"A Menina Que Dançou Diante do Chefe da Máfia Paralisado" Capítulo 4 — A Foto Que Marina Escondeu
Dante não dormiu naquela noite.
Dessa vez, não foi por causa da perna.
Foi por causa de um nome.
Marina.
Helena o mencionara semanas antes de morrer.
Teresa lembrava pouco.
Ou dizia lembrar pouco.
“Ela estava nervosa”, explicou.
“Por quê?”
“Não contou.”
“Onde vocês estavam?”
“No closet.”
“Mais alguém ouviu?”
“Não.”
“Palavras exatas.”
Teresa pensou.
“Ela disse: ‘Preciso encontrar Marina antes que seja tarde demais.’”
“Só isso?”
“Depois o telefone tocou.”
“Quem ligou?”
“Não lembro.”
Dante a encarou.
“Todo mundo nesta casa anda esquecendo demais.”
Na manhã seguinte, Marina recebeu uma ordem.
Dante queria que ela servisse o café na varanda.
Ela entrou empurrando o carrinho.
Ele estava sozinho.
“Bom dia.”
“É?”
Marina ficou quieta.
Dante tomou café.
“Teresa se lembrou de você.”
A xícara na mão de Marina quase caiu.
“Como?”
“Helena falou seu nome antes de morrer.”
Marina desviou os olhos.
“Marina não é um nome raro.”
“Oliveira também não.”
Dante aproximou a cadeira.
“Mas coincidências estão começando a se acumular.”
“Não tenho nada para contar.”
“Tem.”
“Então por que não diz você?”
“Porque quero ouvir da sua boca.”
Marina empurrou o carrinho.
“Terminou?”
Dante deixou que ela saísse.
Por enquanto.
Naquela tarde, um carro branco entrou na propriedade.
Valentina Albuquerque desceu usando óculos escuros e um vestido que custava mais do que Marina ganharia em meses.
Ela conhecia Dante havia anos.
E, durante anos, esperara que o luto dele finalmente abrisse espaço para outra mulher.
Teresa a recebeu.
“Dante está ocupado.”
“Ele sempre está.”
Valentina tirou os óculos.
Então ouviu uma risada.
Infantil.
Seu rosto mudou.
Sofia atravessava o corredor com Lucas.
“Quem é essa menina?”
Teresa hesitou.
“Filha de uma funcionária.”
“Na casa principal?”
“Sofia.”
Dante apareceu no fim do corredor.
Valentina sorriu.
“Finalmente.”
Aproximou-se para beijá-lo no rosto.
Dante virou ligeiramente a cabeça.
Ela fingiu não perceber.
“Você está deixando crianças aqui agora?”
“Sofia está com a mãe.”
“Que trabalha aqui?”
“Sim.”
Valentina olhou para Marina, que acabara de entrar.
O uniforme cinza respondeu antes que alguém precisasse.
“Entendi.”
Marina reconheceu imediatamente o tipo de sorriso.
Já recebera muitos iguais.
Valentina aproximou-se.
“Você é nova.”
“Sim, senhora.”
“Não me chama de senhora. Parece que tenho cinquenta anos.”
Marina assentiu.
Sofia apareceu ao lado da mãe.
Valentina olhou para os pés dela.
Descalços outra vez.
“Isso aqui virou creche?”
Marina puxou Sofia para perto.
“Ela já estava indo para a copa.”
“Espero.”
Dante observava.
Valentina continuou:
“Funcionários confundem gentileza com intimidade muito rápido.”
Marina respirou fundo.
“Não estou confundindo nada.”
“Ótimo.”
Valentina sorriu.
“Empregada não vira família só porque trouxe uma criança engraçadinha.”
O corredor ficou em silêncio.
Sofia baixou os olhos.
Marina ficou vermelha.
“Valentina.”
A voz de Dante veio baixa.
Ela se virou.
“Sim?”
“Peça desculpas.”
O sorriso desapareceu.
“O quê?”
“Você ouviu.”
Valentina olhou para Marina.
“Dante, eu estava brincando.”
“Ela não riu.”
“Você está falando sério?”
“Peça desculpas.”
Bruno, parado perto da porta, permaneceu imóvel.
Teresa fingiu organizar flores.
Valentina percebeu que ninguém a salvaria.
“Desculpe.”
Dante continuou olhando.
“Para quem?”
Ela apertou a mandíbula.
“Marina, me desculpe.”
Sofia levantou o rosto.
Valentina saiu poucos minutos depois.
No carro, bateu a porta com força.
“Descubra quem é essa mulher”, ordenou ao motorista.
“Marina?”
“Ela e a filha.”
Na mansão, Marina entrou no escritório sem bater.
Dante ergueu os olhos.
“Você está criando problemas.”
“Valentina cria os próprios problemas.”
“Eu não precisava que me defendesse.”
“Eu não defendi você.”
Marina ficou surpresa.
“Ela falou com Sofia.”
“E?”
“Eu não tolero adulto humilhando criança na minha casa.”
Marina olhou para ele por alguns segundos.
Era a primeira vez que via algo em Dante que não parecia ameaça.
“Obrigada.”
