"O Número na Conta do Chefe da Máfia" Capítulo 2 — Tranque o Restaurante
“Bruno.”
Dante disse o nome sem levantar a voz.
Marina nem tinha visto o homem entrar.
Um sujeito alto, negro, de terno escuro, surgiu pela lateral do salão como se já estivesse ali havia horas.
Talvez estivesse.
Dante apontou discretamente para a frente.
“Porta principal.”
Depois para a cozinha.
“Fundos.”
Bruno entendeu imediatamente.
“Quantos?”
“Dois na frente. Um atrás.”
Marina corrigiu:
“Três.”
Bruno olhou para ela.
“Tem certeza?”
“O banco traseiro do sedã afundou quando ele virou. Tem alguém atrás.”
Bruno tornou a encará-la.
Desta vez, demorou um segundo a mais.
Dante não.
“Tranque o restaurante.”
Toninho largou a espátula.
“O quê?”
Dante falou mais alto.
“Ninguém entra. Ninguém sai.”
Patrícia levantou-se assustada.
Os dois últimos clientes olharam para a porta.
Osvaldo Braga apareceu do corredor administrativo.
“Quem você pensa que é para fechar meu restaurante?”
Dante virou o rosto lentamente.
Osvaldo reconheceu-o.
A coragem desapareceu.
“Senhor Montenegro…”
“Agora você sabe.”
Bruno trancou a porta.
Marcelo parou do outro lado do vidro.
Não tentou entrar.
Aquilo deixou Marina ainda mais nervosa.
Ele nunca fazia nada sem motivo.
O celular vibrou novamente.
Abra a porta, Marina.
Ela apagou a mensagem.
Dante percebeu.
“Mostre.”
“Não.”
“Ele está falando com você.”
“Continua não sendo da sua conta.”
“Três homens cercaram um restaurante enquanto eu estou dentro dele. Virou da minha conta.”
Marina guardou o aparelho no bolso.
Marcelo aproximou-se do vidro.
Seis anos tinham deixado fios grisalhos nas têmporas.
O resto permanecia igual.
Postura reta.
Rosto comum.
Olhos que pareciam pacientes mesmo quando ameaçavam alguém.
Ele ergueu uma mão.
Havia alguma coisa entre seus dedos.
Marina deu um passo para trás.
Um distintivo antigo.
Não.
Não era exatamente um distintivo.
Era o pequeno emblema metálico do setor onde ela trabalhara.
O mesmo modelo que entregara na manhã em que deixou o COPOM.
Dante percebeu sua reação.
“Polícia?”
Marina não respondeu.
Marcelo encostou o objeto no vidro.
Depois apontou para ela.
Bruno falou ao telefone com alguém.
“Placa da frente é clonada.”
Marina olhou imediatamente.
“Eu sabia.”
Bruno se virou.
“Como?”
“A tipografia do segundo número está errada.”
“Você viu isso daqui?”
“Vi quando entrou.”
Bruno olhou para Dante.
A mensagem silenciosa era evidente.
**Quem é essa mulher?**
Dante tinha a mesma pergunta.
“Marina.”
Ela não gostou da maneira como ele disse seu nome.
“Quem é aquele homem?”
“Marcelo Ferraz.”
“Policial?”
“Era.”
“E você?”
Ela ficou em silêncio.
Osvaldo apareceu atrás deles.
“Marina, que história é essa?”
“Nenhuma.”
“Tem homens armados no meu estacionamento por sua causa!”
Toninho saiu de trás do balcão.
“Cala a boca, Osvaldo.”
“Você não se mete.”
“Ela trabalha aqui há três anos. Você só aparece para contar dinheiro.”
Osvaldo apontou para Marina.
“Eu sabia que tinha alguma coisa errada com essa mulher.”
Marina não reagiu.
Já ouvira coisas piores.
Dante reagiu.
“Chega.”
Uma única palavra.
Osvaldo fechou a boca.
Marcelo levantou o telefone.
O aparelho de Marina tocou.
Ela recusou.
Tocou novamente.
Recusou.
Na terceira vez, Dante estendeu a mão.
“Atenda.”
“Você acabou de descobrir meu nome há quatro meses e agora quer dar ordens?”
“Não.”
Ele olhou para Marcelo.
“Quero saber por que um homem que você teme mais do que três homens possivelmente armados atravessou São Paulo para encontrar uma garçonete.”
Marina sentiu a frase atingir exatamente onde não queria.
Pegou o telefone.
Atendeu.
Não falou.
