"A Menina no Quarto Proibido" Capítulo 4 — O Homem Que Não Chorava
Dante não dormiu.
Às três da manhã, estava no escritório assistindo a imagens de três anos antes.
Beatriz entrando na mansão.
Cecília correndo pelo corredor.
Uma mochila pequena balançando nas costas.
Dante apertou pausa.
A menina congelou na tela.
Quatro anos.
Sempre quatro.
O tempo havia continuado para todo mundo.
Menos para Cecília.
Às quatro e quinze, Dante fechou o computador.
Às seis, já estava vestido.
Às sete, encontrou Luna na cozinha.
A menina estava sentada à mesa comendo uma banana.
Marina estava ao lado dela.
Quando viu Dante, ficou de pé.
“Bom dia.”
“Bom dia.”
Luna ergueu a banana.
“Essa eu posso.”
“Percebi.”
“Teresa falou que você tirou um monte de coisa da cozinha.”
Marina suspirou.
“Luna.”
“O quê?”
Dante puxou uma cadeira.
Marina estranhou.
Ele nunca tomava café naquela cozinha.
“Não tirei tudo.”
“Tirou amendoim.”
“Sim.”
“Castanha.”
“Sim.”
“Pistache.”
“Sim.”
“Minha mãe gosta de pistache.”
“Ela pode comer fora.”
Marina cruzou os braços.
“Obrigada pela autorização.”
Dante olhou para ela.
Luna mastigou a banana observando os dois.
“Vocês estão brigando?”
“Não”, Marina respondeu.
“Sim”, Dante respondeu.
Luna olhou para a mãe.
“Ele falou a verdade.”
Dante baixou os olhos para esconder algo que quase parecia diversão.
Marina percebeu.
“Você quase sorriu.”
Ele ficou sério imediatamente.
“Não.”
“Quase.”
“Não.”
Luna apontou.
“Quase.”
Dante se levantou.
“Tenho uma reunião.”
Marina esperou que ele saísse.
“Ele é estranho.”
Luna assentiu.
“Mas não morreu.”
Marina perdeu o sorriso.
Naquela tarde, Henrique voltou para examinar Dante.
Depois pediu para falar com Marina.
“Conseguiu as duas canetas?”
Ela mostrou a caixa.
“Sim.”
“Uma fica com você. Outra com quem estiver responsável por Luna.”
“Eu sou responsável.”
“Eu sei.”
Henrique hesitou.
“Mas enquanto estiverem aqui…”
“Não vamos ficar.”
“Dante sabe?”
“Não preciso da permissão dele para ir embora.”
Henrique sorriu.
“Boa sorte explicando.”
Marina não achou graça.
Encontrou Dante na biblioteca.
“Vamos embora amanhã.”
Ele continuou lendo um documento.
“Não.”
Marina fechou a pasta na frente dele.
Dante ergueu os olhos.
“Você tem algum problema com documentos?”
“Tenho problema com gente que não escuta.”
“Eu escuto.”
“Então ouviu que vamos embora.”
“Ouvi.”
“Ótimo.”
“E respondi não.”
Marina respirou fundo.
“Minha filha não é sua responsabilidade.”
“Ela se tornou quando salvou minha vida dentro desta casa.”
“Isso não faz sentido.”
“Faz pra mim.”
“Esse é exatamente o problema.”
Dante se levantou.
“Alguém tentou me matar.”
Marina parou.
A raiva desapareceu.
“O quê?”
“Minha reação não foi acidente.”
“Como sabe?”
“Sei.”
“Quem?”
“Não importa.”
“Claro que importa!”
“Marina.”
“Minha filha estava aqui!”
“Por isso vocês não vão embora.”
Ela o encarou.
“Está dizendo que corremos perigo?”
“Estou dizendo que não sei.”
“Isso deveria me tranquilizar?”
“Não.”
Pela primeira vez, Dante parecia não tentar controlar a reação dela.
Marina passou a mão pelo cabelo.
“Eu trouxe Luna escondida porque estava com medo de perder um salário. Agora você está me dizendo que coloquei minha filha dentro de uma casa onde alguém tentou matar você.”
“Você não sabia.”
“Mas trouxe.”
“Marina.”
“Não.”
Ela se afastou.
“Não tente fazer isso parecer menor.”
Dante ficou em silêncio.
“Eu deveria ter ficado em casa.”
“E perdido o emprego.”
“Sim.”
“E a medicação dela?”
Marina virou-se.
A pergunta doeu porque era verdadeira.
Dante continuou:
“Você estava escolhendo entre coisas que nenhuma mãe deveria precisar escolher.”
Ela apertou os lábios.
“Não tenha pena de mim.”
“Não tenho.”
“Tem dinheiro suficiente para nunca entender.”
“Provavelmente.”
A resposta a surpreendeu.
