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"A Menina no Quarto Proibido" Capítulo 1 — A Última Dose

正文开头

Quando Luna Duarte encontrou Dante Montenegro no chão, ele já não conseguia pedir ajuda.

O homem mais temido de São Paulo estava caído sobre o tapete escuro do escritório, com uma das mãos fechada sobre a própria garganta.

O copo de água havia se quebrado perto da escrivaninha.

O celular estava a menos de dois metros dele.

Dois metros que, naquele momento, pareciam impossíveis.

Dante tentou puxar o ar.

Nada.

Seu peito se contraiu outra vez.

Um som baixo e áspero escapou de sua garganta.

Do lado de fora, ninguém ouviu.

A porta principal do escritório estava trancada.

E ninguém na Mansão Montenegro entrava ali sem autorização.

Ninguém, exceto uma menina de quatro anos que não sabia que aquela regra existia.

Luna apareceu pela pequena porta lateral usada pelos funcionários.

Trazia um coelho de pelúcia apertado contra o peito e uma mochila rosa nas costas.

Parou assim que viu o homem no chão.

Seus grandes olhos castanhos ficaram imóveis.

Dante tentou falar.

“Saia…”

A palavra não chegou inteira.

Luna não saiu.

Ela conhecia aquele rosto.

Não o rosto de Dante.

O outro.

O rosto de alguém que não conseguia respirar.

O rosto que sua mãe tinha visto nela quatro vezes.

Luna soltou o coelho.

“Você está sem ar?”

Dante bateu a mão contra o tapete.

A visão começava a escurecer.

A menina se ajoelhou.

Abriu a mochila rosa.

Havia um pacote de biscoitos, lápis de cor, uma garrafinha de água e uma pequena caixa transparente.

Dentro dela estava a última caneta de adrenalina de Luna.

A única.

Marina havia repetido aquela frase naquela mesma manhã.

“Essa é a última, meu amor.”

Luna se lembrava.

Também se lembrava do resto.

“Só usa se você não conseguir respirar.”

A menina segurou a caneta.

Olhou para Dante.

Depois para a própria mão.

“É a minha última.”

Dante ouviu.

Não conseguiu responder.

Luna puxou a tampa de segurança do jeito que Marina havia ensinado.

As mãos pequenas tremiam.

Mas ela sabia o que fazer.

Já tinha visto a mãe fazer.

Mais de uma vez.

Encostou a ponta da caneta na parte externa da coxa de Dante, sobre a calça preta.

“Vai doer.”

Pressionou.

Dante contraiu o corpo.

Luna começou a contar.

“Um…”

O homem fechou os olhos.

“Dois…”

Ela segurou firme.

“Três.”

Então retirou a caneta.

E esperou.

Oito horas antes, Marina Duarte acreditava que perder o emprego seria a pior coisa que poderia acontecer naquele dia.

Às seis e dez da manhã, seu celular havia tocado no pequeno apartamento da Vila Mariana.

A mulher que cuidava de Luna estava com febre.

Não poderia receber a menina.

Marina ficou em silêncio diante da pia.

Sobre a mesa estavam uma conta de energia vencida, um boleto do aluguel e a receita da nova caixa de adrenalina.

Ela fechou os olhos.

Não tinha com quem deixar a filha.

E faltar ao trabalho na Mansão Montenegro não era uma opção.

正文1

Três faltas significavam demissão.

Marina já tinha duas.

Uma delas porque Luna passara a madrugada no pronto-socorro.

A outra porque a escola telefonara depois de uma reação alérgica.

“Você vai trabalhar?”, Luna perguntou.

Marina olhou para a filha.

A menina usava uma camiseta amarela com um pequeno sol estampado e meias de cores diferentes.

O coelho Nina estava debaixo de seu braço.

“Vou.”

“E eu?”

Essa era a pergunta.

Marina se abaixou diante dela.

“Hoje você vai comigo.”

Luna sorriu.

Marina segurou seus ombros.

“Mas precisa fazer exatamente o que eu mandar.”

O sorriso desapareceu.

“Tá.”

“Você vai ficar escondidinha na sala dos funcionários. Não vai sair. Não vai comer nada que eu não deixar. E não vai tocar em comida nenhuma.”

Luna assentiu.

Marina abriu a mochila.

Conferiu a medicação.

Uma única caneta.

A farmácia ainda não havia liberado a nova caixa.

Ela sentiu o mesmo medo de todas as vezes que olhava para aquele pequeno objeto.

Para outra família, era medicamento.

Para Marina, era tempo.

Minutos extras entre a vida e a morte.

“Essa é a última, meu amor.”

“Eu sei.”

“Só usa se você não conseguir respirar.”

Luna abraçou Nina.

“Eu sei, mãe.”

Duas horas depois, Marina atravessava a entrada de serviço da Mansão Montenegro com a sensação de estar cometendo um crime.

A propriedade ocupava uma parte silenciosa do Morumbi, escondida atrás de muros altos, árvores antigas e portões de ferro preto.

Câmeras acompanhavam cada veículo.

Seguranças controlavam cada entrada.

Dante Montenegro gostava de saber quem entrava em sua casa.

E, principalmente, quem saía.

Marina esperou a troca do turno.

Levou Luna até uma pequena sala no subsolo.

Colocou água, biscoitos seguros e lápis sobre a mesa.

