localização atual: Novela Mágica A Preferida do Bruto da Serra Parte 6 — Quero Ouvir de Você
标题上

"A Preferida do Bruto da Serra" Parte 6 — Quero Ouvir de Você

正文开头

Parte 6 — Quero Ouvir de Você

Olhei a fotografia até começar a procurar coisas que ela não podia me contar.

Davi estava sorrindo? A imagem era pequena demais.

A placa mencionava um empreendimento. A data não aparecia.

Eu poderia ligar para Otávio. Ele provavelmente atenderia no primeiro toque, pronto para me oferecer a versão que havia preparado.

Em vez disso, escrevi para Davi.

“Recebi uma foto sua com ele. Quero ver os registros amanhã.”

A resposta chegou poucos minutos depois.

“Levo tudo que tenho. Às oito?”

“Às oito.”

Dormir foi outra história.

Na manhã seguinte, meu pai percebeu a pasta aberta sobre a mesa e começou a perguntar. Eu disse apenas que estava conferindo uma informação.

Não queria mais uma advertência sobre homens antes de escutar o homem em questão.

Davi chegou sozinho, com uma pasta fina e o notebook.

Sua expressão estava fechada. A minha também devia estar.

Deixei que entrasse e fechei a porta da cozinha.

Mostrei a fotografia.

Ele olhou sem surpresa.

“Foi numa visita técnica.”

“Quando?”

“Em agosto do ano passado.”

Davi abriu o notebook. Encontrou uma conversa por e-mail e virou a tela para mim.

O primeiro contato era de junho. Otávio solicitava uma avaliação para recuperar duas casas antigas e adequar uma estrada de serviço.

Havia orçamentos, desenhos e perguntas sobre prazos.

“Até aí, era um serviço de reforma”, Davi explicou. “Depois mandaram a planta geral.”

Avançou até um arquivo.

Na imagem, algumas linhas marcavam construções, estacionamentos e um acesso com portão. Davi apontou para a estrada que eu reconhecia das entregas.

“Queriam fechar este trecho e obrigar o pessoal a usar outro caminho. O desvio passa por uma descida ruim. Na chuva, caminhão carregado não faz.”

“E o seu sítio?”

“Também seria afetado.”

A resposta veio sem tentativa de esconder o interesse.

Continuei lendo.

Num e-mail, Davi pedia que mantivessem a passagem existente. Em outro, Otávio dizia que a questão seria resolvida com os proprietários das áreas próximas.

“Você sabia que minha mãe tinha terra ali?”

“Não. Ele não me mostrou os nomes.”

Abriu a resposta seguinte.

Davi informava que não assumiria o serviço nas condições propostas.

O e-mail tinha data de setembro.

Meses antes do leilão.

Li duas vezes.

“Depois disso, trabalharam juntos?”

“Não.”

“Você recebeu alguma coisa?”

“Uma visita técnica paga. Está aqui.”

Mostrou o recibo.

Era um valor pequeno diante do que Otávio queria comprar, mas aquilo importava. Davi não estava escolhendo apenas o que o fazia parecer melhor.

Afastei a cadeira.

“Por que não me explicou tudo quando perguntei?”

Ele permaneceu sentado.

“Porque achei que bastava dizer que tinha saído.”

“Não bastou.”

“Eu sei.”

Passei a mão pela borda da mesa.

“Ele sabia mais sobre você do que eu. E usou isso.”

Davi fechou o arquivo, mas deixou o computador aberto.

“Eu não queria levar aquele assunto para o nosso domingo.”

“Então ele levou para a nossa terça.”

正文1

O rosto dele endureceu, não contra mim, mas contra a constatação.

“Você tem razão.”

Eu esperara uma defesa. A frase simples me deixou sem o próximo ataque.

Davi puxou a pasta.

“Pode ficar com as cópias. Não quero que precise acreditar só porque eu disse.”

Olhei para os documentos.

“Quero acreditar em você.”

“Eu também quero que consiga.”

Ele não tentou tocar minha mão.

