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"Jogaram Minha Foto de Casamento no Lixo. Eu Ainda Estava Viva." Parte 4 — As chaves que não seriam minhas

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Parte 4 — As chaves que não seriam minhas

“Gilberto, espera minha mãe sair na sexta. Ela pega o táxi às nove. Você vem no fim da tarde, depois que descarregarem tudo. Troca as três e entrega as chaves novas para a Vanessa. Não deixa cópia com vizinho. Quando minha mãe voltar, a gente resolve onde ela vai ficar.”

A mensagem terminou.

Meu filho continuou olhando para a tela, embora Gilberto já tivesse abaixado o celular.

Foi a policial quem quebrou o silêncio.

“A senhora sabia desse serviço?”

“Não.”

Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.

Na terça-feira, eu tinha ouvido Vanessa falar das fechaduras. Durante três noites, ainda me permitira pensar que Marcelo talvez não concordasse. Que podia estar esperando uma oportunidade para dizer não.

Agora eu ouvira a voz dele.

As instruções eram dele.

“Onde vocês iam me colocar quando eu voltasse?”, perguntei.

Marcelo esfregou a nuca.

“Mãe, eu falei que a gente ia resolver. Você estava precisando viajar, descansar um pouco.”

“Eu ia ficar sete dias fora. Quando voltasse, minha chave não abriria o portão. Para onde eu iria?”

Vanessa respondeu antes dele.

“Tem o quartinho dos fundos. Ninguém ia deixar você sem teto.”

Olhei na direção da passagem lateral.

O quartinho guardava uma escada, ferramentas, dois ventiladores antigos e caixas que Antônio nunca chegara a organizar. Quando chovia muito, a água entrava por baixo da porta.

“Você levou a cama da sua mãe para o meu quarto e ia me colocar no depósito?”

“A gente ia arrumar.”

“Antes ou depois de eu chegar com a mala?”

Marcelo fechou os olhos.

“Vanessa, fica quieta um minuto.”

“Agora a culpa é minha? Você concordou com tudo.”

Beatriz se aproximou de Gilberto e pediu que ele conservasse a conversa completa, inclusive as mensagens anteriores e posteriores. Ele concordou em fornecer o material pelos meios adequados e mostrou o comprovante do sinal.

O pagamento tinha saído da conta de Marcelo.

Pedi para ver.

Reconheci o valor.

Na quarta-feira, meu filho havia me pedido quatrocentos reais para pagar uma consulta.

“Você usou o dinheiro que eu te dei?”

Ele não respondeu.

“Marcelo.”

“A consulta foi desmarcada.”

“E você achou que podia usar para trocar as fechaduras da minha casa?”

“Mãe, não foi assim.”

Gilberto guardou o telefone.

“Dona Teresa, eu não vou fazer serviço nenhum aqui. Sobre o sinal, acerto depois com quem pagou.”

Agradeci.

Ele parecia aliviado por ter uma tarefa simples: recolocar o capacete e ir embora.

Eu ainda precisava entrar.

Avisei aos policiais que queria verificar meus pertences. Beatriz e Célia me acompanharam, enquanto Marcelo permaneceu junto à garagem.

Minha sala cheirava a papelão e poeira.

O sofá de Osvaldo estava atravessado diante da estante. A mesa dele ocupava o lugar da minha. No chão, um saco de supermercado continha minhas toalhas de mesa, apertadas como roupa suja.

Subi até o quarto.

O colchão de Marlene estava encostado na parede. Minha colcha tinha sido enrolada e deixada em cima de uma cadeira. As gavetas da cômoda estavam abertas.

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Na primeira, restavam uma caixa de botões e um envelope vazio.

Na segunda, minhas camisolas haviam sido empurradas para o fundo.

Abri o guarda-roupa.

Metade dos cabides não estava ali.

Vanessa apareceu na porta.

“Eu coloquei tudo na mala. Não sumiu nada.”

“Você não tinha autorização para mexer nas minhas roupas.”

“Se eu deixasse no armário, minha mãe ia pôr as coisas dela onde?”

Virei-me.

Ela percebeu o que acabara de dizer e apertou os lábios.

“Quero os móveis dos seus pais fora daqui”, falei. “Hoje.”

“Você não pode simplesmente mandar todo mundo embora.”

“Seus pais não moravam aqui ontem. Não convidei nenhum deles. Meu filho e você ficaram temporariamente, e esse assunto será tratado com a Beatriz. Mas eu não autorizei vocês a trazerem outras pessoas.”

A advogada confirmou minha oposição à ampliação da ocupação e disse que registraria formalmente o ocorrido.

Vanessa desceu sem responder.

Fiquei olhando para o espaço vazio onde antes estava a fotografia.

A marca retangular na madeira era mais clara que o restante da cômoda.

Célia colocou o porta-retrato ali.

Não tentou dizer que tudo ficaria bem.

Apenas ajeitou a base para que a rachadura do vidro não tocasse a madeira.

Na rua, Osvaldo começou a discutir com o motorista. Queria que parte dos móveis permanecesse na garagem até encontrarem outro destino.

Recusei.

“Não vou guardar uma mudança que vocês trouxeram para me tirar do meu quarto.”

Marlene puxou o marido pelo braço.

“Vamos levar para casa. Depois vocês conversam.”

Os trabalhadores recomeçaram a carregar, dessa vez no sentido contrário.

Os móveis deles saíram.

Os meus voltaram.

O motorista me perguntou onde colocar a poltrona. Indiquei o canto perto da janela. Ele recolheu a almofada, bateu de leve para tirar a poeira e a acomodou no assento.

Agradeci olhando para ele.

Eu queria lembrar o rosto de alguém que me ouvira naquele dia.

Beatriz explicou que as providências seguintes não se resolveriam todas naquela calçada. Havia documentos a examinar, uma assinatura contestada e a situação de Marcelo e Vanessa, que já estavam alojados na casa.

Eu não precisava fingir que tudo acabara.

Precisava começar direito.

“Quero que qualquer proposta seja feita por escrito”, pedi. “Não vou discutir sozinha com eles de madrugada.”

Marcelo me ouviu.

“Agora preciso marcar horário para conversar com minha mãe?”

“Para falar de documento e da casa, sim.”

Ele olhou para os policiais que ainda anotavam as informações.

“Você vai mesmo deixar isso continuar?”

Olhei para a cômoda pela janela aberta.

“Vou.”

Vanessa decidiu acompanhar os pais naquela noite. Marcelo recolheu uma mochila e foi atrás dela.

Antes de sair, apontou para a mala azul no corredor.

“Suas roupas estão aí.”

Esperei que dissesse alguma coisa sobre a gravação.

Ele fechou a porta.

Fábio foi o último a se mover. Durante toda a retirada, ficara perto do carro, com a pasta preta apertada debaixo do braço.

Beatriz pediu seus dados de contato.

Ele forneceu um cartão e começou a dizer:

“Eu só montei o arquivo com o material que recebi. Se precisarem esclarecer...”

Osvaldo voltou do portão.

“Fábio, cuidado com o que você fala. Lembra quem te passou os serviços todos esses anos.”

O homem guardou o cartão que ainda segurava.

Eu tinha escutado o bastante.

“E você lembra quem vai ficar sozinho com a culpa se continuar calado”, respondi.

Pela primeira vez, Fábio olhou para mim sem procurar Osvaldo antes.

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