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"Jogaram Minha Foto de Casamento no Lixo. Eu Ainda Estava Viva." Parte 6 — O papel que ele entregou

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Parte 6 — O papel que ele entregou

Marcelo chegou às dez da manhã de domingo.

Eu o vi pela janela antes de abrir.

Estava com a barba por fazer e a mesma mochila que levara na sexta. Apertou a campainha uma vez, esperou e depois olhou para a câmera acima do portão.

Célia estava na cozinha.

Beatriz sabia da visita e tinha pedido que eu não assinasse nada. As conversas sobre a ocupação continuariam por escrito; meu filho, porém, podia sentar à minha mesa e responder uma pergunta.

Abri o portão.

Ele tentou me abraçar.

Dei um passo para o lado.

“Pode entrar.”

Marcelo olhou para a poltrona, de volta ao lugar, e para a mesa que os carregadores haviam recolocado.

“Arrumou tudo?”

“O que consegui.”

Ele deixou a mochila perto da cadeira.

Quando viu Célia, seu rosto mudou.

“Eu pedi para conversar sozinho com você.”

“Ela não vai participar.”

“Mas vai escutar.”

“Na sexta, seu sogro, sua sogra e sua mulher falavam ao mesmo tempo comigo. Hoje você pode conversar com uma pessoa na cozinha.”

Ele puxou a cadeira.

Não ofereci café.

Sentei do outro lado, com os dois papéis sobre a mesa. A autorização antiga estava numa capa transparente; a imagem do acordo, impressa.

Marcelo passou os olhos por eles.

Depois olhou para o corredor.

“Minhas coisas ainda estão no quarto?”

“Estão. Você pode buscar o que precisar quando terminarmos.”

“Eu não vim buscar.”

Esperei.

Ele apoiou os antebraços na mesa.

“A Vanessa está muito abalada. Os pais dela tiveram que levar tudo de volta, o caminhão cobrou mais, e agora ninguém sabe o que fazer.”

“Eu sei o que precisava ser feito antes de alugarem o caminhão.”

“Mãe, me deixa terminar.”

Fiquei quieta.

“Osvaldo se ofereceu para pagar as despesas da casa. A gente pensou que ia ser bom. Você não ficava sozinha, e eles tinham onde morar.”

“Por que não me perguntaram?”

“Porque toda vez que eu falo da casa você acha que estou esperando você morrer.”

Olhei para o rosto dele.

“Você pediu ao chaveiro que resolvesse onde eu ficaria depois de trocar as fechaduras?”

Ele abaixou os olhos.

“Eu falei mal.”

“Você deu instruções muito claras.”

Marcelo esfregou as mãos.

“Eu achei que, quando estivesse tudo pronto, você ia ver que dava certo.”

Era isso.

A casa cheia, os móveis fora, os quartos ocupados. Eu chegaria e encontraria trabalho demais, gente demais, constrangimento demais para desfazer.

Ele esperava que eu aceitasse o que já estivesse feito.

Aproximei a autorização antiga.

“Você lembra deste documento?”

“Mais ou menos.”

“Foi depois da minha cirurgia. Você veio buscar para resolver aquele cadastro.”

Ele assentiu.

“Você tirou uma cópia?”

“Devo ter tirado.”

“Mandou para alguém?”

Marcelo se recostou.

“O que você quer que eu diga?”

“A verdade.”

Ele pegou a folha impressa com a imagem do acordo, mas manteve a original na mesa.

“Essa assinatura parece a sua porque é a sua.”

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Senti a boca secar.

Célia pousou alguma coisa na pia. O som foi breve, mas Marcelo olhou naquela direção.

“Explique”, pedi.

“Eu mandei um arquivo para o Fábio. Ele precisava dos seus dados para preparar o documento.”

“Quais dados?”

“Seu nome, identidade, endereço...”

“E a assinatura?”

Ele passou o polegar pela borda da folha.

“O arquivo já tinha.”

Fiquei olhando para a mão dele.

A mesma mão que carregara meu retrato.

“Você entregou um documento com minha assinatura para fazerem outro documento.”

“Não foi para falsificar nada.”

“Então por que o novo chegou à polícia como se eu o tivesse assinado?”

“Eu achei que vocês iam conversar depois.”

“Depois de a mudança terminar.”

Marcelo soltou a folha.

“Você sempre me pediu para resolver essas coisas. Banco, cadastro, conserto. Eu achei que estava facilitando.”

