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"Havia Outro Dante Montenegro no Necrotério" Capítulo 2 — O Homem Sem Nome

正文开头

Dante Montenegro perdeu o nome antes de perder a liberdade.

Na 4ª Delegacia de Polícia, na Consolação, retiraram seu relógio, seu telefone e a carteira que deixara de provar qualquer coisa. Fotografaram seu rosto. Coletaram as dez digitais. Consultaram três bancos de dados.

Todos devolveram o mesmo absurdo.

Dante Vasconcelos Montenegro morrera às 22h17 da noite anterior.

O homem sentado diante do delegado Silveira não existia.

"Meu advogado está a caminho", disse Dante.

"Qual deles?"

"Henrique Paes."

Silveira digitou o nome e virou a tela. Uma procuração eletrônica encerrara os poderes de Henrique às 6h04, usando certificado digital de Dante.

"Homens mortos não mantêm advogados."

"Homens mortos também não revogam procurações."

O delegado sustentou o olhar. Dante percebeu que ele não era estúpido. Isso podia ajudar ou tornar tudo pior.

"Quem ganha com sua morte?", perguntou Silveira.

"Muita gente."

"Quem consegue alterar digitais, CPF e prontuário?"

"Pouca gente."

"Nomes."

"Primeiro descubra quem lhe avisou que eu estava na funerária."

A porta se abriu. Leandro entrou com uma pasta e um advogado que Dante nunca vira.

"O delegado permitiu que eu ajudasse", disse Leandro.

"Você me ajudou bastante. Até escolheu o horário da cremação."

Leandro sentou-se devagar.

"A polícia me ligou de madrugada. O corpo tinha seus documentos, suas digitais, seu prontuário e seu anel. Sua mãe desmaiou quando soube."

"Onde está ela?"

"Sedada, em casa."

"Rafael vai buscá-la."

"Rafael teve o acesso ao Grupo Montenegro suspenso. Assim como todos os seus homens."

Dante inclinou o corpo para a frente.

"Você se moveu rápido."

"O conselho precisava impedir uma corrida aos bancos."

Leandro abriu a pasta. Dentro havia um documento de cessão temporária de poderes administrativos.

"Assine. Eu mantenho a empresa funcionando enquanto esclarecemos essa confusão."

"Você quer que um homem que considera impostor lhe entregue minhas empresas?"

"Quero evitar que oito mil funcionários paguem pela disputa de identidade de um desconhecido."

A palavra caiu entre eles.

Desconhecido.

Dante sorriu sem humor.

"Saia antes que eu esqueça onde estamos."

Leandro recolheu a caneta, mas deixou o documento.

"Sem nome, conta bancária ou endereço, você descobrirá que ameaça nenhuma vale muito."

Quando ele saiu, Silveira pegou a cessão.

"Seu primo parece preparado."

"Meu primo escreveu a peça antes de levantarem o pano."

Na Funerária Santa Luzia, Cecília fotografava tudo o que podia sem mover o corpo. O anel preso ao dedo. A maquiagem protética. As bordas avermelhadas das tatuagens. O número da etiqueta hospitalar.

Arnaldo entrou arrancando as luvas.

"Você está afastada."

"Por me recusar a esconder uma fraude?"

"Por deixar um homem armado entrar numa sala restrita."

"Ele não estava armado."

"Os seguranças estavam. A família quer você fora daqui."

Cecília guardou o celular no bolso.

"Preciso terminar o relatório técnico."

"Não existe relatório. O médico atestou a identidade."

"O médico não viu que a cicatriz é falsa."

"Talvez porque não seja."

Ela retirou com gaze mais um trecho de pigmento bege. A marca desapareceu quase por completo.

正文1

Arnaldo desviou os olhos.

"Vá para casa."

"Quem recebeu o corpo?"

"Jonas."

"Jonas está de férias."

O gerente não respondeu.

Cecília percebeu então que a etiqueta da maca havia sido trocada. A anterior tinha código iniciado por SG, do Hospital São Gabriel. A nova começava com IML, embora o corpo nunca tivesse passado pelo Instituto Médico Legal.

"Quem mexeu nesta etiqueta?"

Arnaldo segurou o braço dela.

"Você já perdeu um emprego por não saber parar. Não perca este também."

Cecília se soltou.

"Um homem está preso porque alguém transformou um cadáver nele."

"Esse problema não é seu."

"Virou meu quando colocaram a mentira na minha mesa."

Ela pediu cinco minutos para recolher seus pertences e entrou no vestiário. Em vez disso, ligou para a delegacia.

