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"Havia Outro Dante Montenegro no Necrotério" Capítulo 4 — As Cinzas Erradas

正文开头

O caixão saiu da câmara como uma caixa arrancada do inferno.

Mesmo depois do resfriamento de emergência, o metal estalava. A madeira externa se desfizera. Parte do corpo havia sido consumida, e o odor obrigou dois policiais a deixarem a sala.

Cecília permaneceu.

Ela cobriu os cabelos, vestiu proteção térmica e recebeu autorização da perícia para observar a recuperação. Não podia tocar em nada, mas podia indicar onde procurar.

"A mandíbula sofreu trauma no acidente", disse ao perito. "Os molares do lado direito estavam preservados."

Encontraram fragmentos dentários, parte de uma prótese e tecido protegido sob a região dorsal. O marcapasso resistira deformado, com o número de série ainda visível.

Pouco, mas não nada.

Leandro assistia do corredor, acompanhado por seu advogado. Quando o perito colocou as amostras em recipientes lacrados, ele saiu sem se despedir.

Rafael aproximou-se de Cecília.

"Dante foi transferido."

"Para onde?"

"Centro de Detenção Provisória. A acusação pediu prisão preventiva."

"Por falsificar a própria identidade?"

"E por tentar assumir o patrimônio de um morto."

A lógica era tão perfeita que parecia loucura.

Enquanto isso, no Fórum João Mendes, Henrique Paes argumentava que o homem detido precisava ser reconhecido ao menos como pessoa de identidade desconhecida, com direito a defesa. O promotor respondeu que ele portava documentos falsos e comandava homens armados.

O juiz negou a liberdade imediata, mas autorizou exame independente de DNA, perícia das digitais e acesso restrito a Dante.

Henrique encontrou o cliente numa sala sem janelas.

"Sua mãe não está na mansão", disse o advogado.

Dante ergueu os olhos.

"Leandro disse que estava sedada."

"A equipe de Rafael chegou lá. Os funcionários foram dispensados, as câmeras desligadas e os portões passaram para uma empresa nova."

"Qual empresa?"

"Salles Proteção Patrimonial."

Dante reconheceu o sobrenome.

Vitória Salles fora sua noiva durante três anos. Depois da separação, assumira uma diretoria numa seguradora e desaparecera de sua vida com a elegância de quem fechava um contrato.

"Vitória está envolvida?"

"A empresa pertence ao irmão dela. E há mais. Seu seguro de vida foi atualizado há seis meses."

"Eu não atualizei nada."

"A apólice paga R$ 180 milhões. Beneficiária provisória: a holding familiar administrada por Leandro."

Dante não demonstrou surpresa. Henrique o conhecia havia quinze anos e sabia que isso significava fúria.

"E o Grupo Montenegro?"

"Suas ações estão bloqueadas até o inventário. Leandro assumiu a presidência interina. As contas pessoais foram encerradas. A mansão está registrada como bem do espólio."

"Tudo em menos de doze horas."

"Tudo começou antes de ontem. Só estamos vendo agora."

Dante apoiou os antebraços na mesa.

"Tire Cecília da linha de fogo."

"Ela não aceita proteção."

"Não pergunte."

"Essa ordem funcionava quando você tinha nome."

Dante encarou o advogado. Depois soltou uma respiração curta.

"Então peça."

Na manhã cinzenta, Cecília deixou o crematório carregando apenas a bolsa. Seu crachá fora cancelado. Arnaldo enviara a demissão por mensagem, citando insubordinação, exposição indevida da empresa e violação de confidencialidade.

正文1

Ela leu sem responder.

Um carro a seguiu desde Taboão da Serra.

Cecília entrou numa padaria movimentada na Vila Sônia, saiu pela porta lateral e atravessou duas ruas. O carro reapareceu na esquina. Não era de Rafael.

Ela telefonou para ele.

"Tem alguém me seguindo."

"Placa?"

"Final 73. Sedã preto."

"Entre num lugar com câmeras. Estou a oito minutos."

"Você sempre está a oito minutos?"

"Hoje, sim."

Cecília entrou numa farmácia. O sedã parou do outro lado da rua. Um homem desceu, fingiu olhar a vitrine e tocou o ouvido como quem recebia instruções.

Rafael chegou em seis minutos. O sedã partiu antes que ele pudesse bloquear a rua.

"Reconheceu?", perguntou Cecília.

"Não."

