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"Eles Acharam Que Era o Espírito de Uma Menina. Então o Pai Começou a Aparecer Ferido." Capítulo 5 — Ela Tinha o Rosto de Deborah

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Capítulo 5 — Ela Tinha o Rosto de Deborah

Tony voltou do trabalho pela manhã e foi até a cozinha buscar um copo de suco.

Segundo seu relato, ao se virar, encontrou uma menina na entrada do porão.

Ela vestia uma roupa branca de aparência antiga. Mais tarde, ele compararia o traje ao que uma criança poderia usar para ir à igreja no século anterior.

A menina o observava.

Parecia assustada.

Por um instante, Tony permaneceu imóvel.

A visão correspondia à figura da qual tantas pessoas já haviam falado. Uma criança dentro da casa. Talvez Sallie. Talvez a presença que Deborah havia passado a imaginar como alguém em busca de acolhimento.

O detalhe que rompeu aquela imobilidade foi a transparência.

Tony afirmou perceber que conseguia enxergar parcialmente através dela.

Deixou cair o copo e correu para o andar de cima, procurando Deborah.

Na narrativa que apresentou depois, o encontro não aconteceu durante uma investigação organizada, diante de um grupo esperando registrar fenômenos. Ocorreu no meio de uma ação banal, depois de um turno de trabalho.

Ele buscava uma bebida.

Encontrou uma figura no caminho do porão.

Essa banalidade ajudava a explicar por que a lembrança permaneceu tão forte. Não havia um ritual anunciado nem uma sequência que o preparasse para ver alguém. A presença estava simplesmente onde, segundos antes, ele esperaria encontrar apenas uma passagem.

Mais tarde, Tony desenhou a menina.

O desenho oferecia uma imagem que podia ser mostrada a outras pessoas. Ainda dependia de sua memória, mas já não era apenas uma descrição feita com palavras.

Segundo o material, uma pessoa que havia morado na casa durante a infância reconheceu na imagem a figura de uma antiga amiga imaginária.

Ela a chamava de Sallie.

A associação era perturbadora para quem acompanhava os relatos. Duas pessoas, em momentos diferentes, pareciam descrever uma menina semelhante ligada ao mesmo imóvel.

Isso não resolvia a identidade da figura.

Mas ampliava a história.

Tony já não era apenas um homem ouvindo passos na escada. Dizia ter visto alguém. E outra pessoa atribuía um nome conhecido à imagem que ele havia produzido.

Enquanto essas associações surgiam, as marcas no corpo dele se tornavam parte cada vez mais importante das experiências.

Tony relatou arranhões vermelhos e, em algumas ocasiões, profundos o suficiente para sangrar. Certos episódios vinham com uma dor aguda. Em outros, ele percebia os sinais depois, sem conseguir identificar o instante em que haviam surgido.

Essa imprevisibilidade era um problema diferente do medo de um cômodo específico.

Uma porta podia ser evitada.

Uma escada podia ser atravessada com outra pessoa por perto.

O próprio corpo não podia ser deixado em outro lugar.

Se Tony acreditava que as marcas eram causadas por uma presença, então a distância física dentro da casa parecia oferecer pouca proteção. Ele podia estar realizando uma tarefa, descansando ou conversando quando notava uma nova alteração na pele.

A figura infantil permanecia no centro das interpretações.

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Mas outras imagens começaram a aparecer em seus relatos.

Em algumas ocasiões, Tony pensava ter visto Deborah passando pelo corredor.

Reconhecia o rosto da esposa.

O restante, porém, não correspondia ao que esperava encontrar.

A mulher usava uma roupa antiga de empregada doméstica e tinha o cabelo preso em um coque. A combinação tornava o reconhecimento desconfortável: o rosto era familiar, mas a aparência parecia pertencer a outra época.

Tony dizia segui-la até um cômodo.

Então, não encontrava ninguém.

Esses episódios não eram iguais ao encontro com a menina no porão. A primeira figura tinha uma identidade sugerida pelos médiuns e pelo desenho. A segunda parecia usar a aparência de alguém que já fazia parte da vida dele.

Deborah.

O rosto da pessoa que ele procuraria quando estivesse com medo.

Essa diferença tornava a dúvida mais íntima.

Se ele podia reconhecer a esposa no corredor e, segundos depois, não encontrá-la, a casa deixava de ser apenas um lugar onde um estranho poderia aparecer. Passava a ser um ambiente em que até a familiaridade precisava ser questionada.

Tony não tinha como saber se estava descrevendo aparições diferentes, percepções equivocadas ou experiências relacionadas por uma causa que ainda não compreendia.

A hipótese de uma única presença capaz de assumir outras formas surgia justamente dessa dificuldade.

Uma menina parecia despertar compaixão.

Uma mulher com o rosto de Deborah poderia provocar confiança.

A possibilidade de essas aparências funcionarem como disfarces era uma interpretação assustadora, mas não uma conclusão demonstrada.

Ainda assim, para Tony, a pergunta se tornava inevitável.

Por que os rostos vistos naquela casa pareciam oferecer familiaridade, enquanto suas experiências produziam tanto desconforto?

O problema era agravado pela diferença entre ele e Deborah.

A esposa não vivia todas as ocorrências que Tony relatava. Podia acreditar nele e, ao mesmo tempo, continuar associando a presença à menina descrita pelos médiuns.

Ele, por sua vez, estava começando a reunir a criança, os arranhões e a mulher do corredor em uma história cada vez menos inocente.

Não precisava ter certeza sobre a origem de cada episódio para perceber o efeito acumulado.

A casa estava mudando a maneira como descansava.

A maneira como circulava.

A maneira como olhava para uma porta aberta.

O porão, especialmente, provocava resistência. Tony dizia evitá-lo sempre que possível. O encontro com a menina na entrada desse espaço acrescentava uma lembrança concreta a um desconforto que ele já sentia.

O andar de cima também não oferecia um refúgio completo.

Na cama, começou a ouvir sons nas paredes.

Descrevia arranhados e uma espécie de conversa abafada. A impressão era de várias pessoas falando dentro da estrutura, talvez seis ou sete, mas as palavras não ficavam claras.

A falta de compreensão não diminuía o incômodo.

Uma frase compreensível ao menos permitiria saber o que estava sendo dito. Aquele murmúrio permanecia no limite entre som e linguagem, perto o suficiente para sugerir vozes, distante o suficiente para impedir uma resposta.

Tony estava deitado em um quarto da própria casa.

As paredes que deveriam separá-lo do restante do mundo pareciam esconder outras pessoas.

Do lado de fora, nada precisava ter mudado.

O endereço continuava o mesmo.

Para quem passasse pela rua, havia apenas uma residência em Atchison.

Dentro dela, Tony já havia descrito uma menina transparente, uma mulher com o rosto da esposa, marcas na pele e vozes que não conseguia entender.

A noite deixara de ser apenas o momento em que os ruídos se tornavam mais fáceis de ouvir.

Estava se tornando o momento em que ele menos confiava no que poderia aparecer diante da cama.

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