"A Preferida do Bruto da Serra" Parte 10 — Fique Ao Meu Lado
Parte 10 — Fique Ao Meu Lado
Mariana atendeu na manhã seguinte, antes que eu terminasse de organizar as perguntas.
“Você vai à reunião?”, perguntou.
“Vou. Mas não quero transformar aquilo numa discussão sobre quem tem o documento mais bonito.”
“Ótimo. Os documentos serão analisados pelos meios adequados. Lá, você pode esclarecer o que estão dizendo em seu nome.”
Davi estava sentado do outro lado da mesa. Eu havia colocado o telefone no viva-voz com a autorização dela.
Mariana explicou quais informações já podíamos confirmar e quais ainda dependiam de verificação. Meu pai tinha recebido dinheiro, e parte dos pagamentos estava comprovada. A proposta de compra não resolvia essas contas: misturava valores, bens e condições que precisavam ser separados.
Anotei tudo.
“Não vou dizer que meu pai não deve”, falei. “Vou dizer que a dívida não dá ao Otávio o direito de escolher meus contratos.”
“Exatamente.”
Quando desligamos, Davi me ofereceu café.
Peguei a caneca.
“Quero que esteja comigo.”
“Vou estar.”
“Mas preciso combinar uma coisa.”
Ele se recostou.
“Pode falar.”
“Se tentarem me provocar, me deixe terminar. Se disserem algo sobre seu trabalho, você responde pelo que sabe. Não quero que vire uma briga entre vocês.”
Davi passou o polegar pela alça da caneca.
“E se falarem de você?”
“Eu respondo.”
Ele me olhou por alguns segundos.
“Não vai ser fácil ficar quieto.”
“Não estou pedindo que finja não ouvir. Estou pedindo que confie em mim.”
Davi assentiu.
“Está bem.”
Estendi a mão sobre a mesa.
Ele a segurou.
“Depois você pode reclamar comigo”, acrescentei.
“Depois eu preferia levar você para jantar.”
Sorri.
“Vamos ver quanto tempo dura a reunião.”
Escolhi o mesmo vestido verde que havia usado no leilão.
Dona Nair percebeu enquanto me ajudava a fechar o pequeno botão nas costas.
“Você tem outros.”
“Eu gosto deste.”
E gostava mesmo.
Tinha permitido que aquela noite alterasse a lembrança de uma roupa que me caía bem. Não queria continuar fazendo isso.
Passei um pouco de batom, prendi o cabelo e coloquei a pasta na bolsa.
Meu pai estava esperando na sala.
“Vou com você.”
Olhei para sua bengala.
“Tem certeza?”
“Não vou ficar em casa enquanto falam dos papéis que eu assinei.”
Dona Nair se ofereceu para acompanhá-lo.
Davi chegou pouco depois.
Quando me viu, sorriu de um jeito que fez minha coragem deixar de parecer apenas uma obrigação.
“Lembro desse vestido.”
“Eu também.”
Ele tocou minha mão.
“Hoje você quer que eu carregue a pasta?”
“Quero.”
Entreguei.
Davi a recebeu sem comentário, e fomos juntos.
O salão estava mais cheio do que no leilão.
A mesa comprida havia sido levada para a frente. Otávio estava atrás dela, com um computador e uma apresentação projetada na parede. Viviane recebia os moradores junto à porta.
Seu sorriso ficou rígido quando nos viu.
“Cecília. Que bom que veio ouvir.”
“Também vim falar.”
“Vamos seguir uma ordem.”
“Pode me colocar nela.”
Viviane olhou para minha bolsa, depois para Davi, que segurava a pasta.
“Seu representante vai falar?”
“Eu vou.”
Dona Lurdes se aproximou antes que a conversa continuasse.
“Vou anotar seu nome. Estamos organizando os pedidos de fala.”
Agradeci.
Sentamos na terceira fileira. Meu pai e dona Nair ficaram perto do corredor.
