"A Preferida do Bruto da Serra" Parte 3 — Se Eu Parar de Cozinhar, Você Ainda Vem?
Parte 3 — Se Eu Parar de Cozinhar, Você Ainda Vem?
Na sexta-feira, Davi entrou na cozinha depois que os outros já haviam almoçado.
Deixei a concha sobre o descanso.
“Hoje eu não vou servir.”
Ele parou junto à mesa.
“Aconteceu alguma coisa?”
“Há pratos no armário. A comida está no fogão. Você sabe onde ficam os dois.”
Davi olhou para o fogão, depois para mim.
“Eu sei.”
“Então faça um prato. Vou comer também.”
Durante quatro dias, ele esperara os homens terminarem antes de aparecer. No primeiro, achei que estivesse ocupado. No segundo, imaginei que quisesse conferir as despesas. No terceiro, percebi que continuava sentado depois que eu guardava o caderno.
Naquele dia, se pretendia ficar comigo, teria de me encontrar sentada.
Ele pegou dois pratos.
“Quanto você come?”
“O suficiente. Não faça uma montanha só porque viu meus braços.”
Davi parou com a colher no ar.
Olhei para ele e percebi que não havia entendido como piada.
“Pode colocar arroz, feijão e um pedaço de frango.”
Serviu o meu primeiro.
Quando se sentou, o joelho dele tocou o meu debaixo da mesa. Ambos nos ajustamos, mas não tanto que fosse impossível acontecer outra vez.
“Você sempre espera os outros saírem?” perguntei.
“Nem sempre.”
“Esta semana, esperou.”
Davi cortou o frango.
“Eles fazem bastante barulho.”
“E eu não?”
“Você faz perguntas.”
“Isso é pior?”
“Não para mim.”
Baixei o rosto para esconder o sorriso.
Ele havia notado o meu silêncio tanto quanto eu notara sua presença.
Conversamos sobre a reforma. Depois perguntei por que nunca o via nas reuniões da cidade.
“Vou quando preciso.”
“Viviane diz que você não gosta de ninguém.”
“Ela me convidou para um jantar em que eu teria de ouvir o irmão dela explicar como devia tocar meu sítio.”
“E você não foi.”
“Já tinha ouvido de graça. Não ia passar por isso usando camisa passada.”
Engasguei com o suco.
Davi empurrou o copo de água na minha direção.
“Não foi tão engraçado.”
“Foi, sim.”
Ele me observou rir. Quando percebi, a vontade de continuar ficou presa na garganta.
Meu celular vibrou junto ao prato.
Era uma mensagem de dona Nair.
Abri porque ela estava com meu pai.
O vídeo começou sem som. Eu aparecia no salão, com a mão sobre a panela. Davi surgia em seguida. Depois havia um corte para o momento em que ele se aproximava de mim.
A legenda dizia que certas mulheres sabiam muito bem como conseguir clientes generosos.
Abaixo, um comentário de Viviane: “Cada uma oferece o que tem.”
Meu estômago se fechou.
Davi percebeu.
“Seu pai?”
“Não.”
Mostrei a tela.
Ele leu sem pegar meu telefone.
Sua mandíbula ficou tensa.
“Quem publicou?”
“O perfil da associação.”
Davi afastou a cadeira.
“Vou falar com ela.”
“Não.”
Ele parou.
Respirei fundo para não despejar nele a raiva que era de outra pessoa.
“Se você for, vão dizer que precisa me defender porque a legenda é verdade. Eu vou resolver.”
“Como?”
“Encontrando o vídeo inteiro.”
O salão tinha transmitido o leilão. Eu me lembrava do celular preso num tripé junto à porta.
Abri a página da associação e procurei a transmissão. Estava disponível. Baixei o arquivo antes que alguém tivesse a ideia de apagar.
Davi ficou do outro lado da mesa.
“Posso ajudar em alguma coisa?”
“Anote o horário em que fazem aquela piada.”
Ele pegou papel e caneta.
Trabalhamos sem discutir. Separei o trecho da fala sobre comprar a cozinheira, minha resposta e a confirmação de Davi. Fotografei a via do orçamento, escondendo os dados pessoais.
Então escrevi uma mensagem pedindo a retirada da publicação e uma correção no mesmo perfil.
Viviane respondeu que eu havia interpretado mal uma brincadeira.
Pedi que nos encontrássemos na associação, diante das outras responsáveis pela campanha.
“Vou descer agora”, falei.
Davi pegou a chave da caminhonete.
“Eu deixo você.”
“Pode me levar. Lá dentro, eu falo.”
Ele assentiu.
No caminho, senti uma pontada de medo. Eu tinha contas para pagar e uma cidade pequena demais para perder todos os clientes.
Mas não conseguia imaginar servir comida por seis semanas enquanto aquela frase continuava circulando como explicação para meu trabalho.
Na associação, Viviane nos recebeu diante de outras três mulheres.
Seu sorriso diminuiu quando viu Davi, depois voltou ao olhar para mim.
“Não precisava trazer companhia.”
“Ele estava no vídeo. Vai ficar porque conhece o que aconteceu.”
Pousei meu telefone sobre a mesa.
“Quero que assistam antes de dizer que foi brincadeira.”
O vídeo mostrou Patrícia rindo do pão. Mostrou meu lote sem lance. Mostrou a oferta, a piada e minha resposta.
