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"Amarraram Minha Filha. Disseram Que Ela Era Louca." Parte 2 — Não Solte a Minha Mão

正文开头

Parte 2 — Não Solte a Minha Mão

“Peça que registrem a recusa dela e que um médico do plantão a examine”, disse André. “Não assine nada sem ler. Estou saindo.”

Guardei o telefone quando a enfermeira voltou acompanhada de um homem de camisa azul.

“Sou Paulo, supervisor do plantão. O que está acontecendo?”

Beatriz respondeu antes de mim.

“A mãe da paciente chegou agressiva e interrompeu uma transferência autorizada.”

Paulo olhou para o funcionário da remoção.

Depois, para os pulsos de Camila.

“Quem é o médico responsável?”

“O doutor Álvaro Siqueira”, disse Rodrigo.

“Ele está aqui?”

“Está finalizando o encaminhamento.”

Aproximei-me do supervisor.

“Minha filha quer falar com o senhor.”

Beatriz abriu a boca, mas Camila ergueu a voz.

“Eu não quero ir para a Boa Vista. Não autorizei meu marido a me levar. Quero ser examinada sem ele na sala.”

Paulo manteve os olhos nela.

“Qual é o seu nome completo?”

“Camila Duarte.”

“Você sabe onde está?”

“No Santa Helena. Meu marido me trouxe. Eu pedi para ligarem para minha mãe.”

“Que dia é hoje?”

Ela respondeu e, em seguida, apontou para Rodrigo.

“Ele me bateu.”

Meu genro deu uma risada curta.

“Ela está repetindo isso desde que começou a crise.”

Paulo virou-se para a enfermeira.

“Chame a médica do plantão. A transferência vai aguardar a avaliação.”

O homem junto ao elevador pegou o rádio.

Beatriz encostou a pasta no peito.

“O senhor está contrariando uma orientação médica.”

“Estou pedindo que ela seja revisada aqui.”

“Quer que eu telefone para a direção?”

“O telefone fica no posto, senhora.”

Foi a primeira vez naquela madrugada que alguém respondeu a Beatriz sem baixar a voz.

Camila soltou meus dedos apenas para mudar o medalhão de mão.

A enfermeira percebeu.

“Posso guardar seus pertences num envelope?”

“Esse não.”

Ela não insistiu.

“Tudo bem. Vou tirar você daqui do corredor.”

Os dois homens da remoção tentaram voltar para a maca, mas Paulo indicou outra direção.

“A equipe do hospital acompanha.”

Beatriz ficou parada diante do elevador aberto.

Pela primeira vez, foi ela quem precisou sair do caminho.

Entramos numa sala de atendimento. Camila olhou para a porta, depois para mim.

“Fica aberta.”

A enfermeira a deixou entreaberta.

“Vou avisar antes de fechar, está bem?”

Minha filha concordou.

A médica chegou minutos depois. Apresentou-se como Renata e aproximou uma cadeira da maca.

“Camila, quero ouvir você. Posso examinar seus braços e seu rosto?”

“Pode.”

“Você recebeu algum medicamento hoje?”

“Deram alguma coisa quando entrei. Não disseram o nome.”

Renata pediu a ficha à enfermeira.

Eu senti uma vontade quase física de sair à procura de Rodrigo.

Mantive as mãos sobre a bolsa.

A médica examinou Camila, fez perguntas e pediu que verificassem o que havia sido administrado.

Depois avaliou as contenções.

“Vamos retirar as correias. Se sentir tontura, não tente levantar sozinha.”

A enfermeira soltou primeiro o braço direito.

Camila levou a mão livre ao pulso esquerdo.

正文1

Ali havia uma faixa vermelha e um pequeno corte.

Quando a segunda correia caiu, minha filha não se ergueu nem gritou.

Apenas cobriu o rosto.

Eu me sentei ao lado dela.

“Acabou essa parte.”

Ela chorou sem fazer barulho.

Renata aguardou antes de continuar.

Precisava examinar sua cabeça, avaliar a dor nas costelas e verificar outras lesões. Camila respondeu às perguntas, mas algumas respostas vinham entre pausas longas.

Não a apressei.

Quando a médica perguntou como havia se machucado, ela olhou para mim.

“Eu vou ficar”, falei. “Mas você pode pedir que eu saia, se preferir.”

“Não. Quero que você ouça.”

Camila engoliu em seco.

