"A Menina no Quarto Proibido" Capítulo 5 — Onze Minutos Apagados
Dante leu a assinatura três vezes.
Marcelo Ferraz.
O nome estava no relatório de manutenção do sistema de segurança, datado de três anos antes.
A câmera da garagem havia sido desligada às 19h42.
Voltado às 19h53.
Onze minutos.
Na manhã anterior, a câmera da cozinha também ficara apagada por onze minutos.
Bruno permaneceu de pé diante da escrivaninha.
“Pode ser coincidência.”
Dante ergueu os olhos.
“Você acredita nisso?”
“Não.”
“Nem eu.”
Ele fechou a pasta.
“Marcelo não pode saber que encontramos isso.”
“Quer que eu o afaste?”
“Não.”
Bruno franziu a testa.
“Se ele colocou alguma coisa no seu café…”
“Se eu afastá-lo agora, ele desaparece.”
“E se tentar de novo?”
Dante apoiou as mãos na mesa.
“Então dessa vez estaremos esperando.”
Bruno não gostou.
Mas conhecia aquele olhar.
Dante já tinha tomado a decisão.
“E Marina?”
“O que tem ela?”
“Você contou que Marcelo é suspeito?”
“Não.”
“Ela está com a filha dentro desta casa.”
Dante ficou em silêncio.
Bruno continuou:
“Se existe risco, ela precisa saber.”
“Ela sabe que existe risco.”
“Não sabe de quem.”
“E vai continuar sem saber.”
“Por quê?”
Dante olhou para a porta fechada.
“Porque Marina não sabe fingir.”
Bruno quase sorriu.
“Isso é verdade.”
“Se ela descobrir que Marcelo pode ter tentado me matar, vai olhar para ele como se quisesse quebrar uma cadeira na cabeça dele.”
“Também é verdade.”
“E Marcelo vai perceber.”
Bruno guardou os documentos.
“Então vamos observar.”
“Tudo.”
“Certo.”
Quando Bruno saiu, Dante abriu a gaveta.
O desenho de Luna ainda estava ali.
Três pessoas.
Um coelho enorme.
Ele fechou rapidamente.
Não queria pensar na razão pela qual ainda não tinha jogado aquilo fora.
Naquela mesma manhã, Marina estava fazendo exatamente o que Dante previra.
Discutindo.
“Não.”
Teresa colocou as mãos na cintura.
“Marina.”
“Eu não vou usar isso.”
Sobre a cama havia um uniforme novo.
Não era o antigo vestido simples usado pelas funcionárias da limpeza.
Era um conjunto preto discreto, com camisa branca e corte elegante.
“Dante mandou.”
“Então devolve.”
“Ele vai perguntar.”
“Diga que eu tenho roupa.”
“Você vai trabalhar com a camiseta de ontem?”
Marina olhou para si mesma.
“Se precisar.”
Teresa suspirou.
“Você é tão teimosa quanto ele.”
“Não me ofenda.”
Teresa riu.
Marina tentou continuar séria.
Não conseguiu.
Desde que André morrera, fazia tempo que ela não dividia uma conversa assim com alguém.
Aquela constatação trouxe culpa.
Seu sorriso desapareceu.
Teresa percebeu.
“Foi seu marido?”
Marina ergueu os olhos.
“Como sabe?”
“Reconheço quando alguém se lembra de uma pessoa no meio de um sorriso.”
Marina sentou na beirada da cama.
“André fazia isso.”
“O quê?”
“Me irritava até eu rir.”
“Parece um bom homem.”
“Era.”
Teresa sentou ao lado dela.
“Há quanto tempo?”
“Dois anos.”
“Acidente?”
Marina assentiu.
“Obra.”
“São Paulo?”
“Sim. Um prédio comercial na região da Berrini.”
Teresa ficou pensativa.
“Qual construtora?”
“Não lembro o nome. Era terceirizada.”
“Você nunca investigou?”
Marina soltou um suspiro.
“Eu tinha uma filha de dois anos, aluguel, funeral e uma empresa dizendo que a culpa era de um equipamento mal instalado.”
“Você acreditou?”
Marina demorou.
“Eu precisava acreditar.”
A porta se abriu.
Luna entrou correndo.
“Mãe!”
“Não corre.”
A menina parou.
“Eu não tava correndo.”
“Eu vi.”
“Eu tava indo rápido.”
Teresa virou o rosto para esconder o sorriso.
Luna carregava uma folha.
“Fiz outro.”
Marina pegou.
Era um desenho da mesa da cozinha.
Teresa.
Marina.
Luna.
E Dante.
“Por que Dante está aqui?”
“Ele tomou café.”
“Uma vez.”
“Então aconteceu.”
Marina não conseguiu argumentar contra aquela lógica.
“Vai brincar.”
“Posso ir no jardim?”
“Com alguém.”
“Bruno tá lá.”
Marina olhou para Teresa.
“Ele está?”
“Está.”
“Então pode.”
Luna saiu.
Teresa observou Marina olhando o desenho.
“Ela gosta dele.”
“Ela tem quatro anos.”
“Crianças costumam perceber coisas antes dos adultos.”
“E adultos costumam complicar coisas que crianças não entendem.”
Teresa não respondeu.
Marina dobrou o desenho.
Naquele momento, um carro entrou pelo portão principal.
Marcelo Ferraz chegou pouco depois das onze.
Alto, bem vestido, cabelo grisalho nas têmporas.
Trazia uma pasta de couro e a tranquilidade de quem entrava naquela casa havia mais de uma década.
Marina o viu pela primeira vez no corredor.
“Bom dia.”
Ela respondeu por educação.
Marcelo parou.
“Você é nova?”
“Não.”
