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"Cinco Mortos numa Feira, um Único Sobrevivente num Avião e Dois Acidentes Fatais Ligados a “Combat!”: Três Histórias Reais que Parecem Ficção" Capítulo 8 — A cena que terminou em tragédia

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Capítulo 8 — A cena que terminou em tragédia

Vic Morrow atravessava a água com duas crianças quando o helicóptero caiu.

A câmera estava funcionando. A cena fazia parte de um filme. O cenário representava uma situação de guerra, e as explosões tinham sido preparadas para tornar aquela situação convincente.

O perigo, entretanto, não era uma representação.

Na madrugada de 23 de julho de 1982, durante a produção de

Twilight Zone: The Movie

, Morrow e os atores mirins Myca Dinh Le e Renee Shin-Yi Chen morreram quando uma aeronave atingiu o ponto onde estavam.

Myca tinha sete anos.

Renee tinha seis.

O acidente aconteceu em Indian Dunes, uma área de filmagem na Califórnia. O trecho do filme era dirigido por John Landis e reunia pessoas no solo, uma aeronave em baixa altitude e efeitos pirotécnicos.

Cada elemento tinha uma função na imagem planejada.

A combinação produziu uma tragédia.

A história interpretada por Morrow acompanhava um homem racista colocado em situações nas quais passava a experimentar perseguição e violência. O segmento utilizava mudanças de cenário para fazê-lo ocupar o lugar de pessoas que desprezava.

Uma dessas situações envolvia uma representação da guerra do Vietnã.

Na filmagem daquela madrugada, Morrow precisava levar duas crianças através de uma área com água enquanto um helicóptero participava da ação acima deles.

O resultado pretendido era uma imagem de fuga sob ameaça.

Para obtê-la, a produção havia reunido condições que exigiam coordenação rigorosa. O ator precisava saber o percurso. As crianças precisavam estar nos lugares definidos. O piloto precisava posicionar a aeronave. A equipe de efeitos precisava controlar o momento e a dimensão das explosões.

Uma decisão tomada em um desses grupos podia alterar o risco enfrentado pelos outros.

O piloto não estava simplesmente voando sobre uma paisagem distante. Operava perto da ação, dentro de um espaço ocupado por pessoas e por efeitos preparados no chão.

Morrow e as crianças não tinham controle sobre a aeronave.

Dependiam da forma como aquela operação havia sido planejada e executada.

A baixa altitude ajudava a criar uma sensação de ameaça na imagem. Também aproximava o helicóptero das explosões e reduzia o espaço disponível para lidar com uma emergência.

Foi nesse ambiente que os efeitos foram acionados.

A investigação técnica posterior relacionou a queda a uma explosão de efeitos especiais próxima demais da aeronave, com material projetado que danificou componentes do rotor. A perda do conjunto do rotor de cauda fez parte da sequência que levou à perda de controle.

A cena deixou de corresponder ao plano.

Para as pessoas no solo, o helicóptero passou a ser um objeto em queda.

A água, o percurso e a proximidade da aeronave limitaram as possibilidades de escapar. Morrow estava com as crianças na área atingida.

Os três morreram.

Não é necessário descrever em detalhe os ferimentos para compreender a gravidade. Um adulto e duas crianças haviam entrado numa cena organizada para ser filmada e não saíram vivos dela.

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O filme contava uma história de violência.

A produção havia criado uma situação capaz de produzir violência real.

Depois do impacto, o trabalho perdeu seu sentido imediato. O que antes era uma locação passou a ser um lugar de socorro, choque e investigação. Equipamentos, posições e movimentos que serviam à filmagem passaram a ter importância como elementos de uma reconstrução.

A câmera acrescentava uma condição incomum.

Havia um registro visual do acidente.

Esse registro podia mostrar a sequência externa, mas não oferecia acesso a todas as decisões que a antecederam. Não revelava sozinho o que cada participante havia sido informado, que avaliação de risco havia sido realizada ou como as orientações haviam circulado entre o diretor, o piloto e a equipe de efeitos.

A existência das imagens não encerrava as perguntas.

Tornava algumas delas mais precisas.

Era possível examinar a posição da aeronave em relação às explosões e ao grupo no solo. Era necessário investigar como aquela posição havia sido autorizada e o que os responsáveis esperavam que acontecesse.

O ponto central ultrapassava uma falha mecânica isolada.

O helicóptero estava trabalhando dentro de uma operação cinematográfica. Os efeitos especiais eram parte dessa mesma operação. A segurança dependia da interação entre os dois.

Um piloto pode conhecer sua aeronave sem conhecer todos os efeitos preparados em uma locação. Uma equipe de efeitos pode conhecer a carga que utiliza sem ter autoridade sobre as condições de voo. O diretor acompanha a imagem desejada, mas precisa de informações e limites definidos pelos profissionais responsáveis por cada risco.

Se a coordenação falha, uma parte da equipe pode agir baseada numa expectativa que outra parte não compartilha.

O relatório do acidente apontaria problemas de comunicação e coordenação entre direção e piloto como fatores relevantes.

Essas palavras podem parecer abstratas depois de uma tragédia tão visível.

Na prática, envolvem perguntas diretas.

O que seria detonado?

Em que momento?

A que distância estaria o helicóptero?

Que condições exigiriam interromper a filmagem?

A presença de crianças acrescentava responsabilidades ainda mais sérias. Myca e Renee não tinham a experiência ou a autonomia de um profissional adulto para avaliar uma operação daquela natureza.

Sua participação dependia das decisões tomadas por outras pessoas.

As condições de contratação e de trabalho dos atores mirins se tornariam parte importante das investigações e da controvérsia posterior. O horário da filmagem, o ambiente de perigo e os procedimentos adotados pela produção passaram a ser examinados.

Essas questões não podiam ser separadas da forma como a cena havia sido organizada.

As crianças estavam ali porque o filme precisava delas.

A proteção delas precisava ter sido considerada antes da câmera começar a registrar.

Vic Morrow também se tornaria o centro de relatos sobre medo de helicópteros, pressentimentos e frases supostamente pronunciadas pouco antes da cena. Algumas dessas histórias circulariam durante anos, apresentadas como sinais de que ele teria previsto o próprio fim.

O acidente não depende desses relatos para ser perturbador.

Acrescentar uma premonição muda a maneira como o público olha para os últimos momentos do ator. Pode fazer com que a atenção se desloque das condições do trabalho para a ideia de um destino que ele não conseguiria evitar.

A investigação precisava seguir outro caminho.

O helicóptero havia perdido o controle após ser afetado pelos efeitos.

Morrow e as crianças estavam na área atingida.

A sequência tinha componentes que podiam ser examinados.

Também tinha decisões anteriores que precisavam ser discutidas.

A carreira de Morrow havia incluído muitos personagens submetidos a violência fictícia. Em

Combat!

, sua presença ajudara a convencer espectadores de que estavam acompanhando soldados em situações extremas.

Na Califórnia, a capacidade do cinema de simular perigo chegou a um limite que não podia ser ultrapassado sem consequências.

As explosões continuavam sendo efeitos especiais.

Os corpos abaixo da aeronave eram de pessoas.

A filmagem produziu imagens que ninguém deveria ter precisado assistir. Em vez de uma cena destinada ao público, criou um registro de três mortes.

Pouco mais de um ano antes, Boris Sagal havia sido atingido por um rotor durante outra produção.

Agora, o ator associado ao trabalho dele também estava morto.

Quando as duas histórias foram colocadas lado a lado, o público encontrou uma semelhança difícil de esquecer.

A investigação encontraria algo diferente: dois acidentes que precisavam ser compreendidos separadamente.

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