"A Menina Que Dançou Diante do Chefe da Máfia Paralisado" Capítulo 2 — A Música Que Fez Seu Pé Se Mover
Às seis da manhã, Dante ainda não havia dormido.
Passara a madrugada tentando reproduzir a sensação.
Pressionara o joelho.
Aplicara gelo no tornozelo.
Tentara mover os dedos.
Nada.
Às três e vinte, reproduzira a música.
Um formigamento quase imperceptível surgira.
Às três e vinte e sete, assistira ao vídeo de Sofia.
O formigamento voltara.
Às sete, Dr. Henrique Sampaio entrou pela garagem privativa.
“Você sabe que eu tenho consultório?”
“Hoje não.”
Henrique colocou a maleta sobre a mesa.
Era o médico particular de Dante havia seis anos e uma das poucas pessoas que ousavam contrariá-lo.
“Bruno disse que era urgente.”
“Meu pé se mexeu.”
Henrique parou.
“Repete.”
“Ontem.”
“Movimento voluntário?”
“Não.”
“Sensação?”
“Primeiro sensação. Depois contração.”
Henrique puxou uma cadeira.
“Quando?”
“No jardim.”
O médico olhou para ele.
“Você entrou no jardim?”
“Isso importa?”
“Considerando que você trata aquele lugar como um mausoléu, talvez.”
Dante lançou um olhar impaciente.
Henrique abriu a maleta.
O exame durou quase uma hora.
Reflexos.
Sensibilidade.
Temperatura.
Resposta muscular.
Na maior parte, nada.
Então Henrique aplicou um estímulo no pé direito.
Dante franziu a testa.
“De novo.”
Henrique repetiu.
“Sentiu?”
“Pouco.”
O médico se afastou.
“Isso não existia no último exame.”
“Então os outros estavam errados.”
“Não necessariamente.”
“Noventa e nove médicos disseram que não havia volta.”
“E talvez não houvesse antes.”
Dante abriu o notebook.
Mostrou o vídeo.
Henrique assistiu Sofia dançando.
“É isso?”
“Olhe para o pé.”
Dante reproduziu a música.
Nada.
Na tela, Sofia começou a girar.
O músculo junto ao tornozelo contraiu.
Henrique se inclinou.
“Repete.”
Aconteceu outra vez.
Henrique ficou sério.
“Pode ser uma resposta neurológica associativa.”
“Fala como gente.”
“Seu cérebro pode estar respondendo a uma combinação de estímulos emocionais e sensoriais.”
“A uma criança dançando?”
“Talvez não seja a criança.”
Dante olhou para a tela.
“Talvez seja.”
Na copa, Marina preparava café quando Teresa entrou.
“Você vai ficar.”
“Parece que sim.”
“Então aprenda outra regra.”
Marina soltou um suspiro.
“Mais uma?”
“Não tente entender Dante.”
“Não pretendo.”
Teresa observou seu rosto.
“Você conhecia Helena?”
A colher parou.
“Não.”
Rápido demais.
Teresa percebeu.
“Eu trabalhei para ela desde antes do casamento.”
“Eu disse que não conhecia.”
“E eu ouvi.”
Marina pegou a bandeja e saiu.
Encontrou Sofia no corredor.
“Você deveria estar tomando café.”
“Já tomei.”
“Tudo?”
“Quase.”
“Sofia.”
“Tem um médico com o seu Dante.”
“Ele não é ‘seu Dante’.”
“Ele está doente?”
“Não é problema nosso.”
“É por causa da perna?”
Marina se abaixou.
“Você não vai mais chegar perto dele.”
“Mas ele pediu para eu dançar.”
“Não importa.”
“Ele gostou.”
“Não importa.”
Sofia fez uma careta.
“Você fala ‘não importa’ quando importa.”
Marina respirou fundo.
“Copa. Agora.”
Sofia saiu.
Ou deveria ter saído.
Pouco depois, parou diante das portas do jardim.
Dante estava sozinho na varanda.
Ele a viu pelo reflexo do vidro.
“Vai ficar me espionando?”
Sofia abriu a porta apenas o suficiente para colocar a cabeça.
“Minha mãe falou para eu não chegar perto.”
“Então sua mãe vai ficar orgulhosa.”
Ela não entendeu a ironia.
“Seu pé ainda está dormindo?”
Dante virou a cadeira.
“Quem contou?”
“Eu ouvi.”
“Você ouve demais.”
“Minha mãe fala isso.”
Ela permaneceu longe.