Foi isso que me permitiu estender a minha.

Davi olhou para meus dedos antes de segurá-los.

“Não vou pedir desculpa por ter perguntado”, falei.

“Não estou esperando isso.”

“Mas estou aliviada.”

Seu polegar passou sobre meus nós dos dedos.

“Eu também.”

Davi foi para o sítio, e eu fiquei preparando o almoço.

Quando chegou a hora da entrega, fui com Luciana, a ajudante que eu havia contratado. Ela ficaria responsável por fechar a cozinha da pensão naquela tarde, e eu queria que conhecesse os recipientes e a conferência das porções.

Davi nos recebeu como sempre.

Não tentou transformar a chegada numa reconciliação diante dos homens.

A normalidade me fez bem.

Depois do almoço, Luciana voltou com o motorista das entregas. Eu fiquei para organizar o estoque e testar o forno corrigido.

Davi apareceu à porta.

“Precisa de alguma coisa?”

Olhei para o saco de farinha.

“Que lave as mãos.”

Ele ergueu as sobrancelhas.

“Depois?”

“Vai me ajudar.”

Davi entrou.

Dei a ele a tarefa de pesar ingredientes. Na primeira medida, colocou farinha demais.

“Não é concreto”, avisei.

“Eu sei.”

“A balança discorda.”

Ele retirou o excesso com uma colher.

Na segunda medida, acertou.

Trabalhamos lado a lado. A proximidade ainda tinha um peso novo, mas já não era uma ameaça. Quando precisei passar atrás dele, toquei sua cintura para avisar.

Davi ficou imóvel por um segundo.

“Está no caminho”, falei.

“Percebi.”

Ele se afastou, e eu sorri para a tigela.

Enquanto os pães descansavam, limpei a bancada. Davi pegou um pano sem perguntar e começou pelo outro lado.

“Você ficou bravo ontem?” perguntei.

“Fiquei.”

“Comigo?”

“Na hora, sim.”

Parei.

Ele torceu o pano.

“Eu tinha feito uma coisa achando que ajudava. Você disse que atrapalhava. Não gostei de ouvir.”

“E agora?”

“Agora entendi que não basta eu gostar da minha intenção.”

Voltei a limpar.

Aquilo não era uma frase que resolveria tudo para sempre. Mas era uma resposta que eu podia reconhecer na atitude dele.

Quando os pães foram para o forno, sentamos na varanda.

Davi levou café. Eu levei um relógio para não perder o tempo da primeira fornada.

O sol começava a baixar.

Pela primeira vez, eu o vi sem uma tarefa nas mãos.

A cicatriz atravessava a extremidade da sobrancelha, deixando um pequeno intervalo nos pelos.

“Foi acidente?” perguntei.

Ele tocou o lugar.

“Foi.”

“Pode não contar.”

Davi apoiou a caneca no banco.

“Uma viga cedeu numa reforma. Eu estava com outro homem. O Cláudio.”

Esperei.

“Consegui sair. Ele ficou preso.”

A voz dele perdeu volume.

正文2

“Você estava sozinho?”

“Tinha mais gente. Chamamos socorro. Tiramos o que dava para tirar.”

Davi olhou para o quintal.

“Não deu tempo.”

Eu mantive a mão sobre a minha caneca. Não queria oferecer uma frase que pudesse apagar algo que não se apagava.

“Era seu amigo?”

“Trabalhava comigo havia seis anos.”

“Você fala com a família?”

“Com a mulher. Os filhos já estão grandes.”

Ele respirou fundo.

“Depois disso, comecei a perceber tudo que podia dar errado antes de perceber qualquer outra coisa.”

Olhei para suas mãos.

A tomada que conferira. A bancada contra a qual eu poderia me machucar. O fornecedor que poderia interromper minha entrega.

Agora eu entendia um pouco mais.

Ainda não precisava aceitar tudo.

“Você não pode impedir todas as coisas ruins”, falei.

“Eu sei.”

“Mas tenta.”

Davi olhou para mim.

“Principalmente quando alguém importa.”

