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"O Número na Conta do Chefe da Máfia" Capítulo 1 — O Número na Conta

正文开头

Marina Duarte aprendera a desaparecer sem sair do lugar.

Havia três anos, trabalhava no turno da noite do Restaurante Estrada 47, numa saída pouco movimentada da Rodovia Raposo Tavares, perto de São Roque.

Era o tipo de lugar onde caminhoneiros paravam por causa do estacionamento, famílias pediam café antes de seguir viagem e gente perdida entrava porque o próximo restaurante ficava longe demais.

Ninguém ia até ali por causa de Marina.

E ela gostava assim.

Aos trinta e quatro anos, Marina sabia servir seis mesas sem anotar um pedido. Reconhecia clientes pelo barulho do carro entrando no estacionamento e percebia uma discussão antes que a primeira voz fosse levantada.

Os outros chamavam aquilo de experiência.

Toninho Ribeiro não.

O cozinheiro de sessenta e um anos observava Marina havia tempo suficiente para saber que aquilo era outra coisa.

Naquela quinta-feira, ele colocou dois pratos no balcão e perguntou:

“Você viu de novo, não viu?”

Marina ergueu os olhos.

“Vi o quê?”

“O homem da mesa do canto.”

Ela não precisou olhar.

Dante Montenegro estava exatamente onde sempre ficava.

Mesa sete.

Costas para a parede.

Visão da entrada.

Reflexo do estacionamento na janela.

Café preto.

Uma fatia de torta de limão.

Dante aparecera pela primeira vez quatro meses antes.

Marina inicialmente pensara que fosse apenas um empresário rico passando pela região.

Na terceira visita, percebeu que ele jamais se sentava por acaso.

Na quinta, ouviu dois caminhoneiros cochichando o nome dele.

Dante Montenegro.

Grupo Montenegro.

Transportadoras.

Construtoras.

Casas noturnas.

Contratos milionários.

E uma palavra pronunciada quase sem voz.

Máfia.

Marina não acreditava em tudo que escutava.

Mas acreditava em comportamento.

E Dante se comportava como um homem que nunca entrava em um lugar sem saber como sair.

“Ele só quer café”, Marina respondeu.

Toninho soltou uma risada curta.

“E eu sou o Neymar.”

Ela pegou a cafeteira.

“Você está um pouco velho.”

“Respeita o cozinheiro.”

Marina quase sorriu.

Foi então que viu os faróis.

Um sedã preto entrou no estacionamento.

Ela continuou andando.

O carro passou por três vagas vazias.

Não estacionou.

Parou inclinado, de frente para o restaurante.

Marina diminuiu o passo.

Dois homens.

Motor ligado.

O passageiro olhando para dentro.

Ela colocou café na mesa de uma enfermeira chamada Patrícia.

“Obrigada, querida.”

“Imagina.”

Marina voltou ao balcão.

Olhou para a janela apenas pelo reflexo da máquina de refrigerantes.

O carro continuava lá.

“Marina.”

Toninho chamou.

Ela não respondeu.

O passageiro se mexeu.

A jaqueta abriu ligeiramente.

Havia um volume estranho perto da lateral do corpo.

O coração de Marina deu uma batida forte.

Seis anos desapareceram em um segundo.

Ela voltou a ouvir vozes nos fones de ouvido.

Gente chorando.

Portas sendo arrombadas.

Respiração acelerada.

Mulheres tentando pedir ajuda sem dizer que estavam pedindo ajuda.

Homens jurando que estava tudo bem enquanto alguém gritava ao fundo.

COPOM.

Marina fechou os olhos por meio segundo.

Não.

Aquela vida tinha acabado.

Olhou para Dante.

正文1

Ele cortava a torta calmamente.

Não tinha percebido o carro.

Ou fingia não ter percebido.

Ela poderia avisá-lo.

Seria um erro.

Se os homens estivessem observando Dante, qualquer reação poderia denunciá-la também.

Poderia ligar para a polícia.

E dizer o quê?

Dois homens estavam sentados dentro de um carro?

Marina pegou a cafeteira.

Caminhou até Dante.

Ele ergueu a xícara.

Ela serviu.

Dante percebeu quando seus olhos desviaram por uma fração de segundo para a janela.

“Algum problema?”

Era provavelmente a frase mais longa que ele lhe dirigira em quatro meses.

“Provavelmente não.”