Uma das mulheres, dona Lurdes, ajeitou os óculos.
“Esse trecho não estava na publicação.”
“Foi cortado”, respondi.
Viviane cruzou os braços.
“Não fui eu quem editou.”
“Mas foi você quem escreveu que cada uma oferece o que tem.”
“Era uma observação geral.”
“Embaixo de um vídeo meu.”
Ninguém falou.
Abri a foto do orçamento.
“Tenho um contrato de fornecimento. Cobro por refeição. O dinheiro do leilão está no caixa da campanha, e vocês sabem disso. Quero a correção.”
Viviane olhou para Davi.
Ele permaneceu junto à porta.
“Pode responder à Cecília”, disse apenas.
Dona Lurdes puxou o notebook.
“Vamos tirar. A conta é da associação.”
Viviane começou a protestar, mas a mulher abriu a publicação.
Fiquei até que fosse removida.
Também fiquei até ler a correção.
Não era um pedido de desculpas bonito. Era suficiente para afirmar que o vídeo havia sido editado e que o fornecimento de refeições era um acordo profissional.
Saí com as pernas tremendo.
Na calçada, Davi perguntou:
“Quer água?”
Quase chorei por causa daquela pergunta simples.
“Quero.”
Ele comprou uma garrafa no mercadinho e entregou sem dizer que eu devia ter feito isto ou aquilo.
Bebi metade antes de conseguir falar.
“Obrigada por não tomar a conversa de mim.”
“Você disse que queria falar.”
“Tem gente que escuta e faz diferente.”
Davi apoiou uma mão na porta da caminhonete.
“Eu estava com vontade.”
“Eu percebi.”
“Mas você resolveu.”
Olhei para ele. Queria encostar meu rosto no peito daquele homem por um minuto. Também queria chegar em casa antes que ele percebesse o tamanho da minha vontade.
Pedi que me deixasse na pensão.
Meu pai já havia visto a correção. Estava sentado perto da janela, com a expressão que usava quando achava que devia me aconselhar.
“Essa história está ficando grande, Cecília.”
“Porque mentiram.”
“Eu sei. Estou falando de você e desse homem.”
Tirei a bolsa do ombro.
“Temos um trabalho.”
“E você quer que seja só isso?”
Não respondi depressa o bastante.
Meu pai baixou os olhos.
“Você não conhece o Davi. Um homem sozinho na serra pode gostar de ter alguém por perto. Não significa que queira uma vida com essa pessoa.”
A frase encontrou exatamente o lugar que eu tentava proteger.
“Ele não me prometeu uma vida.”
“Então não espere mais do que ele prometeu.”
Fui para a cozinha.
Preparei as caixas do jantar adicional que a equipe havia pedido. Depois liguei para dona Nair e perguntei se podia ficar com meu pai mais uma hora.
Ela disse que sim.
Eu poderia mandar a entrega com o rapaz do mercadinho.
Decidi levar.
Quando cheguei ao sítio, os homens já estavam saindo. Ícaro pegou as caixas e me agradeceu, ocupado demais em discutir o jogo de domingo para notar minhas mãos.
Davi estava lavando uma ferramenta no tanque.
Enxugou-se quando me viu.
“Achei que mandaria com o entregador.”
“Eu também.”
Ele esperou que eu continuasse.
Entrei na cozinha para não ter aquela conversa no quintal. Davi veio atrás e deixou a porta aberta.
O contrato ainda estava preso na lateral do armário, junto ao cardápio.
Olhei para a folha.
“Se eu parar de cozinhar aqui, você ainda vai me procurar?”
Davi não respondeu de imediato.
A demora fez meu rosto queimar.
“Não estou pedindo garantia de nada”, acrescentei. “Só quero saber se estou confundindo as coisas.”
“Vai olhar para mim?”
Virei.
Ele permanecia a alguns passos.
“Vou procurar você.”
“Para pedir pão?”
“Para convidar você para sair.”
Engoli em seco.
“Você nunca convidou.”
“Estou convidando agora. Domingo. Sem entrega, sem orçamento. Nós dois.”
Apoiei a mão na bancada.
“Eu não sei fazer isso muito bem.”
“Sair comigo?”
“Fingir que não me importo, caso você mude de ideia depois.”
Davi se aproximou um passo.
“Não precisa fingir.”
“Você fala como se fosse fácil.”
“Não acho fácil.”
Sua expressão estava séria. Pela primeira vez, vi hesitação naquele homem.
“Quero passar tempo com você”, continuou. “Quero saber o que gosta quando não está cuidando de alguém. E estou tentando não fazer você pensar que precisa aceitar por causa do trabalho.”
Meu peito doeu de um jeito bom e assustador.
“Eu quero ir no domingo.”
Ele soltou o ar devagar.
“Está bem.”
Sorri, nervosa.
“Essa é toda a sua resposta?”
A boca dele se curvou.
“Estou escolhendo a próxima.”
Davi parou perto o bastante para que eu pudesse tocá-lo. Seus olhos desceram até minha boca e voltaram.
“Posso beijar você, Cecília?”
Passei os dedos pela gola da camisa dele.
O tecido estava morno. Senti sua respiração mudar sob a minha mão.
“Pode.”
Puxei-o para mim.
Davi inclinou o rosto, e eu me ergui na ponta dos pés, segurando sua camisa antes que a coragem tivesse tempo de me abandonar.
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