Davi devolveu a pasta ao meu colo.
A mão dele descansou sobre a cadeira entre nós.
Toquei seus dedos por um instante.
Otávio começou mostrando imagens de chalés, jardins e pessoas sorrindo ao redor de uma piscina. Falou de visitantes, empregos e oportunidades.
Eu sabia que a cidade precisava de trabalho.
Também sabia que uma imagem bonita não explicava por onde os caminhões passariam, quem continuaria tendo acesso ou quais famílias teriam de vender.
Quando apresentou o mapa, levantou a cabeça.
“Infelizmente, alguns interesses particulares vêm dificultando o andamento. Não podemos permitir que uma questão sentimental prejudique toda a comunidade.”
Algumas pessoas olharam para mim.
Senti Davi se mover na cadeira.
Encostei meu joelho no dele.
Otávio continuou:
“Há um proprietário local que pretende preservar sua conveniência e uma família com pendências antigas que agora se recusa a negociar.”
Ergui a mão.
Dona Lurdes apontou para a lista.
“Cecília pediu a palavra. Pode falar.”
Levantei.
Minhas pernas estavam firmes até chegar à frente. Então percebi o tamanho da sala, a proximidade da mesa e o rosto de Patrícia perto da parede.
Pousei minha pasta.
“Minha família não assinou a proposta que recebemos. Estamos verificando os documentos da terra e as contas do meu pai com uma advogada independente.”
Otávio abriu a boca.
Eu continuei.
“Meu pai recebeu empréstimos. Também fez pagamentos. Vamos apurar o que ainda existe para acertar. Eu não disse que ninguém deve nada.”
Mostrei uma cópia da proposta.
“O que não aceito é apresentar uma dívida como se ela autorizasse alguém a comprar todos os outros assuntos da nossa vida.”
Viviane se inclinou para o irmão.
Otávio apontou para o papel.
“Fizemos uma oferta generosa.”
“Com a condição de eu encerrar um contrato de fornecimento de refeições.”
Virei a folha para a sala.
“Esta é a minha atividade profissional. Tenho preço por refeição, recibos e pagamentos. Não é uma concessão feita pelo Davi.”
Um homem no fundo ergueu a mão.
“Mas vocês estão juntos, não estão?”
“Estamos.”
Dizer aquilo ali não me envergonhou.
“Isso não muda o preço do arroz, da carne nem do meu trabalho. E não decide o destino da terra.”
O homem se acomodou na cadeira.
Viviane tentou intervir.
“Ninguém está julgando sua vida pessoal.”
Olhei diretamente para ela.
“Então não usem minha vida pessoal para explicar uma discordância sobre o projeto.”
Dona Lurdes pediu silêncio quando alguns moradores começaram a comentar.
Abri a página seguinte.
“Esta passagem já é usada por famílias, entregadores e trabalhadores. Trouxe registros antigos de manutenção. As cópias foram encaminhadas para análise. Não estou pedindo que vocês decidam uma disputa aqui. Estou pedindo que não aceitem uma apresentação em que o caminho desaparece como se ninguém o utilizasse.”
Patrícia se levantou.
“Parte dos registros era do meu pai. Eu entreguei as cópias.”
Otávio a encarou.
“Você entende o que está defendendo?”
“Entendo que meu pai ajudou a manter um caminho que aparece fechado no seu mapa.”
Ela olhou para mim antes de continuar.
“E preciso corrigir outra coisa. No leilão, eu zombei da Cecília. Não foi brincadeira inocente. Eu quis diminuir o trabalho dela.”
O salão ficou quieto.
Meu primeiro impulso foi ajudá-la a terminar, tornar aquilo menos constrangedor.
Não fiz.
Patrícia respirou fundo.
“Peço desculpas aqui porque foi aqui que falei.”
Assenti.
“Obrigada por corrigir.”
Otávio virou-se para Davi.
“Já que o Ferraz está presente, talvez queira dizer se nunca participou desse projeto.”