Ele não tentou fingir.
“Mas sei como é olhar para uma criança e pensar que deveria ter feito alguma coisa diferente.”
Marina percebeu.
Cecília.
A raiva diminuiu.
“Você se culpa.”
Dante desviou os olhos.
“Não estamos falando de mim.”
“Agora estamos.”
Ele fechou a expressão.
“Vá ficar com sua filha.”
Marina quase saiu.
Mas parou.
“Ela não entrou naquele quarto para machucar você.”
“Eu sei.”
“Ela gostou da música.”
Dante não respondeu.
“E sente muito.”
“Marina.”
“Tudo bem.”
Ela saiu.
Naquela noite, Luna não conseguia dormir.
Marina estava no banho quando a menina ouviu a música.
Não vinha do quarto proibido.
Vinha do corredor.
Dante estava sentado num banco perto da janela.
A caixa de música estava em sua mão.
Luna apareceu de pijama.
“Você pegou.”
Ele olhou para ela.
“Peguei.”
“Então você gosta.”
Dante fechou a caixa.
“Você deveria estar dormindo.”
“Você também.”
Ele não tinha resposta.
Luna subiu no banco.
Sentou a uma distância pequena.
“Minha mãe falou que eu não posso entrar naquele quarto.”
“Ela está certa.”
“Você pode?”
Dante olhou para a porta.
“Posso.”
“Mas não entra.”
Ele virou o rosto.
“Você pergunta demais.”
“Minha mãe fala isso.”
Silêncio.
Luna balançou os pés.
“Você sente saudade dela?”
Dante demorou.
“Sim.”
“Eu sinto do meu pai.”
“Eu sei.”
“Às vezes eu esqueço a voz dele.”
Dante olhou para ela.
“Isso acontece?”
“Minha mãe tem vídeo.”
“Entendi.”
“Você tem vídeo da Cecília?”
“Tenho.”
“Então não esquece.”
Ele apertou a caixa.
Luna aproximou-se um pouco.
“Você chora?”
“Não.”
“Nunca?”
“Não.”
“Por quê?”
Dante quase riu da insistência.
“Porque não.”
“Minha mãe chora escondida.”
“Você já disse.”
“Eu vejo mesmo assim.”
Dante olhou para a menina.
Luna estendeu Nina.
“Quando eu choro, abraço ela.”
“Não preciso.”
“Você pode abraçar.”
“Não.”
“Tá.”
Luna puxou o coelho de volta.
Nenhuma insistência.
Nenhuma pena.
Isso tornou tudo pior.
Dante abriu a caixa.
A melodia começou.
“Cecília ouvia isso para dormir.”
“Ela tinha medo?”
“De trovão.”
“Eu tenho de ficar sem ar.”
Dante parou.
Luna disse aquilo com a naturalidade de quem falava de chuva.
“Dói?”
“Um pouco.”
“Você ficou com medo ontem?”
“Quando?”
“Quando não respirava.”
Dante olhou para a frente.
“Sim.”
“Eu também fico.”
Luna apoiou Nina no colo.
“Por isso eu dei minha caneta.”
Dante sentiu a garganta apertar.
“Você sabia que era a última.”
“Sabia.”
“E se você precisasse?”
Luna deu de ombros.
“Mas você precisava primeiro.”
Dante fechou os olhos.
Viu Cecília.
O carro.
Fogo.
Uma porta que ele não conseguira abrir.
Três anos de silêncio.
Quando abriu os olhos, Luna estava olhando para ele.
“Seu olho tá molhado.”
Dante passou a mão no rosto.
“Não está.”
“Tá.”
“Volte para o quarto.”
Ela desceu do banco.
Antes de sair, abraçou-o.
Sem pedir.
Os braços pequenos mal alcançaram seu corpo.
Dante congelou.
Luna soltou.
“Boa noite.”
E correu pelo corredor.
Dante permaneceu sentado.
A música continuava.
Uma lágrima desceu.
Depois outra.
Ele não tentou impedir.
Do outro lado do corredor, Teresa havia visto tudo.
Não disse uma palavra.
Mais tarde, quando a casa dormia, Bruno entrou no escritório.
Dante já estava novamente com o rosto impassível.
“Consegui os registros antigos.”
“E?”
Bruno colocou duas folhas sobre a mesa.
“Há três anos, na noite anterior à morte de Beatriz e Cecília, uma câmera da garagem parou de funcionar.”
Dante ficou imóvel.
“Quanto tempo?”
Bruno não respondeu imediatamente.
Não precisava.
Dante já sabia.
“Onze minutos”, disse Bruno.
O mesmo tempo.
O mesmo padrão.
Dante olhou para o nome no relatório de manutenção.
A autorização para desligar o sistema havia sido assinada por uma única pessoa.
Marcelo Ferraz.
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