"A Preferida do Bruto da Serra" Parte 2 — Não Preciso Que Você Me Salve
Parte 2 — Não Preciso Que Você Me Salve
Às sete e cinquenta e oito, eu já tinha trocado a toalha da mesa duas vezes.
Na terceira, meu pai baixou o jornal.
“Se ele veio contratar comida, não vai examinar a toalha.”
“Esta estava manchada.”
“A outra também?”
Ignorei a pergunta e alinhei o caderno com a calculadora.
Eu vestia uma blusa cor de vinho e jeans. Prendera o cabelo, mas duas mechas continuavam escapando junto ao rosto. Pensei em prendê-las outra vez e desisti quando ouvi a batida na porta.
Davi estava na varanda com minha panela nas mãos.
Demorei um segundo para entender.
“Você pegou isso daqui?”
“Seu pai entregou ontem à noite. Voltei de carro para buscar, depois que guardei as ferramentas.”
Olhei para meu pai. Ele sorriu por trás do jornal.
“Eu não queria que alguém levasse da varanda”, justificou.
Peguei a panela. Estava limpa, seca, com o pano dobrado sobre a tampa.
“Não precisava lavar.”
“Precisava devolver.”
Havia uma sacola pequena junto aos pés dele.
“Trouxe café. Não sei se você já tomou.”
“Estou trabalhando desde as cinco.”
Ele olhou para as duas canecas que eu havia separado.
“Isso não responde.”
Afastei uma cadeira.
“Sente. O café daqui ainda está quente.”
Meu pai recolheu o jornal e anunciou que ia para a varanda. Nunca demonstrara tanto interesse em tomar sol numa manhã nublada.
Abri o caderno.
“Antes de falar de cardápio, preciso saber quantas refeições e por quanto tempo.”
Davi apoiou os antebraços na mesa.
“Oito homens. Almoço de segunda a sexta. Por enquanto, seis semanas. Podemos estender se os reparos atrasarem.”
“Você está incluído nos oito?”
“Nove, então.”
Anotei.
“Entrega ou preparo lá?”
“Prefiro que veja a cozinha e me diga o que funciona.”
“Posso ir hoje depois de servir o almoço dos hóspedes. Mas a visita não significa que aceitei.”
“Tudo bem.”
Expliquei o custo do gás, das embalagens, do transporte e dos ingredientes. Acrescentei minha mão de obra antes que tivesse vontade de diminuí-la.
Ele leu a página.
“Você colocou alguém para ajudar?”
“Se o volume aumentar, vou precisar.”
“Coloque agora. Não quero que o serviço daqui fique sem ninguém por causa do nosso.”
Aquilo era sensato. Ainda assim, minha primeira reação foi desconfiar.
“Eu decido quem contrato.”
“Sim. Estou perguntando se o preço já cobre isso.”
Baixei os olhos para as contas e corrigi o orçamento.
Davi esperou sem mexer no telefone.
“Preciso de adiantamento para as compras”, falei. “E pagamento semanal.”
“Pode fazer por escrito.”
“Vou fazer.”
“Ótimo.”
Foi estranho negociar com alguém que não tratava cada condição como uma afronta.
À uma da tarde, deixei meu pai com dona Nair, nossa vizinha, e subi na caminhonete de Davi. Ele perguntou se eu queria fechar o vidro antes de tomar a estrada de terra.
Eu disse que não.
Precisava de ar.
O Alto do Cedro ficava a vinte minutos da cidade. As construções antigas apareciam entre árvores, algumas com telhado novo, outras ainda cercadas de andaimes.
Um rapaz veio correndo quando estacionamos.
“Finalmente trouxe a cozinheira!”
Davi desligou o motor.
“Trouxe a Cecília. Ela ainda está decidindo.”
O rapaz se aproximou da minha janela.
“Ícaro. Desculpa. É que ontem o almoço virou carvão.”
“Quem estava cozinhando?”
Ele apontou discretamente para Davi.
Olhei para o motorista.
“Você?”
“Era para ser arroz.”
Ícaro apertou os lábios para não rir.
A cozinha ficava numa casa comprida, com duas janelas grandes e uma bancada de madeira. Entrei já olhando o fogão, a pia e as caixas empilhadas junto à parede.
O forno de alvenaria era bonito.
Também estava errado.
“Quem construiu?”
Davi apontou para o fundo do quintal.
“Dois pedreiros. Qual é o problema?”
“A saída está estreita. E a boca ficou alta demais.”
Ícaro se inclinou para olhar.
“Mas acende.”
“Acender é fácil. Quero ver assar por dentro sem queimar por fora.”
Pedi uma trena e medi a abertura. Davi segurou uma ponta enquanto eu me ajoelhava.
“Dá para corrigir?” perguntou.
“Dá. Até lá, não vou usar.”
Ele chamou os pedreiros.
Achei que fosse pedir que me convencessem do contrário. Em vez disso, apontou para o forno.
