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"A Filha da Empregada Levou Uma Lancheira Para a Filha Morta do Chefe da Máfia" Capítulo 1 — A Lancheira Diante do Retrato

正文开头

Nina Duarte atravessou o salão de homenagens com uma lancheira cor-de-rosa apertada contra o peito.

Oitenta convidados ficaram em silêncio antes que alguém percebesse por quê.

A menina de oito anos passara pelos garçons, por dois seguranças e pela governanta da Mansão Montenegro. Agora caminhava diretamente para a mesa coberta de lírios brancos, onde um retrato de Lívia Montenegro sorria entre velas acesas.

Naquela noite, completavam-se três anos desde a morte da filha de Dante Montenegro.

Ninguém deveria aproximar-se do retrato sem autorização.

Nina não sabia disso.

Mariana Duarte surgiu à porta da copa com uma bandeja nas mãos. O uniforme cinza denunciava sua posição naquela casa antes mesmo que os convidados olhassem para ela.

"Nina."

A voz saiu baixa, tomada pelo medo.

A filha não parou.

Dante Montenegro observava a cerimônia ao lado da lareira. Aos trinta e oito anos, comandava empresas de logística, segurança e construção que empregavam milhares de pessoas em São Paulo. Também comandava homens cujos nomes nunca apareciam nos relatórios oficiais.

Naquele salão, porém, ele não parecia um chefe.

Parecia apenas um pai diante da fotografia da menina que não conseguira salvar.

Nina colocou a lancheira diante do retrato.

Augusto Montenegro foi o primeiro a reagir.

"Tirem essa criança daí."

Dois seguranças deram um passo.

Nina ergueu o rosto para a fotografia.

"Eu trouxe seu lanche."

Mariana deixou a bandeja sobre uma mesa e correu.

"Nina, venha comigo agora."

A menina segurou a alça da lancheira.

"Mas foi ela que pediu."

Dante levantou os olhos.

"Quem pediu?"

Nina apontou para o retrato.

"A menina da foto. Ela estuda comigo."

O silêncio mudou.

Antes havia respeito. Agora havia choque.

Mariana alcançou a filha e segurou seus ombros.

"Desculpe, senhor Montenegro. Minha vizinha não pôde ficar com ela. Eu a deixei na copa por alguns minutos. Nina, peça desculpas."

"Não estou mentindo, mãe."

Augusto avançou. Tinha sessenta e um anos, cabelos de prata e a serenidade estudada de quem passara a vida falando por homens mais violentos.

"Dante, a menina viu o retrato em algum lugar. Isso é uma crueldade."

"Eu nunca vi essa foto", disse Nina.

Augusto fez um sinal aos seguranças.

"Levem as duas pela entrada de serviço."

Uma mão se aproximou do braço de Mariana.

Dante apareceu entre ela e o segurança.

Não levantou a voz.

"Ninguém toca nesta menina."

O homem recuou imediatamente.

Dante olhou para Nina. O rosto da criança no retrato tinha cinco anos. Cabelos castanhos, covinhas discretas e uma cicatriz fina acima da sobrancelha direita. A menina diante dele não parecia brincar.

"Como ela se chama?"

"Beatriz."

"Minha filha se chamava Lívia."

"Na escola, ela é Beatriz Nunes. Mas não gosta quando chamam muito alto."

Mariana sentiu os dedos da filha tremerem sob os seus.

"Nina, você pode estar confundindo."

"Não estou. Ela senta perto da janela. Não pode comer castanha e desenha cavalos com cinco pernas."

Dante empalideceu.

Lívia desenhava animais com cinco pernas desde os três anos. Dizia que a perna extra servia para correr mais depressa quando alguém precisava fugir.

正文1

Augusto percebeu a reação.

"Qualquer pessoa próxima da família poderia saber disso."

"Minha filha não conhece ninguém desta família", respondeu Mariana.

"Você trabalha nesta casa."

"Há doze dias. Nunca subi ao andar dos quartos e nunca vi esse retrato."

Dante indicou a lancheira.

"Abra."

Nina protegeu o objeto.

"Ela falou que só o pai podia abrir."

Alguns convidados se entreolharam. Augusto respirou fundo, como se lutasse para demonstrar paciência.

"Dante, não transforme uma brincadeira infantil num espetáculo. A imprensa está no jardim."

"Então mande a imprensa embora."

"A homenagem foi criada para a fundação que leva o nome de Lívia."

