"A Menina Que Dançou Diante do Chefe da Máfia Paralisado" Capítulo 5 — O Segredo de Helena
Dante não se moveu.
Durante alguns segundos, o único som no escritório foi o relógio antigo sobre a estante.
“Repete.”
Marina apertou os dedos.
“Helena tinha medo de alguém dentro desta casa.”
“Nome.”
“Eu não sei.”
Dante bateu a palma da mão sobre a mesa.
“Não mente para mim de novo.”
“Eu não estou mentindo!”
“Você mentiu desde o primeiro dia.”
“Porque eu estava com medo!”
“De mim?”
Marina ficou em silêncio.
Dante riu sem humor.
“Claro.”
“Você não entende como as pessoas falavam de você naquela época.”
“Eu estava casado com ela.”
“E isso não significa que ela contava tudo.”
A frase atingiu Dante.
Ele aproximou a cadeira.
“Cuidado.”
Marina ergueu o queixo.
“Você quer a verdade ou quer ouvir que conhecia sua esposa melhor do que qualquer pessoa?”
Dante ficou imóvel.
Marina respirou fundo.
“Eu conheci Helena quase nove anos atrás.”
“Onde?”
“Numa associação na Vila Mariana.”
“Que associação?”
“Casa Aurora.”
Dante conhecia o nome.
Uma instituição discreta que ajudava mulheres em situação de vulnerabilidade.
Helena fazia doações para várias organizações.
“Você trabalhava lá?”
“Na recepção. Depois comecei a ajudar com documentos.”
“E Helena?”
“Era voluntária.”
Dante franziu a testa.
“Ela nunca me disse.”
“Esse era o objetivo.”
Marina aproximou-se da mesa.
“Ela não queria fotógrafos. Não queria sobrenome em placa. Chegava com roupa simples e pedia para chamarem só de Helena.”
Dante olhou para a fotografia.
Conseguia imaginar.
A esposa odiava eventos de caridade onde metade do dinheiro era gasto em flores e fotógrafos.
“Por que ela confiou em você?”
Marina desviou os olhos.
“Isso é complicado.”
“Tenho tempo.”
“Eu não.”
“Você não sai daqui até terminar.”
Marina respirou fundo.
“Meses antes da emboscada, Helena começou a aparecer nervosa. Fazia perguntas sobre empresas, notas fiscais, nomes.”
“Que nomes?”
“Não lembro todos.”
“Conveniente.”
“Eu não sabia quem eram aquelas pessoas!”
Marina elevou a voz.
“Para mim, eram sobrenomes em papéis. Para você, talvez fossem homens armados.”
Dante ficou quieto.
“Ela descobriu movimentações estranhas”, Marina continuou. “Dinheiro passando por empresas ligadas ao Grupo Montenegro. Contratos falsos. Transportadoras.”
“Helena não trabalhava no grupo.”
“Mas tinha acesso.”
Dante sabia disso.
Helena possuía participação em duas holdings da família.
Nunca se interessara pela administração.
Ou ele pensara que não.
“Ela me entregou uma pasta.”
Dante ergueu os olhos.
“Que pasta?”
“Documentos.”
“Onde está?”
“Não tenho mais.”
Dante avançou tão rápido com a cadeira que Marina recuou.
“Onde está?”
“Eu escondi.”
“Onde?”
“Depois alguém entrou no meu apartamento.”
O rosto de Dante endureceu.
“Quando?”
“Dois dias antes da emboscada.”
Marina continuou:
“Não levaram dinheiro. Não levaram televisão. Reviraram só minhas coisas.”
“E a pasta?”
“Eu já tinha tirado de lá.”
“Onde colocou?”
Marina hesitou.
“Num lugar seguro.”
“E depois?”
“Helena me ligou.”
A voz de Marina mudou.
“Ela estava chorando.”
Dante sentiu o peito apertar.
Helena raramente chorava.
“Ela disse que precisava falar com você naquela noite.”
“Na noite da emboscada?”
“Sim.”
Dante fechou os olhos.
Ele lembrava.
Helena insistira para acompanhá-lo até Santos.
Ele pedira que ficasse.
Ela recusara.
Durante oito anos, acreditara que fora apenas teimosia.