Silveira não quis atendê-la. Cecília deixou uma mensagem: a cicatriz não era antiga; fora construída com material protético. Em seguida, enviou as fotografias para o e-mail institucional.

Quando voltou à sala, dois funcionários de uma empresa funerária terceirizada já transferiam o corpo para outra maca.

"Aonde estão levando?"

"Preparação externa", respondeu um deles.

"A cremação é amanhã."

"Mudou."

Antes que cobrissem o cadáver, Cecília viu um hematoma estreito no antebraço esquerdo. Não parecia consequência do acidente. Havia duas perfurações paralelas, uma recente e outra cicatrizada, como se alguém tivesse colhido sangue repetidas vezes.

"Esperem. Isso precisa ser fotografado."

Um dos homens baixou o lençol depressa.

"Consta no prontuário."

"Qual procedimento?"

"Pergunte ao hospital."

O outro funcionário evitou encará-la. Cecília reconheceu o logotipo apagado no bolso do uniforme: Salles Proteção Patrimonial, a mesma empresa que às vezes fornecia vigilantes ao Hospital São Gabriel.

Ela fotografou os dois antes que empurrassem a maca. O medo deles não era de serem vistos transportando um cadáver. Era de que alguém reparasse em quem os contratara.

Cecília bloqueou a porta.

"Ninguém leva esse corpo sem cadeia de custódia."

O funcionário mostrou uma ordem digital assinada por Leandro Montenegro e por um juiz plantonista. Remoção imediata para o Crematório Vale da Paz, em Taboão da Serra.

Ela fotografou a tela antes que ele a guardasse.

Do outro lado da cidade, Rafael esperava diante da delegacia. Seus contatos haviam evaporado em poucas horas. Os porteiros do Grupo Montenegro não reconheciam mais sua matrícula. O aplicativo bancário bloqueava o salário. Seu crachá aparecia como cancelado desde a semana anterior.

Quando Cecília saiu pelos fundos da funerária, ele estava encostado num carro cinza.

"Você é irmão dela?", perguntou ela, reconhecendo o sobrenome que ouvira na recepção.

"Não. Moura é comum."

"E seguir pessoas também?"

"Dante pediu que eu garantisse sua segurança."

"Dante está preso."

"Por isso eu vim."

Cecília mostrou a ordem de remoção.

"Vão cremá-lo antes do amanhecer."

Rafael ligou para Henrique Paes. O advogado conseguira entrar na delegacia como visitante, mas sem procuração ativa não podia representar Dante formalmente.

"Temos menos de três horas", disse Rafael.

"Há outra coisa."

Cecília ampliou uma fotografia do ombro. Sob a maquiagem, a pele tinha pequenos pontos regulares nas bordas.

"A marca foi feita com bisturi e sutura. Não imitada na superfície. Fabricaram uma cicatriz."

"Quando?"

"Duas ou três semanas atrás. Talvez menos."

Rafael ficou em silêncio.

"Isso significa que o homem estava vivo enquanto o preparavam", disse ela.

"E significa outra coisa", acrescentou Rafael. "Quem fez isso teve tempo, local e acesso médico. Não estamos procurando alguém que encontrou um cadáver. Estamos procurando quem manteve um homem vivo para transformá-lo em Dante."

Na delegacia, Silveira recebeu o e-mail e entrou na sala de interrogatório. Colocou as imagens diante de Dante.

"A técnica funerária afirma que fabricaram sua cicatriz no cadáver."

"Então liberte-me."

"Isso prova fraude, não prova quem você é."

Silveira mostrou outro laudo recém-chegado. O morto possuía um marcapasso. O número de série constava no prontuário de Dante no Hospital São Gabriel, implantado depois de uma arritmia dois anos antes.

Dante abriu dois botões da camisa e expôs o peito.

Não havia cicatriz de implante.

"Nunca usei marcapasso."

Silveira tocou o documento.

"Seu cardiologista diz que usou. Exames, recibos, imagens e autorização do convênio confirmam."

"Traga o médico."

"Desapareceu esta manhã."

O delegado recebeu uma mensagem e empalideceu.

"O que foi?", perguntou Dante.

Silveira virou o celular. A ordem judicial autorizava a cremação imediata por risco sanitário, e o traslado acabara de deixar a funerária.

Abaixo, havia uma segunda notificação.

O homem vivo diante dele era agora investigado por falsidade ideológica, invasão e tentativa de apropriação do patrimônio de Dante Montenegro.

No papel, o morto possuía um coração registrado.

O vivo não possuía nem mesmo um nome.

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