"Havia Outro Dante Montenegro no Necrotério" Capítulo 3 — A Cremação em Trinta Minutos
Cecília entrou no carro de Rafael sem pedir permissão.
"O crematório fica a pelo menos quarenta minutos."
"Em horário normal", respondeu ele, acelerando pela Rua da Consolação. "Esta madrugada, chegamos em vinte e cinco."
"E depois? Você aponta uma arma para o forno?"
"Depois você me diz por que a ordem é irregular."
"Porque cadáver envolvido em investigação de identidade não pode ser destruído."
"Isso basta?"
"Bastaria se alguém quisesse ouvir."
Rafael fez duas ligações. A primeira para Henrique. A segunda para uma promotora que devia um favor antigo a Dante. Nenhum deles prometeu uma liminar em menos de uma hora.
Cecília examinou no celular a foto da ordem judicial. A assinatura digital parecia válida. O nome do juiz também. Mas o horário de emissão era 1h12, dezessete minutos antes de Arnaldo receber o e-mail que supostamente dera origem ao pedido.
"A decisão veio antes da solicitação", disse ela.
"Tem certeza?"
"Os registros estão invertidos."
"Mande para Henrique."
Ela enviou a imagem. Um caminhão fechou a faixa, e Rafael desviou com violência. Cecília segurou o painel.
"Se morrermos, alguém terá de identificar dois corpos."
"Você faz piada quando está com medo."
"Faço piada quando motoristas tentam matar a única testemunha útil."
Rafael quase sorriu, mas seu telefone tocou.
Era Dante.
Silveira permitira uma chamada monitorada depois de receber as fotos. A voz do chefe saiu pelo viva-voz, firme apesar do ruído da delegacia.
"Cecília."
"Estou ouvindo."
"O morto tem um marcapasso registrado em meu nome."
"Então haverá um número gravado no aparelho. Se preservarmos o corpo, podemos rastrear a compra, a cirurgia e quem assinou o recebimento."
"Se não preservarmos?"
"O metal pode resistir parcialmente, mas os dados do dispositivo serão destruídos."
Dante fez uma pausa.
"Você consegue impedir a cremação?"
"Consigo criar um problema grande o bastante para alguém apertar o botão de pausa."
"Faça isso."
"Não trabalho para você."
"Ainda bem. Todos que trabalham para mim foram bloqueados."
A franqueza arrancou dela um silêncio.
"Então me peça", disse Cecília.
Rafael desviou os olhos da pista por um instante.
Na delegacia, Dante fechou a mão em torno do telefone.
"Por favor, não deixe que apaguem aquele homem."
Foi a primeira vez que Cecília ouviu medo em sua voz.
"Vou tentar."
Quando chegaram ao Crematório Vale da Paz, o portão estava fechado. Um segurança consultou uma lista e afirmou que nenhum traslado Montenegro dera entrada.
Cecília apontou para as marcas recentes dos pneus molhados no concreto.
"A van passou por aqui."
"Senhora, afaste-se."
Rafael saiu do carro. Sua presença bastou para o homem recuar um passo, mas Cecília levantou a mão.
"Sem violência. É isso que estão esperando."
Ela acionou a câmera do celular e começou uma transmissão ao vivo.
"Meu nome é Cecília Moura, tanatopraxista registrada. Um corpo com identidade contestada acaba de entrar neste crematório por uma ordem emitida antes do pedido que deveria fundamentá-la. Se ele for destruído, esta gravação mostrará quem permitiu."
O segurança tentou cobrir a lente.
Rafael segurou seu pulso no ar, sem torcê-lo.
"Não toque nela."
Luzes se acenderam no prédio administrativo. Uma mulher de jaleco apareceu, falando ao telefone. Cecília continuou narrando o horário, a placa da van e o número do protocolo.
O portão se abriu apenas o suficiente para a saída de um carro preto.
No banco traseiro, Leandro observou os dois.
Ele mandou o motorista parar.
"Cecília, você foi afastada. Não tem responsabilidade sobre esse corpo."
"Corpos não deixam de ter identidade porque meu turno terminou."
"A ordem judicial é válida."
"Foi assinada antes do pedido."
Por uma fração de segundo, Leandro não conseguiu esconder a surpresa.
"Você está fazendo acusações graves."
"Estou lendo horários."
"Desligue a transmissão."
"Mande interromper a cremação."
