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"A Preferida do Bruto da Serra" Parte 9 — Não Vou Abandonar Minha Vida

正文开头

Parte 9 — Não Vou Abandonar Minha Vida

Meu pai estendeu a mão para o envelope.

Eu o afastei.

“Vou fazer cópias primeiro.”

“Cecília, eu preciso ler.”

“Vai ler. Depois vamos conversar com uma advogada.”

Ele se recostou, ofendido com a ordem.

Eu não suavizei.

Fiz fotografias, anotei a data da entrega e guardei o envelope com o restante dos documentos.

Às dez, estávamos no escritório de Mariana Rezende, na cidade vizinha.

Eu havia marcado a consulta depois de encontrar seu contato e confirmar que não trabalhava para o empreendimento dos Bastos.

Mariana leu sem interromper.

Depois colocou a proposta sobre a mesa.

“Antes de decidir qualquer coisa, precisamos separar três assuntos: a terra, o que seu pai realmente deve e as condições que estão tentando acrescentar.”

Meu pai passou a mão pelos cabelos.

“Eu peguei dinheiro emprestado. Não quero fingir que não peguei.”

“Ninguém está propondo isso”, ela respondeu. “Precisamos conferir quanto, o que foi pago e o que consta nos documentos.”

Abriu os recibos antigos.

Enquanto ela anotava, percebi que eu esperava uma solução instantânea. Uma frase capaz de retirar todo o peso das minhas costas.

Não veio.

Vieram tarefas.

Reunir comprovantes. Solicitar cópias. Não entregar originais sem registro. Não assinar uma compra apenas porque o prazo da proposta estava terminando.

Eu sabia trabalhar com tarefas.

Saímos com um plano e uma nova consulta marcada.

No carro, meu pai ficou olhando pela janela.

“Quanto vai custar?”

Informei o valor combinado para aquela primeira etapa.

Ele fechou os olhos.

“Você já tem o fornecedor e o Ferraz para pagar.”

“Eu sei.”

“Talvez a proposta…”

“Não vou terminar minha relação para que Otávio considere você digno de tratamento.”

Antônio virou o rosto.

“Não era isso que eu ia dizer.”

“Então diga.”

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

“Eu queria que você não precisasse passar por isso.”

Segurei o volante.

“Então me ajude com a verdade.”

Meu pai assentiu.

Naquela tarde, separou um caderno de pagamentos que ainda não havia mostrado. Não me deu todas as respostas, mas deixou de fingir que não estavam faltando perguntas.

Dois dias depois, três reservas de grupo foram canceladas.

Uma vinha de um evento para o qual Viviane costumava indicar hospedagem. As outras duas tinham sido feitas pela mesma organizadora.

As mensagens eram educadas. O efeito no meu caixa não era.

Fiz as contas junto com Luciana.

Se mantivéssemos o gasto previsto, faltaria dinheiro para o mês seguinte.

“Posso reduzir meus dias”, ela sugeriu.

“Se eu reduzir agora, volto a fazer tudo sozinha.”

“Então precisamos vender mais sem inventar uma festa inteira.”

Olhei para a panela de ferro no fogão.

“Pão.”

Luciana se aproximou.

“Por encomenda?”

“Com horário de retirada. Pagamento para confirmar o pedido. Nada de assar e torcer para vender.”

Fiz uma lista curta: pão de aveia, pão branco e uma opção recheada. Calculei o custo de cada um, fotografei uma fornada e publiquei nos contatos da pensão.

正文1

Na mensagem, informei preço, peso e dia de retirada.

Não escrevi uma história triste.

Queria vender comida.

Dona Nair compartilhou. Ícaro encomendou dois. Uma hóspede antiga pediu quatro para levar aos filhos.

Davi mandou uma mensagem.

“Posso encomendar?”

Sorri para a tela.

“Pode. Quantos?”

“Dois. Pelo preço anunciado.”

“Você está ficando bom nisso.”

“Estou prestando atenção.”

Patrícia apareceu na pensão na sexta-feira.

Por um instante, pensei que viesse buscar uma encomenda em nome de outra pessoa.

Ela segurava uma pasta de plástico.

“Tem alguns minutos?”

Eu estava com farinha nas mãos.

“Tenho dez. Depois preciso voltar ao forno.”

Patrícia olhou para a cozinha.

“Meu pai conhecia sua mãe.”

Não respondi.

Ela colocou a pasta na mesa.

“Encontrei papéis dele sobre a passagem. Ele ajudava a levar material quando faziam manutenção.”

Abri.

Havia registros de compras, uma lista de participantes e um desenho antigo do caminho. O nome de Teresa aparecia junto ao de Lídia.

“Por que está trazendo agora?”

Patrícia apertou a alça da bolsa.

“Porque o projeto também muda a entrada para a área onde recebo farinha. E porque ouvi Otávio dizer que ninguém tinha compromisso nenhum com aquele caminho.”

“Você sabia desses papéis antes?”

“Sabia da pasta. Não tinha olhado direito.”

Esperei.

Ela respirou fundo.

“Também vim pedir desculpa pelo leilão.”

Olhei para suas mãos bem cuidadas.

Lembrei da tampa erguida, da risada, do silêncio enquanto meu pão era oferecido por menos do que custara.

“Você não estava fazendo uma crítica ao pão.”

“Não.”

“A ideia era me envergonhar.”

Patrícia baixou os olhos.

“Era.”

A resposta me surpreendeu mais do que uma desculpa bem ensaiada teria surpreendido.