“Ele me segurou no escritório. Eu tentei sair. Rodrigo me empurrou contra a mesa e depois me bateu.”

A ponta da caneta parou por um instante.

Renata continuou registrando.

“Isso aconteceu hoje?”

“Pouco antes de me trazerem.”

“Alguém mais estava lá?”

“A mãe dele chegou depois. Marcelo também.”

Minha filha puxou o lençol sobre as pernas.

“Eu disse que queria ir embora. Rodrigo pegou meu celular.”

A enfermeira levantou os olhos.

“Foi por isso que você pediu o meu.”

Camila confirmou.

Olhei para ela.

“Foi você que ligou?”

“Ela sabia seu número de cabeça.”

Eu teria abraçado aquela mulher, mas Camila estava falando.

“Eu só consegui pedir quando ele saiu para buscar a pasta.”

Renata perguntou se ela queria que as lesões fossem fotografadas para documentação clínica.

Camila assentiu.

“Quero que fique registrado.”

A voz ainda tremia.

A decisão, não.

Enquanto a equipe cuidava dela, procurei Paulo no posto, a poucos passos da sala.

“Quero pedir a preservação das imagens do corredor e dos registros dessa transferência.”

Ele puxou uma folha.

“Vou encaminhar à administração.”

“Preciso de uma cópia do pedido, com horário.”

Paulo me olhou melhor.

Talvez até então tivesse enxergado apenas o uniforme e a mulher que interrompera a maca.

“Pode escrever aqui.”

Registrei os locais: entrada da emergência, corredor, elevador de serviço. Incluí os documentos de admissão e transferência.

Não sabia o que cada câmera havia captado.

Sabia que, se esperasse até amanhecer, alguém poderia dizer que aquela imagem não existia mais.

Paulo recebeu o pedido e providenciou uma cópia.

Quando me virei, Beatriz estava atrás de mim.

“Você está fazendo uma escolha muito ruim.”

“Estou pedindo que conservem o que aconteceu.”

“Camila trabalha numa empresa que atende hospitais em todo o país. Há contratos, informações sigilosas. Você não sabe o que ela fez.”

“Se sabe, conte ao responsável.”

Beatriz olhou para a folha na minha mão.

“Podemos poupar sua filha de muita exposição.”

“Comece ficando longe dela.”

Voltei à sala.

Camila havia recebido uma compressa e estava apoiada em travesseiros. A enfermeira trouxera um envelope para a corrente rompida.

O medalhão continuava em sua mão.

Renata explicou os próximos exames e informou que a transferência permaneceria suspensa enquanto a situação fosse reavaliada.

Pedi que repetisse para Camila.

Minha filha precisava ouvir que a decisão dizia respeito a ela.

Quando ficamos sozinhas, sentei-me outra vez.

“Por que você não me ligou antes?”

Vi a mudança no rosto dela e me arrependi da pergunta.

Camila baixou os olhos.

“Eu achei que conseguia sair.”

“Não estou cobrando. Estou tentando entender.”

“Ele deixou a chave em cima da mesa. Eu pensei que, se esperasse…”

Ela parou.

Apertei sua mão aberta, tomando cuidado com o pulso.

“Você conseguiu pedir ajuda. Eu estou aqui.”

Rodrigo apareceu na porta.

Atrás dele, um segurança do hospital.

“Preciso conversar com minha esposa.”

Camila recuou contra o travesseiro.

“Eu não quero.”

“São dois minutos.”

“Ela respondeu”, falei.

Rodrigo respirou fundo e mudou de tom.

“Camila, você sabe que levou material da empresa. Isso não é uma brincadeira. Minha mãe está tentando impedir que as coisas fiquem piores.”

Ela olhou para a mão dele.

“Foi por isso que você me bateu?”

“Não vou aceitar essa acusação.”

“Então vá embora.”

Ele apontou para o medalhão.

“Me devolva o que é meu e eu saio.”

O segurança se moveu, colocando-se entre Rodrigo e a porta.

Meu genro percebeu o que havia dito.

Endireitou os ombros.

“Estou falando de documentos.”

Ninguém lhe perguntara sobre documentos.

Quando ele se afastou, Camila puxou meu braço para perto.

“Mãe, eles não estão com medo de eu me machucar.”

Esperei.

Ela abriu os dedos, mostrando a joia.

“Estão com medo de eu conseguir contar o que eles fizeram.”

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