"A Preferida do Bruto da Serra" Parte 5 — Você Não Decide Por Mim
Parte 5 — Você Não Decide Por Mim
“Que coisa minha mãe deixou?”
Meu pai pousou o copo, mas continuou olhando para ele.
“Uma terra. Um pedaço pequeno.”
Fiquei de pé junto à mesa.
Minha mãe estava morta havia oito anos. Eu administrava as contas daquela casa, acompanhava meu pai às consultas e sabia quantas telhas precisávamos substituir.
Nunca ouvira falar de terra alguma.
“Onde?”
“Na região da nascente.”
“E por que estou sabendo disso agora?”
Antônio esfregou o polegar na lateral do copo.
“Porque nunca foi uma coisa simples.”
“Isso não responde.”
Ele ergueu o rosto, irritado com uma pergunta que não podia resolver.
“Eu não queria que você se envolvesse nos problemas de lá.”
“Mas posso me envolver nos problemas daqui? Nas contas, nos remédios, na reforma do banheiro?”
Meu pai tentou levantar. Apoiou-se na mesa, e eu dei um passo por hábito.
Parei antes de segurar seu braço.
Ele conseguiu ficar de pé sozinho.
“Não estou dizendo que foi certo”, murmurou.
“Então me conte.”
“Hoje, não.”
Aquelas duas palavras me acompanharam até a cama.
Hoje, não. Amanhã, talvez. Quando você for mais velha. Quando eu estiver melhor.
Eu tinha vinte e oito anos.
Na manhã seguinte, procurei meu pai antes de preparar as entregas. Ele disse que buscaria os papéis depois da consulta de quarta-feira.
Exigi uma data.
Ele prometeu quinta.
Não gostei, mas precisava sair. Havia nove almoços esperando, uma ajudante começando naquela manhã e dois hóspedes reclamando da água quente.
Às dez, Otávio Bastos entrou na pensão.
Usava uma camisa tão bem passada que parecia ter vindo de outro lugar. Trazia uma pasta sob o braço e nenhum sinal de pressa.
“Bom dia, Cecília.”
“Se veio almoçar, precisa reservar.”
“Vim conversar com seu pai.”
“Ele está descansando.”
Otávio olhou para o corredor.
“Então converso com você.”
Sentei à mesa de atendimento. Ele colocou a pasta diante de mim e abriu uma proposta de compra.
O valor estava destacado no centro.
“Não estamos vendendo a pensão”, falei.
“Não é só a pensão. Há uma área vinculada à família que nos interessa.”
Olhei para a descrição. Reconheci a palavra nascente.
“Meu pai disse que vai me mostrar os documentos.”
“É uma ótima ideia. Também é importante conhecer as obrigações ligadas a eles.”
“Que obrigações?”
Otávio voltou uma página.
“Algumas pendências antigas. Podemos resolver tudo num acordo.”
Não toquei na caneta que ele colocou sobre a proposta.
“Vou ler com alguém que não esteja comprando.”
O sorriso dele diminuiu.
“Claro. Só espero que não escolha o Davi Ferraz para aconselhar você.”
Levantei os olhos.
“Por quê?”
“Porque ele conhece muito bem essa região. E teria vantagens se você decidisse manter determinadas passagens abertas.”
“Ele falou isso a você?”
“Nós já conversamos bastante.”
Otávio fechou a pasta.
“Há homens que chegam pela porta da frente. Outros preferem a cozinha.”
O calor subiu até meu rosto.
“Você pode deixar uma cópia da proposta. E pode levar esse comentário embora.”
Ele me observou por um instante, depois retirou as mãos da mesa.
“Não quis ofender.”
“Então vai ser fácil não repetir.”
Otávio deixou os papéis e saiu.
Esperei a porta fechar para fotografar a proposta. Guardei a cópia numa gaveta e levei as refeições.
Davi estava no pátio, ajudando a descarregar madeira. Quando me viu, veio pegar as caixas.
“O que aconteceu?”
“Otávio foi à pensão.”
O rosto dele perdeu a descontração.
“O que queria?”
“Comprar uma terra da minha família. E me dizer que vocês já conversaram bastante.”
Davi pousou as caixas na bancada.
“Conversamos sobre uma reforma. Eu ia assumir uma parte do serviço.”
“E?”
“Não assumi.”
“Por quê?”
“Não concordei com o que queriam fazer.”
“Você poderia ter me contado.”
Ele passou a mão pela nuca.
“Não sabia que ele viria à sua casa.”
“Mas sabia que conhecia minha família?”
“Seu pai administra uma pensão. Eu conheço o nome de vocês há anos. Isso não significa que saiba da vida de vocês.”
A resposta era razoável.
Mesmo assim, eu estava cansada de descobrir informações pela metade.
“Preciso que me explique melhor depois.”
“Explico.”
Ícaro apareceu à porta, e a conversa terminou ali.
Servi os homens. Conferi as caixas. Davi tentou me chamar antes de sair, mas eu precisava acompanhar meu pai à farmácia e receber uma entrega na pensão.
