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"A Preferida do Bruto da Serra" Parte 8 — Você Veio Por Mim?

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Parte 8 — Você Veio Por Mim?

Não telefonei do balcão do depósito.

Peguei minhas embalagens, levei-as à pensão e ajudei Luciana a terminar o almoço. Se saísse correndo, repetiria o mesmo impulso que havia me feito afastar Davi: sentir primeiro, transformar em decisão logo depois.

Ao meio-dia, liguei.

“Você pode conversar comigo hoje?”

Ouvi um ruído de ferramenta do outro lado.

“Posso. Onde?”

“No sítio. Depois das entregas.”

“Vou estar aqui.”

A simplicidade da resposta quase me fez mudar de ideia.

Eu queria que ele demonstrasse saudade. Também temia que o fizesse e eu não soubesse responder.

Passei a viagem inteira ensaiando uma pergunta que abandonaria assim que o visse.

Davi estava no pátio, com uma trena presa no cinto. A camisa tinha poeira nos ombros. Quando saí do carro, ele deu um passo na minha direção e parou.

Olhou para as caixas.

“Quer ajuda?”

“Luciana e Ícaro estão levando.”

Ele assentiu.

“Então vamos.”

Caminhamos até a varanda da casa. Havia duas canecas sobre um banco. Não sabia se ele as havia preparado para nós ou se eu estava procurando sinais em todo lugar.

Sentei.

Davi ficou de pé até eu indicar o espaço ao lado.

“Vi um orçamento seu no depósito”, falei.

Ele apoiou os cotovelos nos joelhos.

“Do acesso?”

“Sim.”

“Ainda estou conferindo.”

“Vai fazer outra estrada?”

“Se precisar.”

Olhei para suas mãos.

“Por minha causa?”

Davi demorou um pouco.

“Por causa do sítio. Preciso conseguir entrar e sair sem depender de uma discussão que pode levar tempo.”

“Você acha que vou fechar a passagem?”

“Não sei o que vai decidir.”

“Mas…”

Ele virou o rosto para mim.

“Você pode decidir. Foi o que pediu.”

A frase me calou.

Não havia frieza na voz dele. Havia cansaço.

“Eu não queria que você gastasse tudo isso.”

“Não vou começar obra hoje. Estou fazendo contas.”

“É muito?”

“É o bastante para eu preferir não gastar. Mas existe.”

Davi pegou a caneca e me ofereceu.

Aceitei.

O café já estava morno.

“Quis deixar claro que você não precisa escolher uma coisa para me manter por perto”, disse.

Meu polegar parou na alça.

Olhei para ele.

“Você ainda quer ficar por perto?”

Davi soltou uma respiração curta, quase uma risada.

“Cecília, você sabe que quero.”

“Não quis presumir.”

“Passei dois dias evitando pegar o telefone. Não foi porque perdi a vontade.”

O alívio veio tão depressa que meus olhos arderam.

Baixei a caneca.

“Eu senti sua falta.”

Ele não respondeu imediatamente.

Depois sua mão pousou no banco, entre nós, aberta.

Coloquei a minha sobre ela.

Davi fechou os dedos.

“Eu podia ter conversado mais antes de pedir que se afastasse”, falei.

“Podia.”

A honestidade fez meu rosto esquentar.

“Fiquei com medo.”

“Eu percebi. Não soube do quê.”

Olhei para as árvores.

Era mais fácil confessar olhando para uma folha do que para o rosto daquele homem.

“Durante muito tempo, as pessoas me procuraram porque eu sabia fazer alguma coisa. Cozinhar. Carregar. Cuidar. Se eu parasse, deixava de fazer falta.”

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Ele não interrompeu.

“Quando descobri a terra, pensei que talvez tivesse encontrado mais uma coisa útil em mim.”

Davi apertou minha mão.

Esperei alguma negação apressada.

Ele ficou em silêncio até que eu o olhasse.

“Eu não consigo desfazer o que fizeram você pensar de si mesma”, disse. “Mas posso dizer o que quero e fazer minha parte para você acreditar.”

Meu peito se contraiu.

“Diga.”

“Quero chegar no fim do dia e encontrar você porque combinamos de nos ver. Quero que fique para tomar café mesmo quando não tem entrega. Quero poder beijar você sem antes perguntar se estamos falando de trabalho.”

Uma lágrima escapou antes que eu conseguisse detê-la.

Limpei com a mão livre.

Davi continuou:

“Também quero que me diga quando estou passando do ponto. Só preciso que me deixe responder antes de decidir que eu sou igual aos outros.”

Assenti.

Aquilo eu podia fazer.

“Não quero usar essa história para testar você toda hora.”

“Então não use.”

Sorri, apesar dos olhos molhados.

“Você facilita muito pouco.”

“Estou tentando.”

Aproximei-me até nossos joelhos encostarem.

“Posso tentar também.”

Davi ergueu a mão e tocou meu rosto. Eu virei a cabeça e beijei sua palma.

