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"A Filha da Empregada Levou Uma Lancheira Para a Filha Morta do Chefe da Máfia" Capítulo 2 — A Menina Chamada Beatriz

正文开头

Dante colocou metade da pulseira sobre a mesa da biblioteca.

Ninguém se sentou.

Rafael examinava imagens do sistema da escola. Augusto permanecia junto à janela, ofendido por ter sido incluído entre os suspeitos. Mariana mantinha Nina no sofá, com um braço firme ao redor da filha.

"A diretora não atende", informou Rafael. "O servidor foi acessado com a senha administrativa. Apagaram matrícula, endereço, responsáveis e histórico."

"Recupere tudo."

"Minha equipe já está trabalhando."

Augusto soltou um suspiro.

"Vocês estão assustando uma criança por causa de uma joia que pode ter sido copiada."

Nina olhou para ele.

"Você não acredita em mim."

"Acredito que alguém pode ter usado você."

"Ela é minha amiga."

"E amigos também mentem."

Mariana levantou-se.

"Não fale assim com minha filha."

Augusto arqueou as sobrancelhas.

"Você se esqueceu de onde está?"

"Não. Estou numa casa onde um adulto prefere acusar uma menina a admitir que pode estar errado."

Dante olhou para o tio.

"Saia."

"Eu sou presidente da fundação criada em nome de Lívia."

"Por isso mesmo. Se ela estiver viva, você tem conflitos suficientes para esperar do lado de fora."

Augusto endureceu.

"Está insinuando alguma coisa?"

"Ainda não. Quando eu insinuar, você vai perceber."

Augusto saiu sem se despedir.

Nina esperou a porta fechar.

"Ele é a pessoa que a Bia chama de homem da voz bonita."

Rafael parou de tocar no tablet.

"Você já o viu com ela?"

"Não. Ela fala de um homem que nunca grita. Quando ele fica bravo, fala mais baixo."

Dante e Rafael trocaram um olhar.

Aquilo descrevia metade dos homens treinados para exercer poder sem chamar atenção. Também descrevia Augusto.

Dante sentou-se diante da criança.

"Quero que me conte sobre Beatriz. Não precisa começar pelo que aconteceu hoje. Conte como vocês se conheceram."

Nina olhou para Mariana, que assentiu.

"Ela chegou depois das férias de julho. Não brincava com ninguém. No primeiro dia, ficou escondida perto da quadra. Eu perguntei se queria minha bolacha."

"Ela respondeu?"

"Perguntou se tinha castanha. Ela não pode comer."

Dante fechou os olhos por um instante.

Lívia tivera uma reação grave a castanhas aos quatro anos. Depois disso, ele passara a verificar pessoalmente tudo o que entrava na cozinha.

"O que mais?"

"Ela sabe francês. Às vezes conta até dez quando está nervosa. E não gosta de carro quando chove."

"Por quê?"

"Ela diz que o fogo começa com chuva."

Mariana sentiu Nina estremecer.

"Chega por hoje."

"Só mais uma pergunta", pediu Dante. "Ela já falou do pai?"

Nina assentiu.

"Disse que ele parou de procurar."

Dante ficou imóvel.

"Quem disse isso a ela?"

"A tia."

"Você viu essa mulher?"

"Uma vez. Ela usa óculos grandes e um lenço no pescoço. A Bia ficou dura quando viu o carro dela."

Rafael virou a tela para Nina e exibiu fotografias das pessoas ligadas à escola. A menina balançou a cabeça diante de professoras, funcionárias e mães.

正文1

Na imagem de uma mulher morena, com óculos escuros e lenço verde, ela apontou.

"Essa."

O nome abaixo da fotografia era Dra. Cecília Prado, responsável por uma clínica infantil que financiava bolsas no Santa Amélia.

Dante conhecia o nome.

Cecília assinara um parecer psicológico depois do acidente, recomendando que ele aceitasse a morte da filha e encerrasse as buscas clandestinas.

"Onde fica a clínica?"

"Moema", respondeu Rafael. "Mas fechou há seis meses. A empresa ainda possui dois imóveis."

Mariana se levantou.

"Agora vamos embora."

Dante também se levantou.

"Rafael vai acompanhá-las."

"Escolho Dona Teresa."

A governanta aguardava no corredor. Era a única mulher daquela casa que Nina parecera aceitar de imediato.