“Quando te pedi para resolver o cadastro, assinei aquela autorização. Para este acordo, você não pediu.”

“Porque você ia se preocupar sem necessidade.”

Puxei os papéis de volta.

Não precisava convencer um perito naquela mesa. A autenticidade seria examinada por quem tivesse condições de fazer isso.

Meu filho acabara de me dizer de onde saíra o arquivo.

E por que achara que podia usá-lo.

Ele abriu a mochila.

Retirou duas folhas dobradas e colocou diante de mim.

“Eu trouxe uma solução.”

Não toquei.

“O que é?”

“Um acordo novo. A gente deixa tudo claro.”

Li a primeira página sem mover o papel.

Marcelo e Vanessa continuariam na casa. Os pais dela poderiam ocupar o quarto de hóspedes. Eu manteria o quarto principal.

Em troca, eles contribuiriam com as despesas.

A segunda página dizia que os acontecimentos anteriores tinham resultado de um mal-entendido entre familiares e que eu reconhecia não ter ocorrido intenção de me prejudicar.

Olhei para ele.

“Quem escreveu?”

“O Fábio ajudou a organizar.”

“Depois de tudo, vocês voltaram a procurá-lo?”

“Alguém precisava escrever.”

A cozinha ficou silenciosa.

Marcelo pegou uma caneta do bolso da mochila e a deixou sobre a mesa.

Não era a minha.

A tampa tinha a marca de um hotel.

“Dessa vez você pode ler com calma”, disse. “Se quiser mudar alguma coisa, a gente muda.”

Apontei para a segunda folha.

“Quer que eu diga que você não teve intenção de me prejudicar.”

“Quero que isso não destrua minha vida.”

“Na sexta, você decidiu onde eu ia dormir sem conversar comigo.”

“Eu já disse que errei.”

“Não. Você disse que falou mal, que tentou facilitar e que eu ia aceitar quando estivesse tudo pronto.”

Ele bateu a palma na mesa, sem força suficiente para derrubar nada, mas bastante para me fazer estremecer.

“Mãe, eu estou tentando consertar!”

Célia apareceu na porta da cozinha.

“Marcelo.”

Ele recolheu a mão.

Olhou para mim e baixou a voz.

“Desculpa. Não precisava ter levantado o tom.”

Assenti, mas não me aproximei da caneta.

“Você pode consertar começando por contar à Beatriz exatamente o que acabou de me contar. Que entregou o arquivo antigo. Que sabia da mudança. Que combinou as fechaduras.”

“Você quer uma confissão?”

“Quero que não me peçam uma assinatura para apagar o que fizeram com a anterior.”

Ele empurrou o acordo na minha direção.

“Sem isso, o Osvaldo não vai ajudar com as despesas.”

“Então não ajuda.”

“A Vanessa não vai voltar enquanto essa história continuar.”

“Ela não tem que voltar para esta casa.”

Marcelo levantou-se.

Por um instante, pensei que ele fosse levar a caneta e sair.

Em vez disso, segurou o encosto da cadeira.

“Se você seguir com isso, não sei o que vai acontecer comigo.”

Durante anos, aquela frase teria bastado.

Eu perguntaria quanto devia, a quem telefonar, qual documento assinar. Tentaria diminuir o problema até conseguir carregá-lo sozinha.

Dessa vez, peguei meu celular.

Enviei a Beatriz uma mensagem informando que Marcelo confirmara ter fornecido o arquivo antigo e trouxera outro acordo. Pedi que continuasse com as providências.

Meu filho acompanhou cada movimento.

“Você mandou agora?”

“Mandei.”

Ele recolheu as folhas novas.

Pedi que me deixasse uma cópia. Hesitou, mas permitiu que eu as fotografasse antes de guardar.

Depois foi até o quarto de hóspedes e voltou com algumas roupas. Célia permaneceu na cozinha enquanto ele colocava tudo na mochila.

Na porta, perguntou:

“E se eu perder tudo?”

Senti vontade de tocar no braço dele.

Não toquei.

“Você precisa começar a responder pelo que fez, Marcelo. Eu não vou assinar esse papel.”

Ele saiu sem se despedir.

Fechei o portão e voltei para dentro.

A caneta continuava sobre a mesa.

Peguei-a, coloquei num envelope e escrevi o nome dele na frente, para devolver junto com os outros pertences.

Minha mão tremia.

Ainda assim, o nome ficou legível.

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