“Fica aqui.”

“Até quando?”

“Até a mamãe voltar.”

“Posso desenhar?”

“Pode.”

“Posso desenhar o Nina?”

Marina sorriu.

“Nina é uma menina.”

Luna olhou para o coelho.

“Ela não liga.”

Marina beijou sua testa.

“Não saia daqui.”

“Prometo.”

Durante quase três horas, Luna cumpriu a promessa.

Até Nina desaparecer.

O coelho caiu quando a menina foi pegar um lápis debaixo do sofá.

Ela procurou atrás da porta.

Debaixo da mesa.

No corredor.

Foi então que viu uma das orelhas de Nina no fim da passagem.

Provavelmente uma funcionária havia chutado a pelúcia sem perceber.

Luna saiu.

Pegou o coelho.

E ouviu um barulho no andar de cima.

Alguma coisa pesada havia caído.

Depois, silêncio.

Luna subiu alguns degraus.

“Tem alguém aí?”

Nada.

Ela continuou.

Foi assim que chegou ao corredor do escritório.

Foi assim que encontrou a pequena porta lateral entreaberta.

E foi assim que Dante Montenegro, aos trinta e nove anos, acabou tendo sua vida colocada nas mãos de uma criança de quatro.

Agora Luna estava sentada ao lado dele.

A caneta vazia permanecia sobre o tapete.

“Você vai morrer?”

Dante abriu os olhos.

O ar finalmente começou a entrar.

Pouco.

Doloroso.

Mas entrou.

Luna se aproximou.

“Minha mãe fala que tem que chamar ambulância.”

正文2

Dante tentou levantar a mão.

Não conseguiu.

Então ouviu passos.

Muitos.

A porta principal foi atingida.

“Dante!”

Era Bruno Almeida.

Outro impacto.

A fechadura cedeu.

Bruno entrou primeiro, seguido por dois seguranças e Teresa Nogueira.

Todos pararam.

O chefe da casa estava no chão.

Ao lado dele havia uma menina que ninguém deveria saber que estava ali.

“Meu Deus”, Teresa sussurrou.

Bruno correu até Dante.

“Chama o Henrique. Agora!”

Um segurança levou a mão ao rádio.

Teresa olhou para Luna.

“Quem é você?”

A menina apontou para a caneta.

“Ele não respirava.”

Bruno pegou o objeto.

Leu o rótulo.

Olhou para Luna.

“Você aplicou isso nele?”

Ela assentiu.

“Foi você?”

“Foi.”

“Quem ensinou?”

“Minha mãe.”

Dante finalmente conseguiu puxar ar suficiente para falar.

“Não…”

Bruno se inclinou.

“Não o quê?”

Dante apontou para Luna.

“Não assusta ela.”

Todos ficaram em silêncio.

Luna pegou Nina no chão.

Dante olhou para a caneta vazia na mão de Bruno.

Então se lembrou.

É a minha última.

Ele virou o rosto lentamente para a menina.

“Era sua?”

Luna assentiu.

“Por quê?”

“Eu tenho alergia.”

Dante franziu a testa.

“Tem outra?”

Ela balançou a cabeça.

“Não.”

“Em casa?”

“Não.”

Bruno olhou para Dante.

O rosto dele mudou.

Luna abraçou o coelho.

“Era a última.”

Nesse momento, Marina apareceu na porta.

Ela tinha ouvido a movimentação e corrido até ali.

Quando viu Luna, perdeu a cor.

“Luna?”

A menina se levantou.

“Mãe…”

Marina viu Dante no chão.

Viu Bruno.

Viu a caneta vazia.

E entendeu.

“Não.”

Ela atravessou o escritório correndo.

Pegou a caneta da mão de Bruno.

“Luna, me diz que você não usou.”

A menina baixou os olhos.

“Ele não respirava.”

Marina fechou os olhos.

Por um instante, ninguém ousou falar.

Então ela puxou a filha para os braços.

“Era a sua última.”

“Eu sei.”

“Luna…”

“Ele ia morrer.”

Marina apertou a filha contra o peito.

Dante observou as duas.

A ambulância particular entrou pelo portão principal.

Homens começaram a ocupar o escritório.

Henrique Sampaio chegou poucos minutos depois.

Mas Dante quase não ouviu as perguntas.

Continuava olhando para a menina.

Quatro anos.

Uma mochila rosa.

Um coelho velho.

E nenhuma dose de adrenalina restante.

Henrique examinou Dante rapidamente.

“Quem aplicou a adrenalina?”

Dante apontou.

O médico olhou para Luna, incrédulo.

“Ela?”

“Sim.”

Henrique respirou fundo.

“Então ela salvou sua vida.”

Marina apertou Luna ainda mais.

Dante olhou para a caneta vazia.

Depois para a mãe da menina.

“Consiga outra.”

Bruno assentiu.

“Agora.”

Marina ergueu o rosto.

“Não é tão simples.”

Dante encarou-a.

“Pra mim é.”

Marina respondeu sem baixar os olhos.

“Para o senhor talvez.”

E, pela primeira vez naquele dia, Dante Montenegro percebeu que sobreviver tinha sido a parte simples.

Porque a menina que acabara de salvar sua vida talvez tivesse acabado de entregar a própria chance de sobreviver à próxima crise.

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