A voz de Marcelo chegou baixa.
“Você nunca aprendeu a obedecer.”
Marina apertou o aparelho.
“E você nunca aprendeu a morrer.”
Silêncio.
Marcelo riu uma vez.
“Continua igual.”
“Você me encontrou. O que quer?”
“Salvar sua vida.”
Marina quase desligou.
“Seis anos atrasado.”
“Não. Seis anos mantendo você viva.”
Ela congelou.
Dante observava cada mudança em seu rosto.
Marcelo continuou:
“Você viu a placa, não viu?”
Marina olhou para o sedã.
“Vi.”
“E escreveu para ele.”
O estômago dela apertou.
Como Marcelo sabia?
“Você está me observando?”
“Marina, escute com atenção. Essa placa não deveria existir.”
“Por quê?”
“Porque o carro que usava essa placa foi destruído há seis anos.”
Ela parou de respirar por um instante.
“Do que você está falando?”
“Abra a porta.”
“Não.”
“Então vai morrer sem entender nada.”
A ligação caiu.
Marina baixou o telefone.
Dante perguntou:
“O que ele disse?”
“Nada.”
“Seu rosto discorda.”
Bruno se aproximou.
“Dante.”
Algo em seu tom mudou o ambiente.
“O terceiro homem saiu do sedã.”
“E?”
“Está indo para os fundos.”
Marina olhou para a cozinha.
“Não.”
Correu.
Dante segurou seu braço.
“Solta!”
“Você não vai até lá.”
“Toninho deixou a porta de entrega destrancada antes do fechamento.”
O cozinheiro empalideceu.
“Merda.”
Bruno correu.
Um barulho metálico ecoou nos fundos.
Depois outro.
Patrícia gritou.
Dante empurrou Marina atrás do balcão.
“Fique abaixada.”
Ela se soltou.
“Para de me tratar como se eu fosse uma criança.”
“Então pare de correr em direção ao perigo.”
“Eu sei exatamente onde está o perigo!”
Dante ficou imóvel.
A frase saiu forte demais.
Marina percebeu.
Ele também.
Bruno reapareceu.
“Sozinho. Fugiu quando me viu.”
“Pegou alguma coisa?”
“Não.”
“Deixou.”
Bruno segurava um envelope.
Marina reconheceu a caligrafia antes mesmo de tocá-lo.
Marcelo.
Na frente havia apenas:
PARA MARINA DUARTE.
Dante pegou o envelope.
Ela arrancou da mão dele.
“Meu nome.”
“Abra.”
Marina rasgou o papel.
Dentro havia uma fotografia.
Velha.
Seis anos antes.
Uma mulher de cabelos escuros entrando em um carro.
No verso:
23h47. Você atendeu a ligação às 23h51.
Marina sentiu o salão desaparecer.
Aquela hora.
Ela conhecia.
Nunca esquecera.
Dante tomou a foto de sua mão.
O rosto dele mudou.
Não foi surpresa.
Foi alguma coisa muito pior.
Ele olhou novamente.
“De onde você conseguiu isso?”
“Marcelo.”
“Não estou perguntando quem entregou.”
Dante ergueu a fotografia diante dela.
“Estou perguntando por que você tem uma foto dessa mulher.”
Marina sentiu um arrepio.
“Você conhece?”
Dante não respondeu imediatamente.
Sua mão apertou a borda da fotografia.
“Renata.”
“Quem?”
Os olhos dele encontraram os de Marina.
“Renata Montenegro.”
O sobrenome atingiu primeiro.
Depois a compreensão.
Dante respirou fundo.
“Minha irmã.”
Marina sentiu o chão sumir.
Não.
Era impossível.
Durante seis anos, aquela mulher fora apenas uma voz.
Uma voz aterrorizada em uma ligação que não deveria existir.
Dante aproximou-se.
“O que minha irmã tem a ver com você?”
Marina abriu a boca.
Nenhum som saiu.
Porque finalmente entendeu por que Marcelo aparecera.
Por que a placa importava.
Por que aquele passado estava voltando.
E, principalmente, por que Dante Montenegro entrara justamente no restaurante onde ela havia se escondido.
Talvez aquilo nunca tivesse sido coincidência.
Marina olhou para a fotografia outra vez.
“Eu não conheci sua irmã.”
Dante endureceu.
“Então explique.”
Marina levantou os olhos.
“Eu só ouvi a voz dela uma vez.”
“Quando?”
Ela demorou três segundos.
“Na noite em que ela desapareceu.”
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