"Minha filha vale mais do que a fundação."

Dante se ajoelhou diante de Nina. O gesto provocou mais surpresa do que uma ordem armada teria provocado.

"Beatriz entregou isso a você?"

"Hoje, no recreio. Ela disse que amanhã não vai estar lá."

"Por quê?"

"A tia dela vai levá-la para longe."

"Que tia?"

"Ela não fala o nome. Fica com medo."

Dante estendeu a mão, mas não tocou na lancheira.

"Posso abrir?"

Nina o estudou com seriedade.

"Você é o pai dela?"

A pergunta atingiu Dante de um modo que ninguém naquele salão conseguiu ignorar.

"Sou."

"Então pode. Ela disse que você reconheceria."

Nina entregou-lhe a lancheira.

Era um objeto barato, com um unicórnio desbotado na tampa. Dante abriu o zíper devagar. Dentro havia um sanduíche intacto, uma caixinha de suco e um guardanapo dobrado.

Sob o guardanapo, encontrou metade de uma pulseira de prata.

O ar desapareceu de seus pulmões.

Ele mesmo mandara fazer aquela pulseira no nascimento de Lívia. Duas pequenas placas se uniam formando uma estrela. Uma ficara com a criança. A outra permanecia havia três anos no cofre de seu quarto.

Dante virou a peça.

No verso estava gravada uma letra L.

Rafael Moura, chefe da segurança, aproximou-se. Alto, negro e vestido de preto, ele raramente demonstrava emoção. Naquele momento, seu rosto perdeu a rigidez.

"Isso estava no pulso dela na noite do acidente."

"Não", disse Augusto. "A polícia não encontrou a pulseira."

Dante ergueu lentamente os olhos.

"Exatamente."

Augusto percebeu tarde demais o que acabara de revelar.

Mariana puxou Nina para junto do corpo. Já não temia apenas perder o emprego. Temia ter colocado a filha no centro de algo que homens como aqueles enterravam junto com os mortos.

Dante fechou a lancheira.

"Rafael, tranque os portões. Recolha os telefones de todos que viram isto."

"Dante", protestou Augusto. "São convidados, não prisioneiros."

"Podem sair assim que minha equipe confirmar que ninguém avisou quem levou a menina da escola."

Ele se voltou para Mariana.

"A senhora e sua filha ficam."

"Não vou permitir que interroguem Nina."

Alguns convidados prenderam a respiração diante da recusa.

Dante não se irritou.

"Ela não será interrogada. Vai me contar apenas o que quiser."

"E depois?"

"Depois eu levo vocês para casa."

Mariana olhou para os portões fechados.

"Com homens armados?"

"Com proteção."

"Essas duas coisas podem parecer iguais para o senhor. Para nós, não."

Dante sustentou o olhar dela.

Havia três anos, ninguém naquela casa questionava suas decisões quando o assunto era Lívia. Augusto administrara documentos. Rafael coordenara buscas. Médicos entregaram laudos. Dante assinara papéis e transformara a dor em ordens.

Agora uma empregada exigia que ele percebesse a diferença entre proteger e aprisionar.

"A senhora escolhe quem as acompanha", disse. "Mas não saiam sozinhas. Se Beatriz for Lívia, a pessoa que a escondeu já sabe que Nina trouxe esta lancheira."

Mariana olhou para a filha.

Nina não parecia compreender o perigo. Observava o retrato com tristeza.

"Ela sempre guarda metade do lanche", contou. "Diz que talvez o pai apareça com fome."

Dante apertou a pulseira até a borda marcar sua pele.

Rafael voltou com um tablet.

"Chefe, encontrei a escola. Colégio Santa Amélia, Vila Mariana. Há uma Beatriz Nunes matriculada no terceiro ano."

Dante respirou pela primeira vez desde que abrira a caixa.

"Quero a ficha dela."

Rafael tocou a tela. Sua expressão mudou.

"Havia uma ficha."

"Havia?"

"Foi apagada há quatro minutos."

Uma das velas diante do retrato estalou.

Dante voltou-se para os convidados.

Alguém naquele salão avisara a pessoa que mantinha sua filha escondida.

E essa pessoa acabara de começar a fugir.

Dante fechou a mão sobre a pulseira. Pela primeira vez em três anos, o retrato sobre a mesa deixou de parecer uma despedida. Tornou-se uma testemunha.

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