Os olhos escuros permaneceram nela.

Dante sabia reconhecer mentira.

Marina também.

Ela se afastou.

“Está tudo bem?”, Toninho perguntou.

“Está.”

Outra mentira.

Marina chegou ao caixa.

A conta de Dante estava impressa.

**R$ 14,80.**

Ela segurou o papel.

Olhou novamente pelo reflexo.

O sedã não se movera.

De repente, lembrou-se de uma ligação recebida anos antes.

Uma mulher telefonara para o COPOM fingindo pedir pizza.

O homem que a ameaçava estava ao lado dela.

A mulher não podia dizer “socorro”.

Então falou de queijo.

De endereço.

De entrega.

Marina entendeu.

Comunicação não dependia das palavras certas.

Dependia de alguém capaz de perceber o que estava escondido.

Ela pegou uma caneta.

Tinha visto a placa quando o carro passou sob a luz do letreiro.

Marina nunca esquecia placas.

Escreveu os caracteres abaixo do total.

Pequenos.

Discretos.

Fechou a comanda.

Caminhou até Dante.

Colocou-a ao lado da xícara.

“Boa noite.”

Virou-se.

Dez segundos.

Vinte.

Marina começou a recolher copos de outra mesa.

Então o restaurante ficou silencioso demais.

Ela olhou.

Dante encarava a conta.

Não os R$ 14,80.

A linha abaixo.

Os olhos dele foram até a janela.

Encontraram a placa.

Voltaram para o papel.

Dante se levantou.

Deixou dinheiro sob a xícara e caminhou diretamente até Marina.

“Quem mandou você escrever isso?”

“Ninguém.”

“Pense antes de responder.”

“Eu não preciso pensar.”

Ele se aproximou um pouco.

“Você viu o carro chegar?”

“Vi.”

“Há quanto tempo?”

“Doze minutos.”

“Dois homens?”

“Sim.”

“O passageiro?”

Marina baixou a voz.

“A jaqueta dele não está caindo naturalmente.”

Dante ficou imóvel.

A resposta significava algo para ele.

“Como você percebeu?”

“Porque estava olhando.”

“Garçonetes não olham desse jeito.”

Marina sustentou os olhos dele.

“Talvez as que você conhece não.”

Por um instante, Dante quase sorriu.

Então seus olhos passaram por cima do ombro dela.

O sorriso desapareceu antes de existir.

O sedã estava se movendo.

Não ia embora.

Estava mudando de posição.

Toninho saiu da cozinha.

“Que diabos está acontecendo?”

Dante pegou o celular.

“Fique dentro do restaurante.”

Marina franziu a testa.

“Você não manda em mim.”

Dante olhou para ela.

“Hoje eu mando.”

Antes que Marina respondesse, uma luz atravessou as pequenas janelas da cozinha.

Outro motor.

Outro carro.

Atrás do restaurante.

Marina virou o rosto.

Um SUV cinza acabara de parar perto da entrada de serviço.

O motorista não desceu.

A luz interna acendeu por alguns segundos.

Foi suficiente.

Marina viu o rosto.

A cafeteira escapou de sua mão.

Toninho conseguiu segurá-la antes que atingisse o chão.

“Marina?”

Ela não ouviu.

Seis anos.

Seis anos sem aquela voz.

Sem aquele rosto.

Sem aquele nome.

O telefone no bolso do uniforme vibrou.

Marina não queria olhar.

Olhou.

Número desconhecido.

A mensagem tinha apenas uma linha.

Você devia ter continuado desaparecida.

Dante viu a cor desaparecer do rosto dela.

“Você conhece aquele homem.”

Marina fechou a tela.

“Não.”

“Não minta para mim.”

Ela encarou o carro.

O motorista finalmente abriu a porta.

Um sapato preto tocou o asfalto molhado.

Depois o outro.

O homem levantou o rosto.

Marcelo Ferraz.

Seu antigo superior.

O homem que destruíra sua carreira.

O último homem que Marina vira antes de abandonar São Paulo.

Dante ficou ao lado dela.

“Eles não vieram por mim, vieram?”

Marina não respondeu.

Não precisava.

Marcelo atravessou o estacionamento olhando diretamente para ela.

E Marina compreendeu a verdade que tentara evitar durante seis anos.

O número que ela escrevera na conta de Dante não tinha salvado apenas a vida dele.

Tinha revelado que ela ainda estava viva.

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