"A Menina Que Dançou Diante do Chefe da Máfia Paralisado" Capítulo 1 — A Menina no Jardim Proibido
Na mansão Montenegro, no Jardim Europa, existiam regras que ninguém precisava ouvir duas vezes.
Não entrar no escritório de Dante sem ser chamado.
Não tocar nos carros da garagem subterrânea.
Não fazer perguntas sobre a ala oeste.
E, acima de todas as outras, jamais atravessar as portas de vidro que davam para o jardim dos fundos.
Marina Oliveira aprendeu essa última regra às oito e quinze da manhã de seu primeiro dia de trabalho.
Teresa Nogueira, a governanta, apontou para as enormes portas fechadas enquanto entregava a Marina um avental cinza.
“Aquele jardim não existe para você.”
Marina franziu a testa.
“Como assim?”
“Você não entra. Não abre a porta. Não limpa a varanda. Se alguma coisa cair lá dentro, deixa onde caiu.”
Teresa tinha cinquenta e oito anos e um jeito de falar que transformava conselho em ordem.
Marina assentiu.
“Entendi.”
“Espero que sim.”
Uma voz infantil surgiu atrás delas.
“Mãe, posso tirar o tênis?”
Sofia Oliveira apareceu no corredor com uma mochila pequena nas costas.
Tinha nove anos, cabelos castanhos presos num rabo de cavalo torto e dois joelhos marcados por arranhões antigos.
Marina fechou os olhos.
“Sofia…”
“Está machucando meu calcanhar.”
Marina não deveria ter levado a filha.
Sabia disso.
Mas a vizinha que ficaria com Sofia cancelara naquela manhã.
Perder aquele emprego não era uma opção.
O aluguel estava atrasado.
A conta de luz venceria na segunda-feira.
E havia quarenta e três reais em sua carteira.
Teresa observou a menina.
“Ela fica na copa dos funcionários.”
“Vai ficar.”
“Quietinha?”
Marina lançou um olhar para Sofia.
“Quietinha.”
Sofia sorriu.
Teresa não.
“Principalmente longe daquele jardim.”
Duas horas depois, Sofia já havia desenhado três casas, comido pão de queijo, contado os azulejos da copa e decidido que ficar quietinha era uma forma sofisticada de tortura.
Foi quando Lucas Ferreira apareceu.
Tinha doze anos e era filho de uma funcionária da lavanderia.
“Quer ver uma coisa?”
Sofia levantou a cabeça.
“Depende.”
“O jardim proibido.”
Ela olhou para o corredor.
“Minha mãe falou que não.”
“Então não vai.”
Lucas começou a sair.
Sofia levantou imediatamente.
“Eu só vou olhar.”
A porta de vidro não estava completamente fechada.
Havia uma abertura estreita.
Lucas parou.
“Eu nunca entrei.”
“Então por que me trouxe?”
“Para olhar.”
Sofia passou pela abertura.
Descalça.
“Sofia!”
A menina pisou na grama.
O sol da manhã iluminava roseiras perfeitamente aparadas. Uma fonte de mármore despejava água num tanque cristalino. Havia uma varanda branca, árvores antigas e nenhuma cadeira fora do lugar.
Era lindo.
E completamente silencioso.
Sofia olhou ao redor.
“Parece triste.”
“É um jardim.”
“Jardim também pode ficar triste.”
Lucas cruzou os braços.
“Você é estranha.”
Sofia abriu a mochila.
Tirou uma pequena caixa de som rachada.
Lucas arregalou os olhos.
“Nem pensa.”
“Uma música.”
“Você quer que minha mãe fique desempregada também?”
Sofia apertou o botão.
Uma música alegre escapou pelo alto-falante.
Lucas empalideceu.
“Desliga!”
Mas Sofia já estava dançando.
Não era balé.
Não era bonito.
Ela girou rápido demais, escorregou, recuperou o equilíbrio e fez uma reverência exagerada.
Depois fingiu tocar guitarra.
Lucas olhava para as janelas.
“Você enlouqueceu.”
Sofia girou novamente.
Dessa vez, ouviu uma voz.
“Quem deixou essa menina entrar aqui?”
A música continuou por mais dois segundos.
Sofia parou.
Lucas ficou imóvel.
Na varanda, um homem estava sentado numa cadeira de rodas preta.
Dante Montenegro.
Terno escuro.
Camisa preta.
Olhar que parecia esfriar o ar ao redor.
Atrás dele estava Bruno Almeida, seu chefe de segurança.
Lucas sussurrou:
“É ele.”
Sofia não respondeu.
“Dante Montenegro.”
Ela continuou olhando.
Aos trinta e oito anos, Dante controlava empresas de segurança, logística e construção.
Mas ninguém em São Paulo acreditava que seu poder terminasse onde começavam os contratos legais.
Homens perigosos baixavam a voz quando diziam seu nome.
Oito anos antes, uma emboscada na Serra do Mar matara Helena Montenegro, sua esposa grávida.
Dante sobrevivera.
Sua coluna, não.
Desde então, aquele jardim permanecia fechado.
Helena tomava café ali todas as manhãs.