“Ela vai mostrar o que precisa mudar.”
Um dos homens fez uma pergunta. Respondi. Ele examinou a medida, coçou a cabeça e concordou que a alteração era possível.
Ninguém riu.
Fui até a bancada.
“Esta mesa precisa ficar mais perto da janela.”
Davi pôs as mãos na madeira.
“Para onde?”
“Eu pego deste lado.”
“É pesada.”
“Por isso são duas pessoas.”
Ele me olhou e aceitou.
Erguemos juntos. Na passagem entre a pia e a parede, faltou espaço. Precisei virar o corpo, e o braço dele roçou minha cintura.
“Devagar”, falei.
“Estou seguindo você.”
O calor daquele braço atravessou a blusa.
Pousamos a mesa. Davi ficou perto o bastante para eu perceber o cheiro de sabonete misturado ao couro da caminhonete.
Afastei-me para abrir a bolsa.
“Trouxe comida para a prova.”
Ele demorou um instante antes de responder.
“Vou chamar os homens.”
Servi arroz, feijão, frango com quiabo e angu. Pedi que me dissessem se as porções eram suficientes e se alguém tinha restrição alimentar.
Ícaro terminou primeiro.
“Pode começar amanhã?”
“Posso começar segunda. Preciso organizar as compras.”
“E pode vir pão?”
“O pão tem outro preço.”
“Eu pago o meu.”
Os demais riram, mas daquela vez o riso não estava contra mim.
Davi comeu em silêncio e pediu mais quiabo.
Quando terminamos, abriu o orçamento que eu levara.
“Vamos fazer a primeira semana. Depois conversamos sobre o restante.”
Conferimos os valores e assinamos duas vias. A transferência do adiantamento caiu enquanto eu recolhia os pratos.
Olhei para a tela.
Era dinheiro que eu tinha ganhado antes de gastar.
Poderia buscar os remédios do meu pai sem pedir que a farmácia anotasse mais uma semana.
Davi percebeu que eu continuava olhando.
“Está certo?”
“Está.”
Guardei o celular depressa.
“Vou emitir o recibo quando chegar.”
Ele me ajudou a levar as caixas vazias até a caminhonete. O vento havia mudado, e uma neblina baixa começava a atravessar as árvores.
Esfreguei as mãos nos braços.
Davi abriu a porta traseira e pegou uma jaqueta.
“Vista.”
Eu ergui uma sobrancelha.
Ele respirou pelo nariz.
“Quer vestir?”
A correção quase me fez rir.
“Você costuma dar roupa para quem trabalha aqui?”
“Não.”
“Então por que eu?”
Ele segurou a jaqueta aberta, mas não avançou.
“Porque você está com frio e eu tenho uma sobrando.”
“Isso ainda não explica por que trouxe para mim.”
Davi olhou meu rosto.
“Eu vi seu casaco ontem.”
Aquele homem havia reparado no meu casaco.
Vesti a jaqueta. Ficou larga nos ombros e justa o suficiente nos quadris para eu precisar acomodar a barra. Ele desviou os olhos enquanto eu fechava o zíper.
No caminho de volta, conversamos sobre fornecedores e horários. Quando passamos pela farmácia, pedi que parasse.
Fui buscar os remédios.
Voltei com a sacola contra o peito e encontrei Davi do lado de fora, verificando um pneu.
Ele se levantou sem perguntar o que eu havia comprado.
Gostei disso mais do que esperava.
Na pensão, meu pai estava à mesa com um prato de pão.
“O rapaz deixou uma parte para mim”, disse.
Olhei para Davi.
“Você pagou dois mil reais e dividiu o pão?”
“Não conseguiria comer tudo.”
Meu pai pegou outra fatia.
“É uma pena. Eu conseguiria.”
Ri. Davi sorriu, e seu rosto mudou de um jeito que me fez esquecer a resposta.
Acompanhei-o até a varanda para devolver a jaqueta.
“Pode ficar até segunda.”
“Não vou sair do carro para entregar as caixas?”
“Vou estar lá.”
Passei a mão pela manga.
“Davi, se está fazendo tudo isso porque ouviu aquelas mulheres…”
Ele esperou.
Eu terminei, embora odiasse precisar perguntar:
“Não quero que tenha pena de mim.”
Seu sorriso desapareceu, mas sua expressão não endureceu.
“Gostei da sua comida. Preciso contratar alguém que saiba fazer. Isso é trabalho.”
Assenti, pronta para encerrar o assunto.
Ele continuou:
“E quero ver você de novo. Isso não tem nada a ver com pena.”
Meus dedos pararam sobre o zíper.
“Você poderia ter dito só a primeira parte.”
“Poderia.”
Ele desceu o degrau e caminhou até a caminhonete.
Eu fiquei na varanda, vestindo a jaqueta dele, com o coração batendo como se tivesse subido a serra a pé.
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