Davi se levantou, mas ficou perto da própria cadeira.
“Participei de uma avaliação para reformar duas casas. Recebi por uma visita técnica. Saí quando não concordei com as mudanças de acesso.”
“Você sabia o potencial do empreendimento.”
“Também sabia o que estava previsto para a estrada. Tenho os e-mails e as versões que recebi.”
Ele abriu a pasta fina que trouxera.
Não falou sobre minha terra. Não pediu que acreditassem nele porque me conhecia.
Respondeu pelo próprio trabalho.
Depois sentou.
Voltei a olhar para a sala.
“Quero preservar a área da minha mãe e discutir a manutenção da passagem com quem a utiliza. Isso exige responsabilidades divididas. Não vou prometer sustentar uma estrada sozinha, nem oferecer trabalho gratuito para que me deixem conservar o que é meu.”
Uma senhora perto da janela perguntou:
“E os empregos?”
“Eu quero empregos também. Já contratei uma pessoa. A pensão atende visitantes, a cozinha fornece refeições, outras lojas fazem parte desse movimento. Não tenho uma promessa de cem vagas para mostrar. Tenho um negócio funcionando e um plano para crescer sem fechar o caminho dos outros.”
Otávio bateu a mão na mesa.
“Seu pai assinou documentos!”
Antônio tentou se levantar. Dona Nair segurou a bengala enquanto ele encontrou apoio.
“Assinei”, disse meu pai.
A voz estava fraca, mas o salão ouviu.
“E guardei recibos. Tudo vai ser conferido. Eu errei em não resolver isso antes. Não vou corrigir o erro mandando minha filha assinar outra coisa sem entender.”
Olhei para ele.
Meu pai sustentou meu olhar.
Dona Lurdes pediu que qualquer documento adicional fosse apresentado aos responsáveis pela análise, em vez de usado como ameaça durante a reunião.
As perguntas mudaram depois disso.
Um entregador falou sobre a descida no período de chuva. Uma moradora perguntou pela captação de água. Um rapaz quis saber se o projeto tinha alternativas para o acesso.
Otávio precisou responder sobre o que estava no mapa.
Eu voltei para minha cadeira.
Davi não disse que eu havia sido perfeita.
Apenas colocou a mão sobre a minha.
Meus dedos estavam gelados.
Os dele estavam quentes.
Saímos quase duas horas depois.
Meu pai foi para casa com dona Nair. Eu permaneci junto à caminhonete, tentando aliviar os ombros.
Davi abriu a porta, mas esperei.
“Você conseguiu ficar quieto.”
“Algumas vezes por muito pouco.”
Ri, exausta.
Ele se aproximou.
“Você está bem?”
“Estou cansada. E com fome.”
“Eu disse que queria levar você para jantar.”
“Hoje eu aceito qualquer lugar onde ninguém tenha um microfone.”
Davi sorriu.
Segurei sua camisa antes que entrasse.
“Obrigada por ficar ao meu lado.”
“Foi onde você pediu.”
Olhei para seu rosto.
“É onde eu quero.”
O sorriso desapareceu devagar, substituído por uma expressão mais séria.
“Quero estar mais vezes.”
“Mais vezes?”
Davi apoiou a mão na minha cintura.
“Quando você acorda. Quando fecha a cozinha. Sem precisar escolher quais noites cabem.”
Meu coração começou a bater depressa.
“Está falando de morar juntos?”
“Estou perguntando se você quer pensar nisso comigo.”
Eu queria.
Também queria que aquele desejo coubesse na vida que estava construindo, sem engolir o resto.
Passei os dedos pela barba dele.
“Amanhã. Na minha cozinha.”
Ele ergueu uma sobrancelha.
“Vai preparar um orçamento?”
“Um plano.”
Davi inclinou o rosto e me beijou.
Quando se afastou, ainda estava sorrindo.
“Então amanhã eu escuto seu plano.”
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