"A Filha da Empregada Levou Uma Lancheira Para a Filha Morta do Chefe da Máfia" Capítulo 3 — O Desenho no Fundo da Caixa
Mariana não dormiu.
Às duas da manhã, verificou pela quarta vez a janela do pequeno apartamento na Vila Mariana. Um carro preto permanecia do outro lado da rua. Rafael cumprira a promessa de manter distância, mas a presença da segurança não diminuía a sensação de que alguém podia estar observando de outro lugar.
Nina dormia com a cabeça apoiada no colo da mãe.
A lancheira cor-de-rosa estava sobre a mesa.
Dante permitira que Nina a levasse porque Lívia a entregara a ela. Antes, porém, fotografara cada objeto e recolhera a metade da pulseira.
Mariana passou os dedos sobre o unicórnio desbotado.
"O que você colocou nas mãos da minha filha?", sussurrou.
A base parecia irregular.
Ela pressionou o forro. Um estalo discreto respondeu.
Mariana virou a lancheira e encontrou uma costura aberta sob a borda. Puxou o tecido. Um papel dobrado escorregou para a mesa.
Era um desenho feito com lápis de cor.
Duas meninas apareciam diante de um portão de ferro. Atrás delas havia uma casa amarela, uma grande estrutura de vidro e uma fileira de árvores. No canto, repetido três vezes, estava o número 27.
Mariana acordou Nina com cuidado.
"Filha, você já viu este lugar?"
Nina esfregou os olhos. Quando reconheceu o desenho, sentou-se depressa.
"Foi onde a Bia perdeu a pulseira."
"Quando?"
"No passeio da escola. A professora falou que era uma fazenda de plantas."
"Uma estufa?"
"Isso. Mas a Bia não podia entrar na casa. A tia Cecília ficou brava quando ela chegou perto do portão."
Mariana telefonou para Rafael.
Quarenta minutos depois, Dante entrou no apartamento sem paletó e sem a comitiva que costumava anunciar sua presença. Trazia a outra metade da pulseira num envelope transparente.
Mariana abriu a porta apenas depois de reconhecer Rafael atrás dele.
"Eu não mandei chamar o senhor."
"O desenho pode indicar onde Lívia está."
"Então olhe e vá procurá-la. Nina não sai daqui."
Dante não discutiu. Aproximou-se da mesa e examinou o papel.
"Ela desenhava esta estrela em todas as janelas", disse, apontando um detalhe quase invisível. "A mãe dizia que casas precisavam saber onde olhar à noite."
Nina apareceu no corredor enrolada num cobertor.
"A Bia falou que a casa tem vinte e sete olhos."
Rafael ampliou uma fotografia do desenho.
"Janelas?"
"Talvez câmeras", disse Mariana.
Dante olhou para ela.
"Por que acha isso?"
"Porque uma criança mantida sob vigilância chamaria câmeras de olhos."
Nina se aproximou.
"Ela também disse que o jardim escuta."
Rafael começou a pesquisar propriedades ligadas à clínica. Encontrou uma antiga chácara em Atibaia, registrada em nome de uma empresa pertencente a Cecília Prado. O endereço terminava em 27.
Imagens aéreas mostravam uma casa amarela e uma estufa.
Dante já caminhava para a porta.
"Eu vou com vocês", disse Mariana.
"Não."
"Minha filha esteve naquele lugar. Talvez reconheça algo que sua equipe não reconheça. Eu não vou levar Nina, mas posso ajudar."
"É perigoso."
"Perigoso foi deixar minha filha levar para casa um pedido de socorro sem saber. Agora quero entender no que ela foi envolvida."
Dante olhou para Rafael.
"Ela fica no carro."
"Eu decido onde fico."
"Então fica aqui."
Mariana cruzou os braços.
"O senhor quer encontrar Lívia ou vencer uma discussão?"
Rafael disfarçou uma reação. Dante demorou alguns segundos para responder.
"Colete à prova de balas. Você obedece às orientações de Rafael durante a entrada."
"Se forem sensatas."
Dante quase sorriu, mas a expressão desapareceu antes de nascer.
Dona Teresa permaneceu com Nina. A viagem até Atibaia aconteceu sob chuva fina, a mesma espécie de chuva que caíra na noite do acidente.
Dante ficou calado durante quase todo o caminho.
"Quando foi a última vez que a viu?", perguntou Mariana.