Foi ele quem perdeu o fôlego daquela vez.

“Você ainda quer me beijar?” perguntei.

Seu olhar desceu para minha boca.

“Estou tentando manter a conversa.”

“Eu acho que terminamos a parte mais difícil.”

Ele me puxou com cuidado.

O beijo teve saudade suficiente para me fazer esquecer a caneca. Davi a tirou da minha mão antes que o café derramasse e colocou no chão.

Segurei sua nuca.

Dessa vez, não estava procurando uma resposta escondida no modo como me tocava.

Eu já havia perguntado.

Ele já havia respondido.

Quando nos afastamos, apoiei o rosto no ombro dele.

“Tem outra coisa”, murmurei.

Senti seu peito se mover.

“Diga.”

“Quero procurar uma advogada por conta própria. E quero que você me conte se alguma decisão sobre a terra afetar seu trabalho.”

“Está bem.”

“Sem resolver escondido.”

“Sem sumir dois dias antes de perguntar.”

Afastei o rosto.

“Justo.”

Ele roçou o nariz no meu.

“E podemos falar de outras coisas também?”

“Podemos.”

“Ótimo. Porque estou com fome.”

Olhei para a hora e comecei a levantar.

Davi segurou minha mão, sem me prender.

“Fome da comida que já está pronta”, esclareceu.

Ri e puxei-o comigo.

Na cozinha, comemos as porções que havíamos separado. Ícaro entrou para buscar água, nos viu à mesa e abriu um sorriso grande demais.

“Hoje o chefe almoça no horário?”

Davi ergueu os olhos.

“Você precisa de alguma coisa?”

“Água.”

“Está na torneira.”

O rapaz encheu a garrafa e saiu sem conseguir esconder o sorriso.

Eu mordi a parte interna da bochecha.

“Ele vai comentar.”

“Vai.”

“Você se importa?”

Davi olhou para minha mão perto do prato.

“Você?”

Pensei antes de responder.

“Não quero que comentem meu trabalho como se eu não tivesse conseguido por mérito.”

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“Isso eu também não quero.”

“Mas não me incomoda que saibam de nós.”

Ele assentiu.

Continuou comendo.

Por baixo da mesa, encostou o joelho no meu.

Convidei-o para jantar na pensão naquela noite.

Meu pai soube pela manhã que eu procuraria uma advogada. Não ficou satisfeito, mas entregou a chave do armário do depósito sem outra discussão.

Agora teria de saber o restante.

Davi apareceu às sete, com uma pequena sacola de tomates do sítio.

Meu pai olhou para a sacola.

“Trouxe pagamento pelo jantar?”

“Trouxe tomates.”

Eu peguei antes que a conversa se transformasse numa disputa.

“E veio porque eu convidei.”

Sentamos à mesa.

No início, falamos da estrada, do tempo e de uma janela que precisava de conserto. Então meu pai apoiou o garfo no prato.

“Você pretende continuar trabalhando com ele?”

“Pretendo.”

“E está se envolvendo também.”

Olhei para Davi.

Ele não desviou os olhos de mim.

“Estou.”

Meu pai respirou fundo.

“Não quero ver você sofrer.”

“Eu também não. Mas não consigo organizar uma vida em que nada possa me machucar.”

“Seu trabalho…”

“Continua sendo meu trabalho. Davi veio jantar porque estamos juntos.”

Dizer aquilo em voz alta me deu uma alegria inesperada.

Estamos juntos.

Meu pai passou os olhos entre nós.

“Você tem muita responsabilidade aqui.”

“Tenho. E estou contratando ajuda para não precisar fazer tudo sozinha.”

Davi manteve as mãos sobre a mesa.

Antônio finalmente falou com ele.

“Ela não pede ajuda facilmente.”

“Já percebi.”

“E fica brava quando acha que alguém está mandando.”

“Também já percebi.”

Olhei para Davi.

Ele estava sério, mas havia um sorriso nos olhos.

“Ele aprende devagar”, acrescentei.

Meu pai soltou uma risada curta.

A tensão não desapareceu. Porém, pela primeira vez, havia espaço para outra coisa.

Depois do jantar, acompanhei Davi até a varanda.

Ele me abraçou junto à porta.

“Obrigado pelo convite.”

“Vai ser chamado de novo.”

“Estou contando com isso.”

Eu o beijei sem olhar a rua primeiro.

Na manhã seguinte, um envelope chegou à pensão.

Havia uma proposta com o nome de Otávio e uma carta separada.

Ele oferecia acertar as pendências do meu pai e custear parte de seus cuidados. Em troca, exigia a assinatura do acordo de venda e o encerramento de qualquer contrato que, segundo ele, pudesse criar conflito com o projeto.

A empresa de Davi estava citada pelo nome.

Li a última página duas vezes.

Otávio queria comprar a terra.

E também queria escolher quem poderia permanecer na minha vida.

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