Leandro abriu a porta e saiu. Era mais alto do que Cecília imaginara, mas sua presença não possuía o peso de Dante. Seu poder vinha de documentos, assinaturas e salas em que ninguém verificava a ordem dos minutos.
"Você não sabe com quem está mexendo."
"Sei exatamente. Com alguém que tem pressa para destruir uma prova."
O celular de Cecília vibrou. A transmissão ultrapassara mil espectadores porque uma antiga colega compartilhara o vídeo em grupos de profissionais funerários.
Leandro viu o número.
"Se o corpo apresentar risco biológico, qualquer atraso pode expor funcionários."
"Qual risco?"
"O laudo está no processo."
"Eu preparei o corpo. Não havia isolamento, saco especial ou alerta sanitário. Seus funcionários o carregaram sem equipamento de contenção."
A mulher de jaleco aproximou-se e cochichou algo a Leandro. Ele respondeu com os dentes cerrados.
Rafael recebeu uma mensagem de Henrique.
"A promotora pediu suspensão por quinze minutos até revisar os horários."
"O forno já foi ligado", disse a mulher.
Cecília correu.
O segurança tentou barrá-la. Rafael abriu caminho sem sacar a arma, empurrando o portão com o ombro. Um alarme começou a tocar.
Eles atravessaram o corredor técnico seguindo o som das turbinas. O ar ficou quente. Um operador diante do painel olhou para Leandro, que vinha atrás.
"Continue", ordenou Leandro.
"Pare!", gritou Cecília. "Há uma suspensão do Ministério Público."
"Não recebi nada", disse o operador.
Rafael mostrou a mensagem, mas não era uma ordem formal. Henrique ainda aguardava o protocolo eletrônico.
No visor, a temperatura subia.
Cecília viu a maca vazia junto à câmara. O caixão já estava dentro.
"Quanto tempo?"
O operador não respondeu.
"Quanto tempo desde que entrou?"
"Quatro minutos."
Ela sentiu o estômago virar. O rosto, as digitais, a pele, as cicatrizes fabricadas: tudo desaparecia naquele instante.
O telefone de Rafael tocou. Henrique gritava que a suspensão fora protocolada.
Rafael colocou o aparelho diante do operador.
"Agora você recebeu."
O homem apertou o comando de emergência.
As turbinas diminuíram, mas não pararam imediatamente.
Do outro lado do vidro, uma luz âmbar começou a piscar. Cada segundo parecia consumir uma resposta que jamais poderia ser reconstruída.
Leandro avançou até o painel.
"Uma cremação iniciada não pode ser revertida com segurança."
"Pode reduzir a temperatura e retirar o recipiente quando o protocolo permitir", respondeu Cecília. "Eu conheço o equipamento."
"O cadáver já está comprometido."
"Ainda pode haver dentes, ossos, o marcapasso."
Leandro se aproximou dela.
"Você está destruindo sua carreira por um homem que conheceu há uma hora."
"Não. Estou arriscando minha carreira por outro homem, aquele que vocês nem sequer se deram ao trabalho de nomear."
Sirenas chegaram ao pátio. A promotora não enviara apenas um documento; enviara policiais para preservar o local.
Leandro voltou a vestir a expressão de parente preocupado.
"Espero que encontrem a verdade."
"Eu também", respondeu Cecília. "Principalmente sobre sua ordem."
Enquanto aguardavam o resfriamento, Silveira ligou para Rafael. O delegado obtivera a origem do certificado digital usado na cremação.
"Foi emitido pelo token pessoal de Dante", disse Rafael após desligar. "O registro indica validação biométrica."
Rafael enviou a Henrique o horário exato. Se a biometria fora aceita, alguém não copiara apenas a assinatura de Dante. Alguém possuía uma amostra capaz de enganar um sistema que bancos e tribunais tratavam como prova de presença.
"Quando?"
"Há quarenta minutos."
Cecília olhou para o relógio.
Há quarenta minutos, Dante estava detido diante de câmeras, sem telefone, carteira ou acesso a qualquer dispositivo.
Mesmo assim, sua assinatura acabara de autorizar a destruição do próprio cadáver.
Então o operador abriu o compartimento de segurança e encontrou, preso sob a estrutura do caixão, um pequeno transmissor ainda piscando.
Alguém não queria apenas apagar o morto.
Queria saber exatamente quando a última prova desapareceria.
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