Ele voltou aos documentos.
“Não se acostume.”
Naquela noite, Marina tomou sua decisão.
Precisava sair.
Dante estava perto demais.
Teresa lembrava.
Bruno investigava.
Valentina agora também faria perguntas.
Ela abriu a mala.
Colocou roupas de Sofia.
Depois as próprias.
No fundo do armário havia uma bolsa velha.
Marina puxou-a.
A alça rompeu.
O conteúdo caiu no chão.
Moedas.
Um terço.
Documentos antigos.
E uma fotografia.
Marina se abaixou rapidamente.
Tarde demais.
Sofia apareceu na porta.
“Mãe, quem é ela?”
Marina pegou a foto.
“Ninguém.”
“É a Helena?”
Marina ficou imóvel.
Sofia havia visto o suficiente.
Na fotografia, duas mulheres jovens estavam lado a lado.
Uma era Marina.
A outra era Helena Montenegro.
Grávida.
Sorrindo.
“Por que você falou que não conhecia?”
Marina fechou os olhos.
“Sofia, arruma sua mochila.”
“Mas…”
“Agora.”
Alguém bateu à porta.
Marina escondeu a fotografia.
Bruno entrou.
“Dante quer falar com você.”
“Diz que estou indo embora.”
“Ele sabe.”
Marina gelou.
“Como?”
Bruno olhou para a mala aberta.
“Esta casa tem câmeras.”
Minutos depois, Marina atravessou o corredor em direção ao escritório.
A fotografia estava escondida no bolso do uniforme.
Dante esperava atrás da mesa.
“Você quer ir embora.”
“Quero.”
“Por quê?”
“Porque isso não está funcionando.”
“Para quem?”
“Para mim.”
Dante observou o bolso do avental.
Uma ponta branca aparecia.
“Você está escondendo alguma coisa.”
Marina levou a mão ao bolso.
Erro.
Dante percebeu.
“Me mostra.”
“Não.”
Ele aproximou a cadeira.
“Marina.”
“É pessoal.”
“Tudo sobre você virou pessoal quando descobri que minha esposa dizia seu nome antes de morrer.”
Marina recuou.
A fotografia escorregou.
Caiu no chão.
Os dois olharam.
Marina tentou pegar.
Dante foi mais rápido.
Abaixou-se e puxou a foto.
O mundo pareceu parar.
Helena.
Viva.
Grávida.
Com um braço em volta de Marina.
Dante virou a fotografia.
No verso, reconheceu a letra imediatamente.
Para Marina.
Obrigada por não desistir de mim.
Com amor, Helena.
A mão de Dante começou a tremer.
Marina ficou em silêncio.
Ele levantou os olhos lentamente.
Toda a frieza havia desaparecido.
No lugar dela havia algo muito mais perigoso.
Dor.
“Você mentiu para mim.”
Marina não respondeu.
“Olhou na minha cara e disse que nunca conheceu minha esposa.”
“Dante…”
“Não fala meu nome.”
Ele colocou a foto sobre a mesa.
“Quem era você para Helena?”
Marina apertou os olhos.
“Eu não posso contar.”
“Pode.”
“Você não entende.”
“Então me faça entender.”
Ela ficou calada.
Dante bateu a mão na mesa.
“Minha mulher morreu grávida numa estrada enquanto alguém armava uma emboscada contra nós!”
Marina se assustou.
“E oito anos depois você entra na minha casa com uma fotografia dela escondida no bolso e uma filha que tem os olhos dela.”
“Não coloque Sofia nisso.”
“Ela já está nisso.”
“Não!”
Marina avançou um passo.
Pela primeira vez, enfrentou Dante sem baixar os olhos.
“Minha filha não tem culpa de nada que aconteceu naquela época.”
Dante percebeu outra vez.
Naquela época.
Ela sabia.
“Então aconteceu alguma coisa.”
Marina fechou a boca.
Dante respirava pesado.
“Quem era você para minha esposa?”
Os olhos de Marina ficaram úmidos.
“Alguém que deveria ter feito mais.”
“Mais o quê?”
Ela olhou para a fotografia.
Quando falou, sua voz quase desapareceu.
“Ter impedido Helena de entrar naquele carro.”
Dante parou.
O silêncio do escritório se tornou absoluto.
“Que carro?”
Marina fechou os olhos.
Tarde demais.
Dante aproximou a cadeira.
“Marina.”
Ela abriu os olhos.
“Você sabia que Helena corria perigo antes da emboscada?”
Uma lágrima escorreu pelo rosto dela.
Dante não piscou.
“Responde.”
Marina olhou para a porta, como se ainda pudesse fugir.
Então voltou os olhos para ele.
“Sim.”
Uma única palavra.
Suficiente para destruir oito anos de certezas.
Dante ficou branco.
“Você sabia?”
Marina assentiu.
“E nunca me procurou?”
“Eu não podia.”
“Por quê?”
Ela demorou vários segundos.
Quando finalmente respondeu, sua voz tremia.
“Porque a pessoa de quem Helena tinha medo…”
Marina olhou para o corredor.
“…estava dentro da sua própria casa.”
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