"Como prometi", disse Dante. "Dona Teresa irá. Dois carros de segurança manterão distância."

"Um carro."

"Dois."

"O senhor disse que eu escolheria."

Dante quase argumentou. Então olhou para Nina, que acompanhava a negociação com atenção.

"Um carro. Rafael escolhe a equipe."

Mariana aceitou.

Antes de sair, Nina voltou ao retrato. Tocou a moldura com a ponta dos dedos.

"Vou avisar quando seu pai encontrar você."

Dante ouviu.

"Como vai avisar?"

"A gente tem um lugar para deixar bilhete."

Mariana parou.

"Que lugar?"

"Na biblioteca da escola, atrás do livro do Sítio do Picapau Amarelo."

Rafael já estava telefonando quando Nina terminou.

Vinte minutos depois, uma equipe entrou no colégio vazio. Encontraram o livro, mas nenhum bilhete. Atrás dele havia apenas uma fotografia instantânea.

Nina e Beatriz apareciam sentadas no pátio, dividindo uma maçã. A menina chamada Beatriz tinha cabelos mais longos, estava mais magra e evitava a câmera.

Mesmo assim, Dante reconheceu a cicatriz acima da sobrancelha.

Reconheceu também o modo como ela prendia o dedo mínimo sob a palma quando sorria.

Era Lívia.

Sua filha estava viva.

Dante pediu que Rafael congelasse a imagem. Ampliada, ela revelou outros detalhes: um pequeno curativo no cotovelo, uma mochila verde e a barra do uniforme costurada à mão. Mariana reconheceu o tipo de ponto.

"Foi feito às pressas", disse. "Alguém ajustou uma roupa maior para ela."

Nina tocou a tela.

"A Bia nunca leva mochila para casa. A tia diz que tudo fica na escola."

"Então não queriam que ela carregasse bilhetes", concluiu Rafael.

Dante pediu as gravações das semanas anteriores. Em quase todas, Lívia chegava depois das outras crianças e saía antes do sinal. Nunca participava de festas, reuniões de pais ou atividades fora da escola. A fotografia com Nina só existia porque uma professora substituta não conhecia a proibição.

Mariana percebeu outra coisa. Em três imagens, Lívia deixava cair deliberadamente pequenos pedaços de fita azul perto do portão.

"Ela estava marcando o caminho."

Nina assentiu.

"Era nossa brincadeira. Se uma se perdesse, a outra deixava fita."

Rafael enviou agentes para procurar as marcas. Encontraram uma presa sob um banco e outra perto do local onde o sedã costumava estacionar. A terceira desaparecia na sarjeta.

Lívia não esperara passivamente por três anos.

Tentara construir uma rota de volta com os poucos recursos que uma criança possuía.

Dante segurou a mesa para não cair.

Durante três anos, visitara um túmulo vazio. Durante três anos, alguém alimentara sua filha com a certeza de que ele a abandonara.

Rafael recebeu outra imagem da equipe.

"As câmeras externas mantêm gravações locais."

Na tela, Beatriz saía pelo portão naquela tarde. Cecília segurava sua mão. A menina olhava para trás, procurando Nina.

Um sedã cinza esperava junto à calçada.

O motorista abriu a porta.

Rafael ampliou a imagem.

No dedo da mão direita, Cecília usava um anel de ônix com o brasão antigo dos Montenegro.

Havia apenas quatro anéis iguais.

Dante possuía um. Augusto possuía outro. O terceiro fora enterrado com o pai de Dante.

O quarto desaparecera na noite do acidente.

"Ela não é a tia", disse Dante. "É uma funcionária."

"De quem?"

Dante encarou o anel.

"De alguém que teve acesso ao corpo do meu pai, aos laudos da minha filha e à minha casa."

O telefone de Rafael vibrou.

A equipe recuperara uma linha da ficha apagada. Não era um endereço. Era uma observação de emergência:

Em caso de crise, não ligar para o pai. Contatar A.M.

Rafael não precisou dizer o nome.

Augusto Montenegro acabara de deixar a mansão sem escolta.

E seu celular estava desligado.

Dante ordenou que ninguém o alertasse. Se Augusto acreditasse que ainda controlava a narrativa, talvez conduzisse a equipe diretamente até Lívia.

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