entregou o documento.
Samuel Rocha.
Fotografei a habilitação e a placa. Quando apareceu uma barra de sinal, enviei as imagens para Bianca junto com uma mensagem curta.
Estou bem. Ele me tirou do carro. Vou esperar na oficina dele. Compartilho a localização assim que conseguir.
Samuel esperou que eu terminasse.
“Quer falar com alguém antes de irmos?”
“Quero que meu irmão pare de ligar.”
“Essa parte eu não sei resolver.”
Uma risada escapou de mim, seguida por um tremor que quase fez meus dentes baterem.
Ele ligou o aquecedor.
Durante o caminho, mantive o celular nas mãos e observei cada curva. Samuel dirigia devagar, parando sempre que não conseguia avaliar a profundidade de uma poça.
Não me perguntou por que eu estava sozinha.
Foi um alívio.
Eu havia saído de uma visita a uma propriedade que o Grupo Bastos pretendia transformar em hotel. Tinha recusado o motorista para conseguir algumas horas sem relatórios, telefonemas e alguém ouvindo minhas conversas.
Aos trinta anos, eu administrava centenas de funcionários e precisava justificar ao meu irmão por que desejava dirigir meu próprio carro.
A casa ficava ao lado de um galpão de portas verdes.
Samuel acendeu a luz da varanda, abriu a porta e permaneceu do lado de fora enquanto eu entrava.
“Vou buscar roupa seca. Minha irmã deixa metade do armário aqui.”
A sala tinha uma estante cheia de livros, duas poltronas diferentes e uma mesa com marcas antigas na madeira. Havia uma manta dobrada no sofá.
Nada parecia escolhido para impressionar uma visita.
Samuel voltou com uma calça de moletom, uma blusa cinza e uma toalha.
“O banheiro é no fim do corredor. A chave está na porta. Vou ficar na cozinha.”
Entrei e tranquei.
Só quando tirei o casaco percebi que meu braço doía onde ele havia me segurado. Toquei a pele e lembrei da água puxando minhas pernas.
Sentei na tampa do vaso.
Chorei sem barulho, com a roupa molhada ainda grudada no corpo.
Não por muito tempo. O suficiente para deixar de fingir, por alguns minutos, que eu estava apenas atrasada.
Quando saí, Samuel havia trocado a camisa encharcada por uma camiseta escura. Estava diante do fogão.
“Café ou chá?”
“Café.”
“Tem pão, queijo e ovos. Se você tiver alguma restrição, me avisa antes que eu estrague tudo.”
“Você acabou de me tirar de um carro. Acho que consigo sobreviver ao seu jantar.”
Ele olhou por cima do ombro.
“Ótimo. Minha reputação na cozinha é menos confiável.”
Sentei à mesa.
Samuel colocou uma caneca diante de mim e empurrou o açúcar para perto. Suas mãos tinham pequenos cortes, unhas limpas e a pele áspera de quem trabalhava com ferramentas.
Abri o aplicativo do banco.
“Me passa sua chave Pix.”
Ele pousou a frigideira.
“Para quê?”
“Você perdeu tempo, combustível, uma corda talvez…”
“A corda está inteira.”
“Samuel.”
“Helena, come primeiro.”
Eu não lembrava de ter dito meu nome. Depois percebi que ele tinha ouvido quando atendi Bianca no caminho.
Fechei o aplicativo, um pouco constrangida.
“Não estou tentando ofender.”
“Eu sei.”
Ele se sentou do outro lado da mesa.
“Mas você ainda está tremendo. A gente pode deixar as contas para depois.”
O celular finalmente tocou com sinal suficiente.
Atendi Ricardo.
“Onde você está?”
“Bianca recebeu a localização.”
“Eu perguntei onde você está.”
“Numa casa. Em segurança.”
“Com quem?”
“Com a pessoa que me tirou do carro.”
“Você precisa ir para um hotel.”
Olhei para a janela. A chuva batia tão forte que mal se distinguia o jardim.
“As estradas estão fechadas.”
“Eu vou providenciar alguém.”
“Você não vai mandar ninguém atravessar uma enchente porque não gosta da minha resposta.”
Samuel se levantou para buscar mais pão, dando espaço à conversa.
Ricardo baixou a voz.
“Você não conhece esse sujeito.”
“Por isso mandei os documentos dele para Bianca.”
“Não seja ingênua.”
A palavra me atingiu com mais força do que deveria.
“Hoje eu cometi um erro numa estrada. Isso não significa que você ganhou o direito de decidir o resto da minha vida.”
Desliguei antes que ele respondesse.
Samuel voltou, mas não se sentou imediatamente.
“Quer que eu fique na oficina enquanto você termina de falar?”
“Não. Já terminei.”
Ele assentiu e colocou o prato entre nós.
Não perguntou o que meu irmão havia dito.
Conversamos sobre a oficina. Samuel restaurava móveis antigos, principalmente peças que as pessoas não queriam perder. Falou de uma senhora que havia levado seis cadeiras e insistido que a sétima, quebrada, continuasse pertencendo ao conjunto.
“Você conseguiu?”
“Consegui. Ela levou as sete e reclamou do prazo.”
Sorri.
“Cliente satisfeita.”
“Completamente.”
Depois do jantar, ele me mostrou o quarto de hóspedes.
“Tem um carregador na gaveta. Se precisar de alguma coisa, estou no sofá.”
“Essa é sua cama?”
“É uma cama.”
“Você está sendo evasivo.”
“E você está quase dormindo em pé.”
Eu estava.
Na porta, hesitei.
“Obrigada por não soltar.”
Samuel ficou quieto por um instante.
“Você também segurou firme.”
Quando ele saiu, sentei na beirada da cama e conectei o celular.
Havia uma notificação de segurança.
Uma tentativa de acesso à minha pasta pessoal, feita poucos minutos depois da ligação com Ricardo.
O dispositivo não era o meu.
Mudei a senha. Encerrei as sessões abertas.
Então telefonei para Bianca.
“Você compartilhou alguma coisa com meu irmão?”
“A localização e a placa. Ele disse que precisava saber quem estava com você caso houvesse outro problema.”
Olhei para a porta fechada.
“Não envie mais nada sem falar comigo.”
“Helena…”
“Estou bem. Amanhã explico.”
Deitei com a luz acesa.
No corredor, ouvi Samuel fechar uma janela e testar a tranca da porta.
A chuva continuava.
Meu carro estava perdido, meu irmão tentava entrar nos meus arquivos, e eu estava na casa de um homem que conhecia havia poucas horas.
Mesmo assim, foi naquela cama que consegui dormir.
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