"A Preferida do Bruto da Serra" Parte 4 — Desta Vez, Eu Fiquei
Parte 4 — Desta Vez, Eu Fiquei
A boca de Davi encontrou a minha antes que eu pudesse pensar em como aquilo mudaria a manhã seguinte.
Ele me beijou devagar no primeiro instante. Uma mão pousou na minha cintura, a outra permaneceu junto ao corpo, como se ainda estivesse dando tempo para eu mudar de ideia.
Não mudei.
Apertei sua camisa e me aproximei. Foi então que ele me segurou de verdade, com a palma aberta nas minhas costas, e o beijo perdeu aquela cautela que estava me deixando louca.
Eu tinha imaginado a barba áspera. Não tinha imaginado o cuidado com que ele inclinaria o rosto para não me machucar.
Quando nos afastamos, continuei segurando sua gola.
Davi encostou a testa na minha.
“Está tudo bem?”
“Você pergunta isso depois de beijar todas as mulheres?”
Ele soltou uma risada baixa.
“Não costumo fazer entrevista depois.”
“Então por que comigo?”
“Porque você está me olhando como se fosse sair correndo.”
Eu estava.
Também estava tentando descobrir como pedir outro beijo sem parecer que havia passado a semana inteira pensando naquele homem.
Sua mão começou a se afastar da minha cintura.
Segurei seu pulso.
“Não precisa tirar.”
O olhar dele mudou.
Davi me beijou outra vez. Dessa vez, fui eu que abri a boca primeiro, eu que o puxei até sentir a borda da bancada atrás das minhas pernas.
Ele parou quando minha cintura encostou na madeira.
Olhou para baixo e deslizou a mão entre meu corpo e o canto da bancada.
“Vai machucar.”
“A bancada?”
“Você.”
Eu ri contra sua boca.
Aquele som pareceu surpreendê-lo. Ele me observou por um instante, depois passou o polegar pela minha bochecha.
Eu conhecia minhas sardas, a pequena marca perto do queixo, o cabelo que nunca ficava preso como deveria. Mas, sob os olhos dele, não senti vontade de corrigir nada.
“Preciso ir”, falei.
Davi assentiu, sem me soltar imediatamente.
“Seu pai?”
“Dona Nair está com ele. Prometi voltar antes das nove.”
Ele olhou o relógio na parede.
“Temos vinte minutos.”
“Para quê?”
O canto da boca dele subiu.
“Para eu levar você em casa.”
Dei um tapa leve no seu peito.
Davi pegou as chaves.
Na caminhonete, ficamos alguns segundos sem falar. Eu ainda sentia o beijo, e ele parecia concentrado demais em ajustar um retrovisor que já estava na posição certa.
“Domingo”, falei.
Ele virou o rosto.
“Eu não esqueci.”
“Nem eu.”
“Posso buscar você às dez?”
“Depois do café dos hóspedes. Às dez e meia.”
“Dez e meia.”
Na pensão, ele desligou o motor.
Pensei que me acompanharia até a porta. Em vez disso, esperou que eu decidisse.
“Você pode vir até a varanda”, falei.
Davi veio.
Antes de abrir a porta, olhei para ele.
“Não precisa ficar estranho na segunda-feira.”
“Eu não pretendia.”
“Estou dizendo porque vamos trabalhar juntos.”
“Na segunda, vou receber as refeições e pagar o que combinamos.”
“E o resto?”
Ele se aproximou o suficiente para baixar a voz.
“O resto eu espero que não fique só na sexta.”
Fiquei olhando para sua boca.
Davi percebeu.
Me beijou uma última vez, breve, mas não tanto que eu conseguisse entrar em casa com naturalidade.
Dona Nair estava no corredor.
Não perguntou nada.
Seu sorriso foi muito pior.
No domingo, tirei três vestidos do armário.
O primeiro parecia formal demais. O segundo era confortável, mas eu o usava para atender hóspedes. O terceiro, azul, tinha decote arredondado e uma saia que acompanhava meus quadris sem prender os movimentos.
Vesti o azul.
Depois passei dez minutos tentando decidir se mostrava demais.
Dona Nair apareceu à porta com uma toalha limpa.
“Se puxar mais esse tecido, vai arrancar a costura.”
“Não estou puxando.”
Ela olhou para minha mão.
Soltei o vestido.
“Está bonito”, disse. “E você consegue respirar. Já são duas vantagens.”
Meu pai estava na sala quando desci. Olhou minhas sandálias, o vestido e a bolsa pequena.
“Vai demorar?”
“Volto no fim da tarde. O almoço está pronto, e dona Nair fica até as três.”
“Eu consigo esquentar um prato.”
“Eu sei. Ela também vai almoçar.”
Havia uma cesta coberta na mesa. Peguei pela alça.
Meu pai ergueu a sobrancelha.
“Você está indo passear ou trabalhar?”
“É só um lanche.”
Davi chegou antes que eu pudesse defender o tamanho da cesta.
Usava uma camisa clara com as mangas dobradas e jeans. A barba estava aparada. Seu cabelo ainda parecia úmido.
Ele me viu na porta e parou de subir o degrau.
Eu senti aquele olhar antes de compreender o silêncio.
“Está muito arrumado”, falei, porque não consegui dizer outra coisa.
“Você também.”
Olhei para a cesta.
“Trouxe comida.”