"Naquela manhã. Eu prometi voltar antes do jantar."
"E não voltou?"
"Uma reunião terminou tarde. Lívia saiu com a babá. O carro caiu numa ribanceira antes de chegar à cidade."
"Encontraram a babá?"
"Morta. Encontraram restos de duas pessoas. O laudo confirmou as identidades."
"E o senhor acreditou."
"Vi o carro queimado. Vi o que restou do casaco de Lívia. Passei oito meses procurando mesmo depois do enterro. Todos diziam que eu estava destruindo a família por não aceitar a verdade."
"Quem convenceu o senhor a parar?"
Dante olhou a estrada molhada.
"Augusto apresentou o parecer de Cecília."
A chácara parecia vazia quando chegaram. Rafael distribuiu a equipe em torno da propriedade. Nenhuma luz aparecia nas vinte e sete janelas que Nina chamara de olhos.
O portão estava destrancado.
Isso preocupou Rafael mais do que uma barricada.
Dentro da casa havia quartos limpos, camas arrumadas e armários vazios. Alguém retirara roupas, documentos e remédios havia poucas horas.
Mariana encontrou marcas de altura numa parede da cozinha. Ao lado de cada linha, uma letra B e uma data. Os registros cobriam quase três anos.
Dante tocou a marca mais recente.
"Um metro e vinte e nove."
"Ela cresceu", disse Mariana.
Ele fechou a mão.
"E eu não vi."
Na estufa, o cheiro de terra molhada encobria algo químico. Rafael encontrou câmeras minúsculas entre os vasos e microfones sob dois bancos.
"O jardim escutava", disse Mariana.
Perto de uma fileira de orquídeas, havia uma fita azul presa a um prego. Nina usava fitas iguais para marcar caminhos durante brincadeiras escolares.
Mariana seguiu outras duas fitas até um depósito.
A porta estava trancada.
Rafael a arrombou.
O cômodo continha uma cama infantil, desenhos de cavalos com cinco pernas e dezenas de cartas endereçadas a Dante.
Nenhuma fora enviada.
Ele abriu a primeira.
"Papai, hoje eu consegui dormir sem a luz. A tia disse que você não respondeu porque não quer que eu volte. Eu prometo não dar trabalho."
Dante não conseguiu continuar.
Mariana pegou outra carta. Havia manchas que poderiam ser lágrimas.
"Ela continuou escrevendo porque uma parte dela não acreditava no abandono."
Rafael chamou do corredor.
Encontrara um inalador com o nome Beatriz Nunes e uma pulseira hospitalar datada de quatro dias antes. Lívia estivera ali naquela semana.
Um ruído veio do teto.
Todos ergueram as armas, exceto Mariana.
Era uma gravação automática.
A voz de uma menina encheu o depósito.
"Se o papai vier, fala para ele que eu tentei esperar."
Dante olhou para uma câmera acima da porta.
Uma luz vermelha acabara de acender.
Alguém os observava naquele momento.
Rafael correu para arrancar o equipamento, mas o sistema iniciou uma contagem regressiva no monitor preso à parede.
Dez.
Nove.
O cheiro químico na estufa ficou mais forte.
"Gás", gritou Mariana.
Dante agarrou as cartas. Rafael ordenou a retirada.
Quando alcançaram o jardim, as janelas da casa se fecharam automaticamente.
No andar superior, uma pequena chama apareceu atrás das cortinas.
A pessoa que levara Lívia não estava apenas apagando provas.
Estava tentando apagar, pela segunda vez, todos os sinais de que a menina sobrevivera.
Os bombeiros encontraram ainda uma caixa metálica enterrada ao lado da estufa. O fogo não a alcançara. Dentro havia recibos de farmácia, fotografias de Lívia dormindo e relatórios assinados apenas com as iniciais A.M.
Um dos relatórios registrava suas reações depois de assistir a vídeos públicos de Dante: choro, tentativa de fuga e recusa de alimentos. A recomendação escrita abaixo era brutalmente simples: reduzir exposição ao pai.
Mariana entregou a folha a Dante.
"Eles não estavam apenas escondendo sua filha. Estavam estudando quanto de esperança precisavam tirar dela."
No fundo da caixa, Rafael encontrou um mapa rodoviário. Três rotas estavam destacadas: Guarulhos, Santos e a fronteira com o Paraguai. Uma delas tinha a data daquela noite.
O destino final fora rasgado.
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