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"A Preferida do Bruto da Serra" Parte 1 — O Homem Que Comprou Meu Pão

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Parte 1 — O Homem Que Comprou Meu Pão

“Você trouxe um pão ou um tijolo, Cecília?”

A primeira risada veio antes de eu soltar as alças da panela.

O ferro bateu na mesa com força suficiente para fazer as xícaras de Viviane tilintarem. Patrícia levou a mão à boca, mas deixou os olhos descobertos. Queria que eu visse o quanto estava se divertindo.

“É pão de fermentação natural, com aveia”, respondi, tirando o pano das mãos.

“Ah. Então é de propósito.”

Outras mulheres riram.

Eu havia começado aquela massa na tarde anterior, entre o almoço dos hóspedes e a troca de roupa de cama. Levantara às quatro para aquecer o forno. Antes de sair, deixara o jantar do meu pai pronto e contara o dinheiro da gaveta duas vezes, como se uma terceira contagem pudesse fazer aparecer o que faltava.

Não precisava que gostassem do pão. Mas tinha o direito de colocá-lo naquela mesa sem ser tratada como uma piada.

Patrícia ergueu a tampa. O cheiro quente de aveia tostada se espalhou entre os bolos decorados.

“Nossa. Nem um lacinho?”

“Não achei que alguém fosse comer o laço.”

Uma senhora perto de mim escondeu um sorriso.

Viviane Bastos apareceu com sua prancheta junto ao peito. Usava brincos de pérola e um vestido claro que provavelmente nunca havia passado perto de uma panela engordurada.

“Não leve tudo tão a sério, querida. Estamos arrecadando dinheiro para as famílias que perderam os telhados na chuva.”

“Foi por isso que eu trouxe o pão.”

“Claro. Só precisamos cuidar da apresentação. As pessoas compram primeiro com os olhos.”

Seu olhar desceu pelo meu vestido verde, parou na cintura e voltou ao meu rosto.

Eu conhecia aquele percurso. Aos vinte e oito anos, já tinha ouvido comentários suficientes para reconhecer uma ofensa antes que terminassem de pronunciá-la.

“Então ponha uma etiqueta com os ingredientes”, falei. “A apresentação está pronta.”

Viviane apertou a boca.

“Vamos deixar sua panela na ponta. Os bolos maiores precisam de espaço.”

Ela apontou para o trecho da mesa junto à parede, atrás de uma jarra de flores.

Peguei a panela e mudei de lugar. Era pesada, mas o peso não me incomodava tanto quanto a vontade de sair dali. Ficar significava oferecer a elas mais tempo para me atingir. Ir embora significava deixar que decidissem até onde eu podia entrar.

Escolhi uma cadeira perto da mesa.

O leilão começou com os doces de Patrícia. O apresentador elogiou as flores de açúcar, a delicadeza da cobertura, o talento de quem preparara cada cesta.

Uma torta saiu por cento e oitenta reais. Um bolo, por duzentos e cinquenta.

Quando chegou a vez do meu pão, o homem precisou perguntar quem o havia trazido.

“Cecília Moura”, respondi.

“A moça da pensão”, explicou Viviane.

Eu me levantei.

“Meu nome já estava certo.”

O apresentador pigarreou.

“Isso. Um pão artesanal da Cecília. Quem oferece cinquenta reais?”

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Ninguém levantou a mão.

Patrícia falou alguma coisa para a mulher ao lado. As duas olharam para mim.

“Trinta, então?”

Eu deixara meus melhores ingredientes ali. Trinta reais não cobriam o que havia gastado, muito menos meu trabalho.

“Pode passar para o próximo”, falei.

“Não precisa ficar chateada”, disse Viviane. “Nem tudo agrada.”

Fui até a mesa antes que minha garganta me traísse.

Naquele momento, a porta do salão abriu.

O vento trouxe uma faixa de chuva pelo chão. Um homem entrou e fechou a porta atrás de si, empurrando a madeira contra a rajada com uma mão.

As conversas diminuíram.

Reconheci Davi Ferraz mesmo sem nunca ter falado com ele.

Em Santa Aurora da Serra, seu nome aparecia quando alguém precisava de um trator numa estrada ruim ou queria reclamar de um homem que não aceitava ordens dos Bastos. Viviane o chamava de grosseiro. Meu pai dizia apenas que era melhor não entrar em assunto que não nos dizia respeito.

Ele tirou a jaqueta molhada.

A camisa escura se ajustava aos ombros largos. Havia lama nas botas, uma cicatriz curta atravessando a sobrancelha e barba suficiente para acentuar o desenho firme da boca.

Davi olhou a mesa.

Depois olhou para a minha mão sobre a tampa.

“Já venderam esse?”

“Ainda não”, respondi.

“Posso ver?”

Afastei a tampa.

Ele inclinou o rosto sobre o pão, sem tocar.

“Foi assado hoje?”

“De manhã.”

“Tem como provar?”

Peguei a faca que ninguém havia colocado ao lado da minha panela. Cortei uma fatia e entreguei num guardanapo.

Patrícia soltou uma risadinha.

“Cuidado com os dentes.”

Davi mastigou devagar. Olhou para ela, depois voltou a atenção para mim.

“Quanto está o lance?”

“Trinta reais”, disse o apresentador depressa.

