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"Eles Acharam Que Era o Espírito de Uma Menina. Então o Pai Começou a Aparecer Ferido." Capítulo 2 — Passos na Escada, Ninguém à Vista

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Capítulo 2 — Passos na Escada, Ninguém à Vista

Durante algum tempo, Tony acreditou que os passos fossem dos gatos.

Era a explicação mais simples.

À noite, ouvia uma corrida pela escada. O som subia, descia e voltava a se repetir. Animais domésticos podem transformar uma casa silenciosa em uma sequência de ruídos surpreendentemente altos, especialmente quando todos os outros moradores tentam dormir.

Depois do episódio dos brinquedos, porém, a simplicidade daquela explicação já não bastava para encerrar o assunto.

O quarto infantil continuava associado a acontecimentos que a família não conseguia esclarecer. As luzes e as correntes dos ventiladores permaneciam na memória do casal. Cada ruído novo era ouvido dentro desse contexto.

Tony ainda tentava separar as coisas.

Uma ocorrência estranha não precisava explicar todas as outras. O fato de não saber quem havia colocado os brinquedos no chão não significava que os gatos tivessem deixado de correr pela casa.

Por isso, em uma noite em que os passos voltaram a interromper seu descanso, ele foi até a escada para encontrar os animais.

Pretendia resolver um problema doméstico.

Não encontrou nenhum gato.

Segundo contou, parou diante do vão escuro e ouviu a corrida continuar. O som parecia se aproximar de onde ele estava, como se alguém estivesse subindo em sua direção.

Não havia um corpo visível acompanhando os passos.

Tony descreveu uma sensação de frio atravessando o próprio corpo.

Em seguida, ouviu uma risada infantil.

A sequência era curta, mas continha elementos difíceis de acomodar na explicação que o levara até ali. Ele havia procurado gatos. Em vez deles, dizia ter ouvido passos se aproximarem, sentido um frio súbito e escutado crianças rindo.

A escada passou a ocupar um lugar diferente dentro da casa.

Antes, ligava um andar ao outro.

Agora, também era o caminho de algo que Tony afirmava ouvir sem conseguir enxergar.

O problema desses encontros estava no que restava depois.

Quando um barulho terminava, não havia necessariamente um objeto quebrado ou uma marca indicando sua origem. A escada podia parecer perfeitamente normal. Quem chegasse alguns minutos mais tarde encontraria apenas degraus, paredes e silêncio.

Tony ficava com a experiência.

Deborah precisava entender o que o marido lhe contava.

Essa distância entre presenciar e ouvir um relato começou a acompanhar o casal. Eles moravam no mesmo endereço, mas nem sempre viviam os mesmos acontecimentos.

Em outra ocasião, Tony estava descansando durante a tarde quando se ergueu repentinamente, olhou para Deborah e disse:

— Ele é meu.

Depois, voltou a se deitar.

Deborah interpretou aquilo, naquele momento, como parte de um sonho. Uma frase pronunciada entre o sono e a vigília não era suficiente para justificar uma conclusão mais grave.

O episódio só ganharia outro peso quando fosse lembrado ao lado do que aconteceu depois.

Essa era uma das dificuldades da vida na North Second Street. Certos detalhes pareciam pequenos quando surgiam. Mais tarde, reunidos, formavam uma história que nenhum dos dois sabia exatamente quando havia começado.

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As fotografias da família também entraram nessa história.

Segundo o casal, algumas imagens penduradas junto à escada foram encontradas de cabeça para baixo. O vidro de uma delas estava rachado.

Uma fotografia invertida exigia uma ação ou uma causa. Não produzia a mesma dúvida de um estalo na madeira. Alguém podia mexer em um quadro e esquecer, mas a família não reconhecia aquela mudança como sua.

O vidro quebrado acrescentava outra pergunta.

Mesmo quando os objetos não desapareciam, pareciam deixar de obedecer à organização dos moradores.

Havia ainda as velas.

Tony e Deborah relataram encontrar cera derretida em situações nas quais não esperavam que tivesse ocorrido aquecimento. Um dos exemplos mais perturbadores envolvia uma vela ainda envolvida em plástico.

O material que a cobria também havia sido afetado.

O pavio, porém, não apresentava sinais de ter queimado.

Esse detalhe era importante para eles. Uma vela usada normalmente deixa uma indicação visível no lugar onde a chama se manteve. Naquela, a deformação parecia estar na cera, sem o sinal correspondente no pavio.

Em outra observação, disseram distinguir uma marca semelhante à de uma pequena mão.

A imagem era sugestiva.

Uma mão pequena remetia a uma criança. A risada na escada também. Os brinquedos no quarto do bebê podiam ser encaixados na mesma interpretação.

Ainda assim, reconhecer uma semelhança não era o mesmo que descobrir uma origem.

A marca não vinha acompanhada de um nome.

A risada não dizia quem estava rindo.

Os brinquedos não revelavam quem os tocara.

Aos poucos, o casal passou a procurar ajuda fora de casa. O que havia começado como uma sequência de incômodos particulares precisava ser apresentado a outras pessoas.

Isso exigia contar acontecimentos que, ouvidos separadamente, poderiam parecer exagerados.

Uma luz oscilando não impressionava muito.

Um bebê chorando também não.

Mas havia os brinquedos, os passos, as fotografias e a cera. A soma desses elementos era o que fazia os Pickman insistirem que alguma coisa precisava ser examinada.

A procura acabaria levando o caso ao programa de televisão

Sightings

.

Para Deborah, a chegada de investigadores representava a possibilidade de descobrir o que estava acontecendo. Para Tony, trazia também o desconforto de transformar sua vida doméstica em um assunto observado por estranhos.

Ele não queria ser conhecido como o homem que vivia aquelas experiências.

Nas primeiras investigações, a identidade da família foi preservada. Tony, em especial, tinha resistência à exposição.

Havia uma diferença entre pedir ajuda e permitir que um público inteiro associasse seu nome a uma casa supostamente assombrada.

Mas o silêncio também não havia resolvido nada.

Enquanto os contatos eram feitos, a família continuava morando ali. O bebê ainda precisava de cuidados. Tony ainda precisava trabalhar e descansar. Deborah ainda precisava circular pelos cômodos em que os objetos pareciam mudar de posição.

A casa não interrompia a vida cotidiana para anunciar um acontecimento.

As ocorrências entravam no meio dela.

Um quadro visto ao passar pela escada. Uma vela encontrada durante uma tarefa comum. Um som que começava quando alguém tentava dormir.

Essa mistura tornava difícil estabelecer uma fronteira. Não existia um horário a partir do qual a casa deixasse de ser segura, nem um sinal que permitisse prever o próximo episódio.

Quando os investigadores chegaram, encontraram uma família que já havia aprendido a prestar atenção em detalhes que antes ignorava.

Em breve, porém, a preocupação deixaria de estar concentrada em sons e objetos fora do lugar.

Os Pickman começariam a falar de fogo.

E Tony passaria a imaginar o que poderia acontecer se uma chama surgisse perto do berço.

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