Senti um aperto na garganta.

Peguei a mão dele.

“Eu posso importar e continuar decidindo.”

Ele virou os dedos para segurar os meus.

“Estou aprendendo.”

O alarme do forno tocou no meu bolso.

Nós dois olhamos para o telefone.

Eu ri primeiro.

“Agora preciso impedir uma coisa ruim.”

Davi me acompanhou até a cozinha.

Anoiteceu enquanto terminávamos de guardar os pães.

Eu liguei para dona Nair e perguntei pelo meu pai. Ele havia jantado, tomado os remédios e estava assistindo ao jogo.

Ela disse que podia ficar até eu voltar.

Olhei para Davi, que fechava a última caixa.

“Não quero ir embora agora.”

Ele deixou a tampa sobre a mesa.

“Quer jantar?”

“Quero. Mas não foi só isso que eu disse.”

Davi se aproximou devagar.

“Eu entendi. Preciso saber o que você quer.”

Meu coração bateu mais rápido.

Eu não estava acostumada a falar daquela vontade em voz alta. Estava acostumada a escondê-la debaixo de trabalho, de piadas e de coisas que precisava fazer.

“Quero ficar com você esta noite.”

Ele levou a mão ao meu rosto.

“Tem certeza?”

“Tenho. Se mudar de ideia, vou dizer.”

Davi assentiu.

“E eu vou ouvir.”

Liguei novamente para dona Nair. Combinei que ela dormiria no quarto de hóspedes e pedi que avisasse meu pai que eu voltaria cedo.

Minha voz falhou uma vez.

Não voltei atrás.

Jantamos algo simples. Depois Davi me levou até a casa principal. Deixou que eu entrasse primeiro e perguntou se queria tomar banho.

Aceitei.

No banheiro, encontrei uma toalha limpa e uma camiseta dobrada junto à pia. Fiquei olhando para ela por algum tempo, com uma vontade absurda de chorar.

Ninguém estava me pedindo nada.

Quando saí, Davi estava junto à janela do quarto.

Virou-se ao ouvir a porta.

Seu olhar percorreu meu rosto, a camiseta e minhas pernas. Não havia disfarce suficiente para que eu duvidasse do que ele sentia.

Fui até ele.

Davi me beijou sem a pressa de quem queria chegar a algum lugar antes que eu percebesse.

Quando suas mãos tocaram a barra da camiseta, eu as segurei.

Ele parou.

“Estou nervosa”, confessei.

“Podemos parar.”

“Não quero parar.”

Afastei uma das mãos e a coloquei na minha cintura.

Davi me olhou antes de continuar.

Eu o ajudei a tirar a camisa.

A noite foi feita de aproximações, perguntas baixas e respostas que eu consegui dar com cada vez menos vergonha. Quando senti vontade de esconder meu corpo, ele percebeu e esperou que eu o olhasse.

Não me elogiou como quem corrigia um defeito.

Me desejou.

E, pela primeira vez em muito tempo, eu permiti que o meu desejo ocupasse tanto espaço quanto o dele.

Acordei com meu rosto junto ao peito de Davi e o braço dele solto sobre minha cintura.

A luz entrava pela fresta da cortina.

Fiquei imóvel por alguns segundos, apenas ouvindo sua respiração.

Então meu telefone vibrou.

Peguei antes que o som o acordasse.

Era meu pai.

“Cecília?”

“Estou aqui. Aconteceu alguma coisa?”

Ele respirava depressa.

“Dona Nair acabou de falar com um homem que passou na estrada. Tem caminhão perto da nascente.”

Sentei na cama.

Davi abriu os olhos.

“Que caminhão, pai?”

“Otávio levou gente para pôr cerca. Disse que vai fechar a passagem.”

A mão de Davi saiu da minha cintura.

Meu pai continuou, a voz falhando:

“Você precisa voltar. Eu vou lhe mostrar os papéis da sua mãe.”

下一张上
下一章下

você pode gostar

Compartilhar Link

Copie o link abaixo para compartilhar com seus amigos:

页面底部