“Posso perguntar uma coisa?”
“Você vai perguntar de qualquer jeito.”
“Você nunca levanta?”
Na boca de qualquer adulto, a pergunta seria ofensiva.
Na dela, era apenas curiosidade.
“Não.”
“Dói?”
“Não sinto.”
Sofia olhou para as próprias pernas.
“Isso é pior?”
Dante demorou.
“Às vezes.”
Ela sentou na grama.
“Quando eu quebrei o braço, minha mãe cantava.”
“Eu não preciso que ninguém cante.”
“Ainda bem. Eu canto mal.”
Dante quase riu.
Sofia apontou.
“Você quase riu.”
“Não.”
“Quase.”
“Não.”
“Eu vi.”
A porta se abriu.
“Sofia!”
Marina atravessou a varanda.
“Eu falei para não chegar perto.”
“Eu fiquei longe.”
“Agora.”
Dante interrompeu:
“Marina.”
Ela parou.
“Sim?”
“Entre.”
Sofia ficou do lado de fora.
Dante apontou para uma cadeira.
“Sente.”
“Prefiro ficar.”
“Como quiser.”
Ele foi direto.
“Você conhecia Helena.”
Marina ficou imóvel.
“Não.”
“Ontem você mandou sua filha nunca perguntar sobre ela.”
“Ouvi funcionários falando.”
“Quais?”
“Não lembro.”
Dante aproximou a cadeira de rodas.
“Bruno está investigando você.”
Marina empalideceu.
“Por quê?”
“Porque você tem seis meses praticamente apagados da sua vida.”
O coração dela acelerou.
“Eu era pobre. Pessoas pobres não deixam arquivo bonito.”
“Não quero bonito.”
Dante apontou para Sofia através do vidro.
“Quero verdade.”
“Minha filha não tem nada a ver com sua família.”
Silêncio.
Dante estreitou os olhos.
“Eu não perguntei isso.”
Marina percebeu o erro.
Tarde demais.
“Por que disse ‘minha família’?”
“Porque é isso que está insinuando.”
“Eu ainda não insinuei nada.”
Marina perdeu a paciência.
“Então o que você quer?”
“Que você pare de ter medo toda vez que alguém fala o nome da minha esposa.”
Ela respirou fundo.
“Eu não conheci Helena Montenegro.”
Dante ficou alguns segundos olhando para ela.
Depois abriu passagem.
“Pode ir.”
Marina quase não acreditou.
Saiu.
No corredor, pegou Sofia pela mão.
“Vamos.”
“Para onde?”
“Arrumar nossas coisas.”
“Mãe…”
“Agora.”
Marina sabia que precisava sair antes que Bruno descobrisse mais.
Naquela tarde, colocou as roupas numa mala.
Mas, quando abriu a porta do alojamento, Bruno estava do outro lado.
“Senhora Oliveira.”
Marina apertou a alça.
“Eu pedi demissão.”
“Dante não aceitou.”
“Ele não pode me obrigar a trabalhar.”
“Não.”
Bruno abriu espaço.
“Mas acho melhor conversar com ele antes de sair.”
Marina encontrou Dante no escritório.
Sobre a mesa havia uma folha.
Um endereço.
Um nome.
Uma data.
Dante tocou o papel.
“Hospital Municipal de Santos.”
Marina sentiu o estômago afundar.
“O que tem?”
“Você esteve lá oito anos atrás.”
Ela não respondeu.
“Três dias depois da morte de Helena.”
Marina apertou a mala.
Dante ergueu os olhos.
“Agora vou perguntar uma última vez.”
O silêncio ficou pesado.
“Você conhecia minha esposa?”
Marina sustentou o olhar.
“Não.”
Dante recostou-se.
“Então amanhã eu mando Bruno buscar as imagens e os registros originais.”
A respiração dela falhou.
Dante percebeu.
Marina virou-se para sair.
“Sofia fica.”
Ela se virou rapidamente.
“Minha filha vai comigo.”
“Então fique também.”
“Você está me ameaçando?”
“Estou dando uma oportunidade para parar de mentir.”
Marina saiu sem responder.
Naquela noite, Sofia acordou e encontrou a mãe sentada na beira da cama.
Marina segurava uma fotografia antiga.
Sofia tentou enxergar.
“Quem é?”
Marina virou a foto para baixo.
“Ninguém.”
Mas, no verso amarelado, havia duas palavras escritas à mão.
Para Marina.
E, abaixo delas:
Com amor, Helena.
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