“Curioso. Eu conheço quase todo mundo daqui.”
“Trabalho na equipe de serviço.”
Ele olhou para o uniforme novo.
“Entendi.”
Antes que pudesse continuar, Luna apareceu pela porta do jardim.
“Minha mãe!”
Marcelo olhou para a menina.
Seu sorriso desapareceu por uma fração de segundo.
“Tem criança aqui?”
Marina imediatamente segurou Luna.
“Minha filha.”
“Dante sabe?”
“Sei.”
A voz veio atrás deles.
Dante entrou no corredor.
Marcelo sorriu.
“Você está parecendo melhor.”
“Estou.”
“Soube que passou mal.”
“Uma reação.”
“Henrique descobriu a causa?”
Dante sustentou o olhar.
“Ainda não.”
Marcelo assentiu.
“Que susto.”
“Foi.”
O silêncio entre os dois durou um segundo a mais do que deveria.
Luna puxou a manga de Dante.
“Posso mostrar uma coisa?”
Marcelo olhou para a mão da menina tocando o terno de Dante.
Marina também.
Dante não pareceu incomodado.
“Depois.”
“Promete?”
“Não faço promessas.”
Luna franziu o nariz.
“Minha mãe também fala isso quando não quer.”
Marina fechou os olhos.
Marcelo riu.
Dante não.
Mas seus olhos mudaram.
“Depois, Luna.”
“Tá.”
Marina levou a filha embora.
Quando passaram por Marcelo, ele acompanhou as duas com o olhar.
Dante viu.
“Algum problema?”
“Não.”
“Então pare de olhar.”
Marcelo ergueu as mãos.
“Você mudou.”
“Em dois dias?”
“Em três anos.”
Dante abriu a porta do escritório.
“Entre.”
A reunião durou quarenta minutos.
Marcelo falou sobre contratos.
Dante fingiu ouvir.
Na verdade, observava cada gesto.
O relógio.
O mesmo relógio.
Presente de aniversário.
Dante lembrava exatamente quando o entregara.
“Você está distante”, Marcelo comentou.
“Quase morri ontem.”
“Justo.”
Marcelo fechou a pasta.
“Preciso de acesso ao arquivo antigo de segurança.”
“Por quê?”
“Uma questão de seguro.”
“Qual?”
“Documentos do acidente de Beatriz.”
Dante não piscou.
“Depois de três anos?”
“Os advogados pediram.”
“Rogério?”
“Sim.”
Mentira.
Dante falara com Rogério naquela manhã.
“Vou autorizar.”
Marcelo pareceu relaxar.
“Obrigado.”
“Mais alguma coisa?”
“Não.”
Quando saiu, Bruno entrou pela outra porta.
“Ele mentiu.”
“Eu sei.”
“Quer que eu siga?”
“Já devia estar seguindo.”
Bruno pegou o telefone.
À tarde, Marina decidiu que não ficaria mais.
Esperou Dante voltar ao corredor.
“Precisamos conversar.”
“Isso nunca termina bem.”
“Pra você, provavelmente não.”
Ela mostrou a mochila de Luna.
“Vamos embora.”
Dante ficou sério.
“Não.”
“Tenho a medicação.”
“Não é sobre a medicação.”
“Então é sobre o quê?”
“Segurança.”
“Você continua sem me explicar nada.”
“Porque quanto menos souber, melhor.”
Marina soltou uma risada incrédula.
“Isso é a frase mais absurda que um homem pode dizer para uma mãe.”
“Marina…”
“Você quer que eu fique dentro de uma casa onde alguém tentou matar você e acha que me proteger significa me manter ignorante?”
Dante aproximou-se.
“Se você sair e alguém estiver observando…”
“Por que alguém me observaria?”
“Porque Luna me salvou.”
“Isso não transforma minha filha em parte da sua vida.”
Dante ficou imóvel.
Marina percebeu o peso da frase.
Mas não voltou atrás.
“Ela é minha responsabilidade.”
“Eu sei.”
“Então pare de decidir por mim.”
“Se sair agora, vou colocar segurança com vocês.”
“Não.”
“Não é negociável.”
“Tudo para você é uma ordem?”
“Quando mantém alguém vivo, sim.”
Marina o encarou.
“Foi isso que você fez com sua esposa?”
A pergunta saiu antes que pudesse impedir.
O rosto de Dante mudou.
“Não fale dela.”
Marina percebeu que havia ultrapassado um limite.
“Desculpa.”
Ele virou-se.
“Dante.”
“Faça as malas se quiser.”
Ela ficou surpresa.
“Você vai deixar?”
“Não sou seu dono.”
Marina segurou a mochila.
“E a segurança?”
“Vai com vocês.”
Ela quase discutiu novamente.
Então Bruno apareceu.
“Dante.”
O tom fez os dois pararem.
Bruno entregou um envelope.
“Encontramos outra coisa.”
Dante abriu.
Era uma cópia de um registro interno.
A câmera da garagem.
Onze minutos.
Mas havia um segundo documento anexado.
Uma lista de acessos ao servidor.
Dante leu.
Seu rosto endureceu.
Marina percebeu.
“O que aconteceu?”
Ele não respondeu.
Bruno falou:
“Na semana em que Beatriz morreu, alguém baixou os arquivos de um projeto de construção.”
“Qual projeto?”, Dante perguntou.
Bruno apontou.
**Edifício Vértice — Berrini.**
Marina deixou a mochila cair.
Dante virou-se para ela.
“O que foi?”
Ela não conseguia tirar os olhos do papel.
Quando falou, sua voz quase não saiu.
“Foi lá.”
“Lá onde?”
Marina ergueu o rosto.
“Foi nesse prédio que meu marido morreu.”
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