“Se vai corrigir, corrija onde falou.”

Ela assentiu.

“Posso fazer isso.”

“E esta pasta?”

“Pode copiar. Quero os originais de volta.”

“Vou registrar o que recebeu e devolver.”

Patrícia esperou enquanto eu anotava.

Não saímos dali amigas.

Mas saímos com um acordo que nenhuma de nós precisava fingir que era carinho.

No sábado, os pedidos chegaram ao dobro do previsto.

Eu aceitei antes de verificar se tínhamos espaço suficiente para todas as fornadas.

Às seis da tarde, a cozinha estava quente, minha coluna doía e ainda faltavam quatro pães.

Davi veio buscar a encomenda.

Viu as caixas, Luciana preparando etiquetas e meu rosto.

“O que precisa?”

A resposta habitual subiu até minha boca.

Nada.

Eu a engoli.

“Pode levar estas entregas para dona Nair e para a farmácia? Depois preciso que tire os tabuleiros do armário de cima.”

“Posso.”

Ele fez as entregas e voltou.

Luciana saiu às sete, como havíamos combinado. Davi ficou lavando o que eu liberava da bancada.

Eu conferia a última massa quando ele sugeriu:

“Você devia sentar cinco minutos.”

“Depois.”

“Cecília, está há horas em pé.”

“E os pães não vão se assar sozinhos.”

Davi fechou a torneira.

“Eu não disse que vão.”

“Então pare de dizer o que devo fazer.”

Ele pousou o pano.

“Você me pediu ajuda. Estou tentando ajudar.”

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“Lavando louça ou administrando meu corpo?”

Sua expressão endureceu.

Arrependi-me antes que respondesse.

“Se qualquer preocupação vira uma ordem para você, eu não sei onde posso ficar.”

O forno estalou.

Fiquei olhando a massa, sem vê-la.

Davi deu um passo para trás.

“Vou deixar você trabalhar.”

“Espere.”

Ele parou perto da porta.

Passei as mãos pelo avental.

“Estou cansada. Falei de um jeito injusto.”

Davi não se aproximou imediatamente.

“Eu podia ter perguntado se queria parar.”

“Podia. Mas eu não precisava atacar.”

Ele assentiu.

Olhei para o relógio.

“Faltam vinte minutos para mexer no forno. Pode fazer um café?”

“Posso.”

Sentei.

Minhas pernas tremiam.

Davi colocou uma caneca diante de mim e sentou do outro lado.

“Eu aceitei pedidos demais”, confessei.

“Quantos consegue fazer no próximo sábado?”

Peguei o caderno.

Dessa vez, a pergunta não me fez sentir pequena.

Fez-me sentir acompanhada.

Calculamos juntos. Eu defini o limite. Ele sugeriu uma segunda grade para resfriar os pães, e eu aceitei.

Quando terminamos, coloquei os pés sobre a cadeira vazia.

Davi olhou.

“Melhor?”

“Muito.”

Ele tocou meu tornozelo de leve.

“Então fique aí. Eu lavo as duas últimas formas.”

Mais tarde, meu pai entrou na cozinha.

Davi tinha ido guardar a caminhonete, e eu fechava as contas do dia.

Antônio sentou perto de mim.

“Você parece exausta.”

“Estou. Vendemos bem.”

Ele observou os recibos.

“Quando disse para ter cuidado com ele, não era só por causa da terra.”

Levantei os olhos.

Meu pai esfregou as mãos.

“Fiquei com medo de você ir embora.”

A honestidade me atingiu sem proteção.

“Eu continuo aqui.”

“Sei. Mas, desde que sua mãe morreu, acostumei a ter você cuidando de tudo.”

“Eu também me acostumei.”

Ele assentiu, os olhos úmidos.

“Não queria ser deixado.”

Fechei o caderno.

“Pai, eu posso amar você e ter outra vida. Não posso passar o resto dela provando que não vou abandonar ninguém.”

Ele olhou para a porta por onde Davi saíra.

“Eu sei.”

“Precisamos organizar seus cuidados com mais gente. Dona Nair ajuda, mas também tem a vida dela.”

“Podemos conversar.”

Apoiei a mão sobre a dele.

Não resolvemos oito anos numa noite.

Mas meu pai não retirou a mão.

Davi voltou quando eu apagava a luz da cozinha.

Na varanda, encostei nele.

“Pode ficar um pouco?”

Ele me abraçou.

“Posso.”

Ficamos quietos.

Depois ergui o rosto.

“Eu não vou sair correndo toda vez que tiver medo.”

“E eu não vou pagar nada escondido.”

“Nem decidir meus horários.”

“Posso continuar oferecendo café?”

Sorri.

“Pode.”

Ele me beijou.

Meu telefone vibrou no bolso antes que eu conseguisse puxá-lo para mais perto.

Era uma mensagem de Mariana.

Otávio havia anunciado uma reunião pública sobre o empreendimento. Na convocação, dizia que interesses particulares estavam ameaçando empregos e o desenvolvimento da cidade.

Meu nome aparecia junto ao de Davi.

Mostrei a tela.

Ele leu, depois olhou para mim.

“Quer conversar com a advogada amanhã?”

“Quero.”

Davi assentiu.

Pela primeira vez, a ideia de entrar outra vez naquele salão não me fez querer desaparecer.

Eu conhecia a mesa onde tinham rido do meu pão.

Agora sabia exatamente o que pretendia dizer quando voltasse.

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