Davi pegou a alça quando ofereci, mas, ao abrir a porta da caminhonete, espiou debaixo do pano.
“Cecília.”
“Sim?”
“Vamos alimentar quantas pessoas?”
“Eu não sabia o que você tinha planejado.”
Ele mostrou uma bolsa térmica no banco traseiro.
“Hoje eu tinha planejado alimentar você.”
Fiquei segurando a porta.
Não havia crítica na sua voz. Ainda assim, senti vergonha.
“Posso deixar a cesta aqui.”
“Podemos levar. Só não precisava fazer tudo isso.”
A resposta me aliviou o suficiente para entrar.
Descemos até a feira da praça. Havia barracas de frutas, queijo, artesanato e mudas. Davi andou ao meu lado, sem puxar meu braço nem escolher o caminho sozinho.
Parei diante de uma banca de livros usados.
Ele ficou esperando enquanto eu folheava um romance com a lombada rachada.
“Você lê?”, perguntei.
“Manual de máquina conta?”
“Só se tiver um final emocionante.”
“Alguns terminam com uma conta bem alta.”
Sorri e voltei ao livro.
O vendedor disse o preço. Paguei antes que Davi pudesse sequer colocar a mão no bolso.
Ele não comentou.
Mais adiante, comprou duas águas e me perguntou qual queijo eu preferia. Fiz uma pergunta sobre o peso. Outra sobre o preço.
Davi me olhou.
“Você pode escolher pelo gosto hoje.”
Eu percebi que estava fazendo compras como se precisasse calcular o lucro de um almoço.
“Este”, respondi, apontando.
Ele comprou um pedaço pequeno.
Ninguém ficou pobre por isso.
A constatação pareceu ridícula, mas eu precisava dela.
Saímos da praça e seguimos de carro até uma área aberta junto a um riacho. Havia sombra, pedras grandes e um terreno plano onde Davi estendeu uma manta.
Quando me abaixei para abrir a cesta, ele segurou a tampa.
“Sente.”
“Vou só tirar as coisas.”
“Eu tiro.”
“Você não sabe onde está cada uma.”
“Vou descobrir.”
Sentei.
Foi mais difícil do que carregar a panela até o salão.
Davi colocou a comida entre nós, abriu os guardanapos e cortou o queijo. Tinha levado frutas e sanduíches preparados sem beleza alguma.
Um deles estava meio torto.
Peguei justamente aquele.
“Você fez?”
“Sim.”
“Não queimou nada.”
“Não precisava acender o fogão.”
Eu ri.
Ele me serviu água.
Por algum tempo, comemos sem pressa. O riacho corria perto das pedras. Uma família estava mais adiante, mas longe o suficiente para não ouvirmos suas conversas.
Davi perguntou de que livro eu gostava quando era menina.
Contei sobre um que minha mãe lia em voz alta, sempre interrompido por alguém pedindo alguma coisa na pensão.
“Ela terminou?”
“Terminou. Levou quase um ano.”
“E você lembra do final?”
“Lembro da voz dela.”
Davi baixou os olhos para o sanduíche.
“Minha mãe cantava quando costurava.”
“Cantava bem?”
“Eu achava.”
Não perguntei de imediato o que havia acontecido com ela.
Ele percebeu e contou mesmo assim.
“Morreu há cinco anos.”
“Topei com meu pai tentando guardar as roupas da minha mãe oito anos atrás”, falei. “Ele estava dobrando uma blusa como se ela fosse usar de novo.”
Davi ficou quieto.
Depois aproximou a mão da minha, sobre a manta.
Eu virei a palma.
Ele entrelaçou nossos dedos.
Não precisei dizer mais nada.
Na volta à praça, caminhamos de mãos dadas até o carro. Uma mulher saiu da padaria e nos reconheceu. O telefone dela já estava na mão quando chamou meu nome.
Soltei os dedos de Davi por reflexo.
Ele olhou para mim.
A mulher sorriu daquele jeito que prometia uma conversa longa em algum grupo.
“Passeando, Cecília?”
“Sim.”
Davi não respondeu por mim.
A mulher seguiu, e ele esperou até que estivéssemos fora do caminho.
“Você prefere que eu não segure sua mão na cidade?”
Olhei para os dedos dele.
Era uma pergunta real. Ele estava me oferecendo uma saída.
Eu já tinha passado tempo demais vivendo de acordo com o que aquela cidade acharia.
Segurei sua mão outra vez.
“Prefiro que segure.”
Davi apertou meus dedos e me levou até a caminhonete.
Ao chegar à pensão, encontrei meu pai sozinho na sala. Dona Nair havia deixado uma mensagem dizendo que voltaria mais tarde.
Davi se despediu na varanda. Eu permaneci ali até o carro desaparecer na esquina.
Quando entrei, meu pai estava olhando meu telefone sobre a mesa. A tela mostrava a fotografia que eu havia tirado do riacho, com a encosta do Alto do Cedro ao fundo.
“Vocês foram para lá?”
“Para perto do sítio. Por quê?”
Ele não respondeu.
A cor havia sumido do seu rosto.
“Pai?”
Antônio pegou o copo de água com as duas mãos.
“Você falou da sua mãe?”
“Falamos das nossas mães.”
“Falou de alguma coisa que ela deixou?”
Franzi a testa.
“Deixou o quê?”
Meu pai ergueu os olhos.
“Cecília, não deixe esse homem saber o que sua mãe deixou na serra.”
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