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"A Preferida do Bruto da Serra" Parte 7 — O Que Minha Mãe Escondeu

正文开头

Parte 7 — O Que Minha Mãe Escondeu

“Estou indo. Não assine nada e não saia com ele.”

Meu pai começou a responder, mas uma tosse interrompeu a frase.

Esperei que recuperasse o fôlego.

“Pai, você ouviu?”

“Ouvi. Os papéis estão aqui.”

Desliguei e procurei minhas roupas no quarto.

Davi já estava de pé, vestindo a calça.

“Estão fechando a estrada?”

“A passagem perto da nascente. Meu pai disse que Otávio levou caminhão e homens.”

Ele pegou o telefone.

“Vou avisar o Ícaro para não mandar ninguém por lá.”

Assenti. Vesti a blusa pelo avesso, percebi e a tirei de novo.

Davi se aproximou, mas parou antes de tocar em mim.

“Quer que eu espere lá fora?”

“Não. Só estou tentando pensar.”

Minha pele ainda guardava a noite anterior. A cama desarrumada estava atrás de nós, e eu odiava a rapidez com que tudo aquilo havia se tornado distante.

Ele me entregou o jeans sem dizer nada.

Na caminhonete, liguei para Luciana e pedi que começasse o almoço com o cardápio que havíamos deixado combinado. Avisei que voltaria antes da entrega.

Davi dirigiu até a pensão.

Ao entrar, encontrei meu pai à mesa da cozinha. Havia uma caixa de metal diante dele, com manchas de ferrugem nos cantos. Dona Nair estava perto da pia.

Davi ficou junto à porta.

Meu pai olhou para nós dois, depois para minha bolsa.

Eu estava usando as mesmas roupas do dia anterior.

“Depois conversamos sobre onde você estava”, disse.

Pousei a bolsa na cadeira.

“Agora conversamos sobre o que você escondeu.”

Dona Nair pegou a chaleira.

“Vou fazer café na outra cozinha.”

Agradeci com um olhar.

Meu pai colocou uma chave pequena sobre a mesa.

“É do armário antigo do depósito. Sua mãe guardava as pastas maiores lá. Isto ficou comigo.”

Abri a caixa.

Encontrei papéis dobrados, recibos e uma fotografia de duas mulheres junto a um muro baixo de pedra.

Reconheci minha mãe imediatamente.

O cabelo preso, a mão na cintura, a expressão de quem estava prestes a mandar o fotógrafo parar de enrolar.

A outra mulher era mais alta e tinha os olhos claros.

Davi deu um passo.

“Essa é minha mãe.”

Olhei para ele.

Meu pai fechou os olhos.

“Lídia e Teresa eram amigas.”

O nome da minha mãe, dito naquele momento, pareceu pertencer a uma vida que eu não conhecia.

“Você sabia disso?” perguntei a Davi.

Ele pegou a fotografia quando ofereci.

“Minha mãe falava de uma Teresa. Dizia que tinham cuidado de uns assuntos da estrada juntas. Eu não sabia que era sua mãe.”

“E sabia da terra?”

“Sabia que havia famílias envolvidas. Não sabia quem eram.”

Voltei aos papéis.

Havia uma cópia de um registro em nome de Teresa Moura e um desenho do terreno. A nascente ficava dentro da área marcada. Uma faixa acompanhava o caminho usado por moradores e trabalhadores.

Meu pai apontou para uma folha.

正文1

“Elas ajudaram a organizar a manutenção da passagem. O pessoal levava ferramentas, limpava depois das chuvas.”

“E por que ninguém me contou?”

Antônio olhou para Davi, como se procurasse ajuda.

Davi permaneceu quieto.

“Eu tinha pendências com a família Bastos”, meu pai respondeu. “Quando sua mãe adoeceu, precisei de dinheiro. Depois ela morreu, e eu não soube resolver o resto.”

“Que resto?”

“Empréstimos. Papéis que assinei. Discussões sobre aquela área.”

Senti minha mão esfriar sobre a caixa.

“Você vendeu?”

“Não foi isso que combinei.”

“Não perguntei o que combinou. Perguntei o que assinou.”

Ele baixou a cabeça.

“Precisamos conferir.”

Por anos, eu havia contado moedas na cozinha enquanto meu pai mantinha uma caixa de respostas debaixo da cama.

Eu não queria feri-lo. Mas também não podia transformar sua idade e sua doença numa porta sempre fechada.

“Você devia ter me contado antes.”

“Eu queria poupar você.”

“De quê? De trabalhar sem saber o que tinha? De tomar decisões com metade da história?”

Meu pai esfregou os olhos.

Davi puxou uma cadeira para mim.

Eu não sentei.

Peguei o telefone e fotografei os documentos, página por página.