“Dois mil.”

Achei que tivesse ouvido errado.

O homem do microfone também.

“Duzentos?”

“Dois mil.”

Uma cadeira raspou atrás de mim.

“Davi, isso é um leilão beneficente”, observou Viviane, como se ele estivesse prejudicando a arrecadação.

“Eu sei.”

“Você nem viu os outros pratos.”

“Eu provei o que quero.”

Senti o calor subir pelo meu pescoço. Não gostei da possibilidade de ele estar pagando para me poupar. Pena diante de uma plateia podia machucar tanto quanto deboche.

“Não precisa fazer isso”, falei baixo.

Ele me ouviu.

“Estou dando um lance. Se outra pessoa quiser cobrir, pode.”

Ninguém quis.

O apresentador bateu o pequeno martelo na mesa e anunciou a venda.

Perto das cadeiras, um homem assobiou.

“Por esse preço, leva a cozinheira junto!”

Algumas pessoas riram.

Virei antes de Davi responder.

“O pão está no leilão. Eu não.”

O sorriso do homem desapareceu.

Davi colocou o guardanapo no prato.

“Ela acabou de explicar.”

Sua voz não subiu. Ainda assim, o homem baixou os olhos.

Viviane apresentou o código para pagamento. Davi fez a transferência e mostrou o comprovante ao responsável pelo caixa, sem procurar meu rosto para receber agradecimentos.

Aquilo me permitiu respirar melhor.

“O dinheiro vai para a campanha”, eu disse quando ele voltou.

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“Foi o que me falaram.”

“Então não vou ficar lhe devendo.”

Ele me observou por um instante.

“Eu não disse que ficaria.”

Eu não tinha resposta pronta para aquilo.

Comecei a envolver a panela no pano.

“Preciso levar o ferro de volta. Posso embrulhar o pão.”

“Você usa essa panela todo dia?”

“Quase.”

“Então não vou levar.”

Ele esperou até que eu terminasse de ajeitar as alças.

“Tenho oito homens trabalhando no Alto do Cedro. Estamos reformando as casas antigas. Preciso de alguém para fornecer comida.”

Olhei para ele.

“Você está oferecendo trabalho?”

“Estou perguntando se você quer conversar.”

“Conversar não é aceitar.”

“Eu sei.”

Atrás dele, Viviane ainda nos observava. Eu podia imaginar a versão que sairia dali se continuássemos falando.

“Amanhã, na pensão”, respondi. “Às oito. Vou preparar um orçamento.”

“Estarei lá.”

Levantei a panela.

Davi fez um movimento em direção às alças, mas parou quando percebeu que eu já as segurava.

“Quer ajuda?”

“Consigo carregar.”

“Não perguntei se consegue.”

A frase me pegou desprevenida. Olhei para seus braços, para as mãos grandes e marcadas. Depois para os meus dedos apertando o pano.

“Hoje, não.”

Ele assentiu e pegou a própria jaqueta.

Saímos juntos porque a porta era a mesma. Pelo menos foi o que disse a mim mesma.

Na calçada, a chuva havia enfraquecido. A rua brilhava sob os postes, e a ladeira até a pensão parecia maior que de costume.

“Estou de carro”, ele falou. “Posso deixar você em casa.”

“É perto.”

Davi olhou para a subida.

“Perto é uma palavra generosa.”

Quase sorri.

“Eu faço esse caminho todo dia.”

Ele acompanhou meu passo.

Não tentou pegar a panela outra vez. Não perguntou por que eu estava solteira, não comentou meu corpo e não me chamou de moça corajosa, como se uma mulher carregar ferro fosse um espetáculo.

Na segunda esquina, um cachorro atravessou correndo. Davi segurou de leve meu cotovelo para me afastar da sarjeta e soltou assim que o animal passou.

Foi um toque breve.

Meu corpo levou tempo demais para esquecê-lo.

“Você sempre aparece no fim das festas?” perguntei.

“Quando consigo escapar do trabalho.”

“Perdeu os discursos.”

“Então cheguei na hora certa.”

Dessa vez, sorri de verdade.

Na pensão, a luz da cozinha estava acesa. Meu pai apareceu atrás da janela, apoiado no encosto de uma cadeira.

Pousei a panela no banco da varanda.

“Você não levou seu pão.”

Davi olhou para ela.

“Deixe aí. Amanhã eu pego.”

“Pode mandar alguém buscar.”

“Vou vir conversar sobre o trabalho.”

Puxei uma mecha úmida para trás da orelha.

“E se meu preço for alto?”

“Eu escuto antes de decidir.”

Ele desceu o degrau.

“Boa noite, Cecília.”

Esperei até que se afastasse para abrir a porta.

Meu pai olhou primeiro para mim, depois para a panela.

“Não venderam?”

“Venderam.”

“E por que voltou com ela?”

Tirei o casaco fino e o pendurei no gancho.

“O homem vem buscar amanhã.”

Meu pai ergueu as sobrancelhas.

Eu fui lavar as mãos antes que ele percebesse meu sorriso.

Durante anos, os homens de Santa Aurora haviam encontrado razões para olhar além de mim.

Davi Ferraz tinha marcado hora para voltar.

E eu ainda estava decidindo se aquilo me dava mais medo ou vontade.

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