“Ela entrou no carro porque queria me contar.”
“Eu acho que sim.”
“Você tentou impedir.”
“Pedi que esperasse.”
Marina começou a chorar.
“Falei que alguém já sabia que ela estava investigando. Falei que era perigoso.”
“E ela?”
“Disse que se alguma coisa acontecesse, você precisava saber.”
Dante olhou para a foto.
“Mas eu não soube.”
“Eu fiquei apavorada.”
“Ela morreu.”
“Eu sei.”
“Meu filho morreu.”
Marina fechou os olhos.
Dante nunca falava daquela forma.
Meu filho.
Não “o bebê”.
Não “a gravidez”.
“E você desapareceu.”
“Sim.”
“Por oito anos.”
“Porque três dias depois alguém me encontrou em Santos.”
Dante ergueu a cabeça.
“O hospital.”
Marina assentiu.
“Eu estava num quarto alugado. Um homem entrou.”
“Quem?”
“Não vi o rosto. Ele disse que, se eu falasse com você, minha família seria enterrada junto com Helena.”
Dante ficou imóvel.
“Naquela época minha mãe ainda estava viva.”
Marina limpou o rosto.
“Eu não era corajosa.”
“E agora?”
“Agora eu tenho Sofia.”
“Isso deveria fazer você falar.”
“Isso faz eu ter mais medo.”
Dante ficou em silêncio.
A porta abriu.
Bruno entrou.
“Desculpa interromper.”
Dante não desviou os olhos de Marina.
“O que foi?”
“Ricardo chegou.”
O corpo de Marina endureceu.
Dante percebeu.
“Você conhece Ricardo?”
“Não.”
A resposta saiu rápida.
Bruno olhou para os dois.
“Ele está na sala.”
Dante moveu a cadeira.
“Marina vem comigo.”
“Eu?”
“Quero ver uma coisa.”
Na sala principal, Ricardo Montenegro estava diante do bar.
Quarenta e quatro anos.
Terno impecável.
Primo de Dante e diretor financeiro de parte do grupo.
Ao ver Dante, sorriu.
“Finalmente.”
Então viu Marina.
O sorriso não desapareceu.
Mas os olhos mudaram.
Foi menos de um segundo.
Dante viu.
Marina também.
“Quem é?”, Ricardo perguntou.
“Marina Oliveira.”
Dante observou o primo.
“Nossa nova funcionária.”
Ricardo estendeu a mão.
“Prazer.”
Marina não tocou.
“Desculpe. Preciso voltar ao trabalho.”
Saiu.
Ricardo acompanhou-a com os olhos.
“Funcionária estranha.”
Dante não respondeu.
“Você me chamou por causa das contas da Faria Lima?”
“Não.”
“Então?”
Dante serviu-se de água.
“Você lembra da Casa Aurora?”
Ricardo demorou uma fração de segundo.
“Deveria?”
“Helena fazia trabalho voluntário lá.”
“Helena fazia caridade em metade de São Paulo.”
“Essa era diferente.”
Ricardo deu de ombros.
“Não lembro.”
Dante sustentou seu olhar.
“Engraçado.”
“O quê?”
“Todo mundo anda esquecendo demais.”
Ricardo sorriu.
“Talvez você esteja lembrando demais.”
Horas depois, Marina encontrou Sofia dormindo no sofá da copa.
Abaixou-se e ajeitou uma mecha do cabelo da filha.
Dante apareceu na porta.
“Ele reconheceu você.”
Marina não se virou.
“Não sei.”
“Você viu.”
“Vi alguma coisa.”
“Ricardo estava na casa na época?”
“Ele vivia entrando e saindo.”
Dante olhou para Sofia.
“Helena deixou mais alguma coisa?”
Marina demorou.
“Uma gravação.”
O rosto de Dante mudou.
“Você tem?”
“Não comigo.”
“Onde?”
“Ela me fez prometer que só entregaria se tivesse certeza de que era seguro.”
Dante soltou uma risada amarga.
“Oito anos não foram suficientes?”
Marina levantou.
“Você acha que o perigo acabou?”
“Não.”
Dante olhou na direção por onde Ricardo saíra.
“Agora eu acho que ele nunca foi embora.”
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