Depois da morte dela, Dante proibira música, festas e crianças na casa principal.
Especialmente crianças.
Agora havia uma menina descalça dançando no lugar que ninguém ousava atravessar.
“Desliga isso”, Dante ordenou.
Sofia apertou o botão.
Silêncio.
Bruno avançou.
“Vou tirar os dois daqui.”
“Não.”
Bruno parou.
Dante olhou para Sofia.
“Qual é o seu nome?”
“Sofia.”
“Quem é sua mãe?”
Antes que ela respondesse, uma porta bateu.
“Sofia!”
Marina surgiu correndo com um pano ainda na mão.
Quando viu Dante, perdeu a cor.
Puxou a filha para trás do corpo.
“Senhor Montenegro, me desculpe.”
Dante não respondeu.
“Ela não sabia. Foi culpa minha. Eu não devia ter trazido minha filha.”
“Ela sabia que era proibido?”
Marina abriu a boca.
Sofia respondeu:
“Depois eu soube.”
“Sofia!”
Dante manteve os olhos nela.
“E continuou?”
A menina olhou para as roseiras.
“Porque estava triste.”
Dante franziu a testa.
“O quê?”
“O jardim.”
Bruno desviou o olhar.
Marina apertou o ombro da filha.
“Ela fala demais quando está nervosa.”
“Minha mãe também”, Sofia disse.
“Sofia!”
Dante quase reagiu.
Quase.
O canto de sua boca se moveu tão pouco que Bruno não teria certeza depois se realmente vira.
Sofia apontou para a caixa de som.
“Posso pegar?”
E foi naquele instante que aconteceu.
Um choque atravessou o pé direito de Dante.
Sua mão fechou sobre o braço da cadeira.
Não era dor.
Era sensação.
Uma corrente fina correu do dedão ao tornozelo.
Dante parou de respirar.
Oito anos.
Oito anos sem sentir aquilo.
“Dante?”
Bruno percebeu.
O choque desapareceu.
Dante tentou mover o pé.
Nada.
Marina observou, assustada.
“Senhor Montenegro?”
Ele levantou os olhos.
“O que estava tocando?”
Sofia apontou para a caixa.
“A música?”
“Liga.”
Marina piscou.
“Senhor?”
“Liga de novo.”
Sofia pegou o aparelho.
A música voltou.
Ela permaneceu parada.
Dante esperou.
Nada.
Seu rosto endureceu.
Então olhou para Sofia.
“Você estava dançando antes.”
A menina abriu um sorriso.
“Quer que eu dance?”
Marina quase engasgou.
Dante respondeu:
“Dance.”
Sofia deu um passo.
Depois outro.
Girou.
O formigamento voltou.
Dante congelou.
Ela girou novamente.
Um músculo junto ao tornozelo dele contraiu.
Bruno viu.
“Meu Deus…”
Marina olhou para a perna de Dante.
“O que aconteceu?”
“Nada.”
Mas Dante sabia que era mentira.
Sofia continuou até a música terminar.
Fez outra reverência.
Dante olhou para o próprio pé.
Noventa e nove médicos.
Boston.
São Paulo.
Zurique.
Clínicas experimentais.
Todos haviam chegado à mesma conclusão.
Não havia caminho de volta.
Agora uma menina descalça entrara num jardim proibido, apertara um botão e fizera seu corpo responder.
Dante levantou os olhos.
“Vocês não vão embora.”
Marina ficou rígida.
“Eu posso procurar outro emprego.”
“Não foi um pedido.”
“Senhor Montenegro…”
“Teresa vai preparar um quarto para vocês na ala dos funcionários.”
Sofia sorriu.
Marina não.
Naquela noite, Dante entrou sozinho no escritório.
Abriu as gravações das câmeras.
Encontrou o jardim.
Voltou o vídeo.
Assistiu Sofia dançar.
Uma vez.
Duas.
Cinco.
Na sexta, pausou quando ela virou o rosto.
Ampliou.
Os olhos da menina eram castanho-mel.
Pequenos reflexos dourados apareciam perto das pupilas.
O peito de Dante apertou.
Helena.
Ela tinha aqueles olhos.
Pegou o celular.
Bruno atendeu.
“Sim?”
“Quero tudo sobre Marina Oliveira.”
“Tudo?”
“Dez anos.”
Dante continuou olhando para Sofia.
“Família, trabalho, hospitais, endereços. Tudo.”
“Por causa da menina?”
“Por causa da mãe.”
Desligou.
Na ala dos funcionários, Marina fechava a porta quando Sofia perguntou:
“Mãe?”
“Hum?”
“Quem era Helena?”
Marina congelou.
“Por quê?”
“Quando falaram dela, você ficou estranha.”
Marina se ajoelhou.
Segurou o rosto da filha.
“Escuta bem.”
Sua voz saiu quase num sussurro.
“Nunca pergunte sobre Helena Montenegro nesta casa.”
“Mas por quê?”
Marina olhou para o corredor.
“Porque algumas perguntas fazem gente perigosa procurar respostas.”
Ela não percebeu a sombra parada além da porta entreaberta.
Dante Montenegro tinha ouvido tudo.
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