“Hoje está difícil”, falei. “Amanhã conversamos.”
Ele assentiu.
À tarde, a entrega veio sem metade dos produtos.
O fornecedor tinha reduzido nosso limite.
Segundo o rapaz, a mudança havia sido decidida naquela manhã.
Pedi que deixasse o que estava pago e devolvesse o restante. Depois liguei para duas outras lojas, comparei preços e reorganizei o cardápio.
Foi uma noite longa.
Na terça, fui ao depósito para acertar um pagamento antigo e negociar a compra da semana.
O dono puxou minha ficha no computador.
“Está tudo zerado.”
Achei que houvesse confundido o nome.
“Pensão Santa Clara.”
“Sim. O Ferraz veio ontem.”
Fiquei olhando para ele.
“Davi?”
“Pagou o saldo. Disse para manter sua entrega.”
O homem falou aquilo como se devesse me tranquilizar.
Senti o estômago afundar.
“Quanto?”
Ele imprimiu o comprovante.
O valor era maior do que o adiantamento de duas semanas do contrato.
Peguei o papel.
“Obrigada. Não altere meu limite sem falar comigo.”
Saí sem comprar nada.
No sítio, Davi estava na cozinha conferindo uma tomada. Virou quando ouviu meus passos.
Coloquei o comprovante sobre a mesa.
“Foi você?”
Ele olhou e compreendeu.
“Foi.”
“Por que não me disse?”
“O fornecedor estava pressionando você. Eu resolvi.”
“Você pagou uma dívida minha sem perguntar.”
Davi endireitou os ombros.
“Para que ele não pudesse interromper o serviço.”
“Então deveria ter me avisado que o contrato corria risco. Eu estava procurando outro fornecedor.”
“Você já tem coisa demais para resolver.”
“E agora tenho mais uma. Como devolver esse dinheiro.”
Ele franziu a testa.
“Eu não vim cobrar.”
“Mas eu vou pagar.”
Davi ficou quieto.
Peguei o comprovante e o ergui entre nós.
“Você entende como isso fica? O depósito já sabe que você pagou. Amanhã alguém diz que mantém minha pensão. Depois dizem que foi por isso que eu saí com você.”
“Não me importa o que dizem.”
“Para você pode não importar. Quem recebe a piada sou eu.”
Sua expressão mudou, mas a raiva ainda estava ali, presa no jeito como apertava as mãos.
“Eu não ia ficar parado enquanto aquele homem fazia você passar por isso.”
“Não pedi que ficasse parado. Pedi que conversasse comigo.”
Davi puxou uma cadeira, mas não sentou.
Eu já estava cansada demais para diminuir o que sentia.
“Se você escolhe como eu vou pagar minhas contas, o que vou dizer aos fornecedores e qual problema merece ser resolvido, o que sobra para eu decidir?”
Ele baixou os olhos para o papel.
A cozinha ficou tão silenciosa que ouvi a torneira pingando.
“Eu devia ter perguntado”, disse por fim.
Soltei o ar.
“Devia.”
“Posso cancelar o pagamento?”
“Você já pagou. O fornecedor já recebeu.”
Davi assentiu devagar.
“Então me diga como prefere acertar.”
Sentei à mesa. Ele sentou do outro lado.
Não fizemos as pazes com um beijo.
Peguei meu caderno, dividi o valor em parcelas que cabiam na renda das entregas e escrevi as datas.
Davi leu.
“Sem juros.”
“Está bem.”
“Se precisar mudar uma data, me avise.”
“Vou avisar. E você não vai descontar do pagamento das refeições sem falar comigo.”
“Não vou.”
Fizemos duas vias e assinamos.
Quando terminei, minha mão tremia um pouco.
Davi percebeu.
“Você acha que eu quero mandar em você?”
Pousei a caneta.
“Acho que está acostumado a resolver as coisas do seu jeito. E que, quando gosta de alguém, fica mais difícil esperar.”
Ele passou a mão pelo rosto.
“Pode ser.”
“Eu preciso poder discordar sem ter de agradecer primeiro.”
Davi me olhou.
“Você pode.”
Naquele momento, quis acreditar.
Ele não tentou se aproximar enquanto eu guardava o caderno. A distância custou mais do que a discussão.
Na porta, parei.
“A conversa sobre Otávio ainda está faltando.”
“Amanhã de manhã. Posso levar os registros que tenho.”
“Pode.”
Davi assentiu.
Saí com a sensação estranha de que havíamos construído alguma coisa justamente no dia em que quase a quebramos.
À noite, depois de servir o jantar dos hóspedes, recebi uma mensagem de um número desconhecido.
Era Otávio.
A fotografia mostrava três homens junto a uma placa de projeto. Um era ele. Outro eu não conhecia.
O terceiro era Davi.
A camisa clara, a cicatriz na sobrancelha, as mãos nos bolsos.
Abaixo da imagem, Otávio escrevera:
“Pergunte a ele o que pretendiam construir perto da nascente. Você merece ouvir a história inteira.”
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