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"Jogaram Minha Foto de Casamento no Lixo. Eu Ainda Estava Viva." Parte 9 — A letra de Antônio

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Parte 9 — A letra de Antônio

Três semanas depois, levei a fotografia a uma pequena vidraçaria perto do mercado.

O homem atrás do balcão retirou o porta-retrato da sacola e examinou a rachadura.

“Quer trocar a moldura também?”

“Só o vidro.”

Ele passou o dedo pela marca na madeira.

“Esta parte aqui dá para restaurar.”

“Pode deixar.”

Fez uma anotação no pedido e perguntou quando eu precisava.

“Não tenho pressa.”

Era verdade.

Durante dias, cada decisão parecera urgente. Guardar arquivos, responder à advogada, combinar a retirada, impedir outra mentira.

Agora eu podia esperar por um pedaço de vidro.

Ao voltar, comprei tinta para o quarto dos fundos.

O vendedor perguntou se eu já sabia a metragem. Tinha levado tudo anotado num papel.

Aquele cômodo não seria um lugar improvisado para eu dormir.

Queria tirar as caixas, consertar a entrada de água e transformá-lo num espaço de leitura. Havia uma janela voltada para o jardim. Quando a abri naquela manhã, a luz caiu sobre a parede inteira.

Telefonei para um pedreiro que fizera um serviço para Célia.

Combinei uma visita.

Depois, comecei a separar o que precisava sair.

Encontrei ferramentas de Antônio, embalagens vazias, um ventilador que ainda funcionava e pastas que tinham passado anos de uma prateleira para outra.

A maior continha notas de materiais elétricos.

Sentei no chão para conferir.

Entre dois recibos havia uma folha arrancada de um bloco.

Reconheci a letra antes de ler.

Antônio escrevia o número sete com um traço atravessado. Usava letras pequenas para economizar espaço e sublinhava tarefas que esquecia com frequência.

Na folha estavam anotados um telefonema para o encanador, lâmpadas para o corredor e a revisão do seguro.

Mais abaixo, havia meu nome.

“Lembrar Teresa de conferir os papéis da casa comigo. Se eu faltar antes, ela não pode deixar ninguém fazer com que se sinta visita aqui dentro.”

Fiquei segurando o papel pelos cantos.

Não era uma carta de despedida.

Não continha uma revelação sobre a propriedade.

Era uma tarefa entre outras tarefas, escrita por um homem que ainda esperava trocar lâmpadas e reclamar do orçamento do encanador.

Talvez por isso eu tenha chorado.

Antônio não precisava imaginar um caminhão nem uma assinatura copiada para entender que eu tinha o hábito de abrir espaço para todos e ficar com o que sobrava.

Passei o polegar perto da última frase, sem tocar na tinta.

Lembrei de uma noite em que Marcelo nos pedira dinheiro para o restaurante. Eu estava calculando o que poderia tirar da reserva.

Antônio perguntou:

“E a viagem que você queria fazer?”

Respondi que podia esperar.

Ele não discutiu na frente do nosso filho. Mais tarde, no quarto, disse que eu precisava aprender a incluir meu nome nas contas.

Na época, achei que ele estava preocupado demais.

Agora eu estava sentada no chão de um depósito, lendo um lembrete que ele não chegara a me entregar.

Célia me encontrou ali.

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Bateu na porta aberta e perguntou se eu precisava de ajuda.

Estendi a folha.

Ela leu sem dizer nada.

Depois sentou numa caixa baixa, perto de mim.

“Você lembra disso?”

“Não.”

“Ele te conhecia.”

Assenti.

Chorei até a dor mudar de lugar. Já não era apenas o que Marcelo fizera. Era também a saudade de ter alguém que percebesse quando eu desaparecia das minhas próprias escolhas.

Guardei a folha numa capa transparente.

Naquela tarde, telefonei ao pedreiro para confirmar o serviço.

Pedi que consertasse o rodapé, verificasse a infiltração e me desse um orçamento por escrito.

Não mencionei Marcelo.

Não perguntei se a reforma poderia atrapalhar uma futura volta dele.

Na segunda-feira seguinte, fui ao escritório de Beatriz prestar os esclarecimentos que ainda faltavam.

Levei a autorização antiga, conferi a sequência dos acontecimentos e respondi ao que conseguia responder.

Quando não lembrava uma hora exata, disse que não lembrava.

Não precisava saber cada minuto para conhecer a própria história.

Os arquivos apresentados por Fábio estavam sendo examinados junto aos demais elementos. A advogada me explicou os próximos passos sem prometer uma conclusão imediata.

Também informou que a situação de uso da casa precisava ser formalmente encerrada, apesar de Marcelo e Vanessa terem retirado os pertences.

Eu queria tudo resolvido.

Mas já não confundia demora com derrota.

Ao sair, encontrei uma mensagem de Regina.

Ela convidava Célia e eu para almoçar no sábado.

Aceitei antes de pensar numa desculpa.

Passei anos recusando convites porque Marcelo podia precisar de mim, porque havia uma entrega, uma conta, uma conversa marcada.

Dessa vez, anotei o endereço e perguntei o que levar.

O quarto dos fundos começou a mudar naquela semana.

A escada foi para a garagem. O ventilador ganhou um lugar no alto da estante. As pastas de Antônio ficaram organizadas em caixas identificadas.

Comprei uma poltrona azul usada, em bom estado, e uma mesa pequena.

Quando o vendedor perguntou se eu precisava falar com alguém antes de confirmar, respondi:

“Não. Pode reservar.”

Senti uma alegria tão simples que quase fiquei constrangida.

No dia em que busquei a fotografia, coloquei-a sobre a mesa nova.

O vidro estava limpo.

A marca da queda continuava na moldura.

Ao lado, deixei a folha de Antônio dentro de uma pasta, protegida da luz. Não queria transformá-la numa ordem dele. Queria poder relê-la quando precisasse lembrar que alguém já me desejara uma vida maior do que as urgências do meu filho.

Naquela noite, uma mensagem de Marcelo chegou depois das dez.

Ele dizia que Osvaldo contratara um advogado e queria fazer uma última proposta.

Não respondi diretamente.

Encaminhei a Beatriz.

Dois dias depois, ela me chamou ao escritório para examiná-la.

A proposta incluía o reconhecimento de que o imóvel era meu, o encerramento de qualquer pretensão de uso baseada no acordo e o pagamento de parte dos danos.

Li devagar.

Então cheguei à condição.

Eu deveria declarar que, embora não tivesse assinado o documento apresentado, havia consentido com sua preparação e que sua utilização decorrera de uma falha de comunicação.

Pousei a folha.

“Eles mudaram as palavras.”

“E mantiveram a exigência”, Beatriz respondeu.

Havia também um pedido de reunião com todos os envolvidos.

Por alguns segundos, imaginei outra mesa, outra caneta, Marcelo esperando que eu resolvesse aquilo antes de ir embora.

Olhei para a advogada.

“Eu vou.”

“Você não precisa aceitar nada para participar.”

“Eu sei.”

Beatriz fechou a pasta.

“Quer que eu responda por você?”

Pensei na mala rosa parada no meu quarto. Na chave que Marcelo deixara sobre a mesa. No lembrete de Antônio entre notas de encanador e lâmpadas.

“Marque a reunião”, falei. “Dessa vez, quero que eles me escutem até o fim.”

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