“Vou procurar alguém para analisar isto. Alguém que não esteja comprando e não dependa daquela passagem.”

A última parte saiu antes que eu olhasse para Davi.

Ele ouviu.

“Está certo”, disse.

Fomos até a nascente depois que deixei Luciana orientada.

Otávio estava junto a uma caminhonete. Dois homens descarregavam postes, mas ainda não havia cerca atravessando a passagem.

Parei antes de alcançar o material.

“Quem autorizou isso?”

Otávio olhou para a pasta na minha mão.

“Seu pai finalmente encontrou os documentos?”

“Eu fiz uma pergunta.”

“O trabalho está sendo preparado numa área que faz parte da negociação.”

“Eu não negociei nada.”

“Há coisas anteriores a você, Cecília.”

Davi ficou ao meu lado.

“Não use esse tom com ela.”

Otávio sorriu.

“A estrada também interessa a você, não é, Ferraz?”

Vi o maxilar de Davi se contrair.

Antes que respondesse, abri a pasta.

“Há documentos em nome da minha mãe. Vou pedir uma análise independente. Enquanto isso, não autorizo intervenção no que pertence à minha família.”

O encarregado da equipe se aproximou.

“Tem divergência de divisa?”

“Tem divergência de documento”, respondi. “Você pode registrar que eu estou contestando.”

Otávio virou-se para ele.

“É uma conversa familiar.”

O homem olhou de mim para Davi e depois para os postes.

“Eu não vou montar cerca onde estão discutindo a autorização. Vou falar com meu chefe.”

Afastou-se para telefonar.

Otávio me encarou.

“Você está dificultando uma solução que poderia pagar muita coisa.”

“Então mande sua solução por escrito.”

Ele se aproximou o suficiente para baixar a voz.

“Pergunte ao seu namorado quanto vai custar se eu fechar isso. Talvez entenda por que ele está tão disposto a ajudar.”

Meu estômago se apertou.

Davi ouviu.

“Meu problema com a passagem é conhecido”, respondeu. “Não dá a você o direito de mentir sobre o dela.”

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Otávio ergueu as mãos.

“Não menti. Só pedi que perguntasse.”

O encarregado voltou e avisou que o material seria retirado até receber orientação.

Fotografei os postes, a entrada e a posição do caminhão. Otávio observou, mas não me impediu.

Saímos antes dele.

No carro, Davi esperou que eu colocasse o cinto.

“Você quer falar sobre o que ele disse?”

Olhei para a pasta no colo.

“Se essa passagem fechar, seu sítio fica sem acesso?”

“Não fica sem acesso. O outro caminho é pior. Vou perder tempo e gastar mais.”

“Quanto?”

“Depende do que precisar transportar. Ainda estou calculando.”

Assenti.

Davi não ligou o motor.

“Eu não sabia da sua terra quando fui ao leilão.”

“Eu sei.”

“Você sabe ou quer acreditar?”

A pergunta doeu porque era justa.

Virei o rosto.

“Ontem à noite eu estava na sua cama. Hoje descobri que nossas mães se conheciam, que você sabe da história da estrada e que minha família tem uma parte da solução para um problema seu.”

“Eu contei o que sabia.”

“Não estou dizendo que mentiu.”

“Mas está me olhando como se eu tivesse feito uma coisa com você.”

Respirei fundo.

Não queria dizer algo que não poderia recolher.

“Preciso de alguns dias para entender tudo.”

Davi ficou imóvel.

“Sem me ver?”

“Sem conversar sobre nós enquanto tento organizar isto.”

Ele olhou para o volante.

“E o trabalho?”

“Continua, se você quiser. Luciana pode acompanhar as entregas.”

“Eu quero. O acordo não mudou.”

Assenti, sentindo uma vergonha amarga.

“Não estou tentando castigar você.”

“Eu ouvi o que está pedindo.”

Davi ligou a caminhonete.

Na pensão, levou a pasta até a mesa e separou as cópias que poderiam ser úteis.

Não me beijou ao sair.

Eu havia pedido espaço. Mesmo assim, fiquei na varanda esperando que olhasse para trás.

Ele olhou.

Eu não soube o que fazer com a mão.

Dois dias depois, fui buscar um pedido de embalagens no depósito.

O dono pediu que aguardasse enquanto concluía um orçamento de tubos e pedras.

Reconheci o nome no alto da folha.

Alto do Cedro.

“Vai ter obra lá?” perguntei antes de conseguir me impedir.

“Um acesso pelo lado de cima. O Ferraz pediu os preços ontem. Coisa cara.”

Olhei para a lista.

O caminho que contornava a nascente era comprido, íngreme e difícil.

Davi estava calculando uma maneira de não precisar da minha decisão.

E eu, que havia pedido distância para conseguir respirar, senti naquele instante o quanto estava faltando ar.

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