"Mentira."

Rafael permaneceu olhando para o trânsito.

"Ele trabalhou na segurança do hospital."

"Como sabe?"

"Porque fui eu que aprovei a contratação."

Rafael abriu no celular uma planilha antiga. O homem se chamava Fábio Lessa e entrara no hospital com referências perfeitas, todas verificadas por uma empresa de recrutamento que deixara de existir dois meses depois.

"Ele nunca cometeu uma falha", disse Rafael. "Agora entendo por quê. Não estava protegendo o hospital. Estava estudando os acessos."

"Inclusive os seus."

Rafael fechou a tela.

"Inclusive os meus."

Ela notou o peso daquela resposta.

"Quantas pessoas envolvidas foram contratadas por você?"

"Ainda não sei."

"E seu crachá cancelado?"

"Também não sei."

"Dante confia em você?"

"Com a vida."

"Talvez esse seja o problema."

Rafael não se ofendeu. Apenas abriu a porta do carro.

"A perícia recuperou tecido suficiente. O DNA sai amanhã. O marcapasso foi vendido ao Hospital São Gabriel, mas o lote tinha cinco unidades. Precisamos do registro cirúrgico original."

"E ele sumiu."

"A cópia digital, sim. Uma médica pode ter guardado o arquivo físico. Dra. Laura Menezes, chefe dos prontuários."

Laura telefonara para Rafael duas semanas antes, mas desligara sem deixar recado. Ele tratara a chamada como engano. Agora, a lembrança tinha outro peso.

"Se ela tentou avisar e alguém percebeu, a licença pode não ter sido escolha dela", disse Cecília.

"Então precisamos encontrá-la antes que o mesmo sistema emita outra declaração de óbito."

Eles seguiram para o Morumbi. No caminho, Cecília examinou novamente as fotos do cadáver. Ampliou o pescoço, o peito, a mão. Algo a incomodava desde a primeira noite.

"O anel."

"O que tem?"

"Foi colocado depois da morte, mas o dedo já estava inchado. Quem fez isso tinha pressa."

"Ou queria que fosse encontrado."

"Exato. As tatuagens, a cicatriz, o marcapasso, as digitais. Não esconderam a identidade falsa. Exageraram nela."

"Para ninguém fazer perguntas."

"Para que qualquer pergunta tivesse dez respostas oficiais."

No Hospital São Gabriel, disseram que Laura pedira licença naquela manhã. O endereço cadastrado levava a um apartamento vazio havia três meses.

Cecília pediu acesso ao livro físico de entrada de cadáveres. A recepcionista negou. Rafael mostrou uma cópia da ordem de preservação de provas do Ministério Público.

Depois de vinte minutos, levaram os dois a uma sala de arquivo.

O registro referente ao corpo de Dante fora preenchido à mão. A caligrafia era uniforme, quase escolar. Horário de óbito: 22h17. Liberação: 23h02. Saída para a funerária: 23h40.

Cecília comparou com a fotografia tirada na Santa Luzia.

"A temperatura corporal não batia."

"Explique."

"Quando chegou, ele não estava morto havia duas horas. Estava morto havia bem menos."

"Quanto menos?"

"Talvez vinte ou trinta minutos."

Rafael olhou para o registro.

"Então ele morreu na ambulância?"

"Ou chegou vivo à funerária."

Um ruído no corredor interrompeu os dois. Alguém correu. Rafael abriu a porta e viu o homem do sedã desaparecer pela escada.

Ele o perseguiu.

Cecília permaneceu no arquivo. A gaveta inferior estava aberta. Dentro, encontrou uma pasta caída, com folhas espalhadas. Uma delas era a cópia da declaração de óbito.

O médico signatário era o cardiologista desaparecido.

O horário da assinatura digital: 16h11.

Cecília releu.

O acidente que supostamente matara Dante só fora registrado às 21h48.

A declaração de óbito havia sido assinada quase seis horas antes de a vítima morrer.

Atrás da folha, preso com um clipe, havia um comprovante de entrada no hospital. O nome do paciente fora apagado com corretivo, mas a pressão da caneta deixara marcas no papel.

Cecília inclinou a página contra a luz.

Não estava escrito Dante Montenegro.

Estava escrito Mateus Nogueira.

E, ao lado do nome, uma observação manuscrita transformava a fraude em algo ainda mais terrível:

"Não permitir que ele fale com o irmão."

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