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"Debaixo da Cama, Ouvi Meu Marido Planejar Minha Ruína." Parte 6 — Antes do Pedido de Casamento

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Parte 6 — Antes do Pedido de Casamento

Na manhã seguinte, telefonei para a marcenaria.

A pessoa que atendeu perguntou se havia algum problema com os móveis.

"Preciso da relação dos pagamentos da minha obra."

Dei meu nome, o endereço e o número do orçamento.

Enquanto procurava, ela comentou que se lembrava de Bruno.

"Foi ele quem tratou das parcelas."

"Eu sei."

Recebi o relatório pouco depois.

A primeira parcela estava correta.

A segunda, de oitenta mil reais, havia sido paga dezoito dias depois da data em que transferi o dinheiro para Bruno.

Abri nossas mensagens.

No dia da transferência, ele escrevera:

Já encaminhei. Pode ficar tranquila.

Na manhã seguinte:

O pessoal está trabalhando normalmente.

Eu tinha estado no apartamento naquela semana. Havia serragem no chão e portas de armário encostadas na parede.

Nada parecia atrasado.

Por isso não perguntara de novo.

"Foi um pagamento só?", perguntei à funcionária por telefone.

"Sim. Oitenta mil."

"Pode me mandar o recibo correspondente?"

Ela pediu que eu formalizasse por e-mail. Fiz isso.

Não contei minha história. Disse que estava organizando os documentos da obra e precisava conferir o pagamento.

Pouco depois do almoço, recebi o recibo.

A parcela havia sido quitada por uma transferência da conta da empresa de Bruno.

Imprimi as duas datas.

Meu dinheiro entrara na conta dele numa terça-feira.

Dezoito dias depois, a empresa pagara a marcenaria.

No intervalo, Bruno dissera que estava tudo resolvido.

Marcelo chegou ao escritório de Renata às quatro.

Trouxe o contador por videochamada e algumas folhas que manteve diante de si até começarmos a falar.

"Existe uma entrada de oitenta mil no período que você mencionou", disse.

Coloquei meu comprovante sobre a mesa.

"É este dinheiro?"

Ele comparou as datas.

"É."

"Eu mandei para pagar a marcenaria."

O contador, na tela, se inclinou para ler alguma coisa.

"No controle que recebemos, está identificado como empréstimo de Lara Nogueira."

Renata perguntou quem havia fornecido aquela informação.

"O Bruno encaminhava os lançamentos e os documentos de apoio."

Marcelo esfregou o rosto.

"Ele me disse que você tinha concordado em deixar o valor por alguns dias. Depois a empresa pagaria uma despesa sua."

Peguei o recibo da marcenaria.

"Foi assim que ele fez."

Eu tinha recebido os armários. O fornecedor tinha recebido o pagamento.

Enquanto isso, meu dinheiro passara pela empresa sem que eu soubesse.

Bruno podia ter chamado aquilo de favor entre noivos.

Mas eu nunca escolhera fazê-lo.

Renata pediu cópias dos registros e das informações usadas para classificar a entrada. Marcelo autorizou o envio daquele material específico.

O contador disse que precisaria localizar o restante.

Eu me agarrei a essa distinção.

Havia coisa confirmada e coisa que ainda precisava aparecer. Se eu misturasse as duas, daria a Bruno uma oportunidade de se esconder no que faltava.

Marcelo desligou a chamada.

"Eu achei que você sabia."

Olhei para ele.

"Você chegou a me perguntar?"

"Não."

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Ele não tentou justificar.

Aquilo tornou a resposta mais suportável, mas não a tornou pequena.

Eu me lembrava de uma festa em que Marcelo agradecera pela minha paciência com os horários de Bruno. Talvez estivesse pensando em mais do que noites de trabalho.

Eu sorrira sem entender.

"Preciso saber se existe algum outro valor meu", falei.

"Vou conferir."

"Não só o que está lançado com meu nome. Também os valores que passaram pela conta pessoal dele e entraram na empresa."

Marcelo respirou fundo.

"Eu não tenho acesso a tudo."

"Então me diga ao que tem acesso. Não me prometa uma coisa que não pode entregar."

Ele assentiu.

Antes de sair, tirou outra folha da pasta.

"Tem isso."

Era uma impressão de um e-mail de Bruno, enviado meses antes da compra do apartamento.

Falava em possibilidades de reorganizar o caixa e mencionava uma avaliação de imóvel residencial. O endereço era o mesmo do apartamento que eu ainda estava visitando com ele.

Abaixo, havia valores estimados de crédito.

Passei o dedo pela data.

Era anterior ao pedido de casamento.

"Ele já estava pensando nisso?", perguntei.

Marcelo se mexeu na cadeira.

"Eu sabia que ele procurava alternativas. Não sabia que o imóvel seria comprado por você."

"Mas sabia que ele avaliava usar um apartamento."

"Sabia."

Renata pediu que ele explicasse o contexto completo, inclusive o que tinha respondido naquela época.

Marcelo abriu o notebook e procurou a sequência.

Não gostou de mostrar.

Percebi isso pelo tempo que levou, pelas tentativas de dizer primeiro o que acreditava que as mensagens significavam.

"Eu prefiro ler", falei.

Ele virou a tela.

Bruno escrevera que uma mudança na vida pessoal permitiria organizar uma garantia melhor no futuro.

Marcelo respondera que queria discutir alternativas concretas na reunião seguinte.

Não havia uma aprovação.

Também não havia uma pergunta sobre quem seria dono do imóvel.

Eu li tudo duas vezes.

A aliança parecia pesar no dedo, embora eu não estivesse usando.

Saí do escritório de Renata com as cópias numa pasta nova.

No carro, não liguei o rádio.

O casamento tinha sido, até então, o ponto em que Bruno decidira aproveitar minha confiança.

Agora eu olhava para trás e via a preparação chegando antes.

Lembrei de quando ele sugeriu que eu vendesse investimentos para completar a compra.

De como dizia que imóveis eram mais seguros.

De sua pressa para que eu enviasse documentos enquanto ainda comparava duas plantas.

Nenhuma lembrança, sozinha, provava a intenção dele.

As datas nos papéis eram mais difíceis de explicar.

Parei num estacionamento antes de ligar para Bruno.

Ele atendeu no primeiro toque.

"Lara, finalmente."

"Os oitenta mil da marcenaria foram para a sua empresa."

Houve um ruído, como uma cadeira arrastada.

"Quem te falou isso?"

"Tenho os registros."

"Você recebeu os móveis, não recebeu?"

Fechei os olhos.

"Eu mandei o dinheiro para um fornecedor. Você disse que tinha encaminhado naquele dia."

"Eu resolvi. A empresa pagou depois. Qual foi o prejuízo?"

"Você usou meu dinheiro sem perguntar."

"Era por dezoito dias."

Ele sabia o número.

Não precisou consultar nada.

"Você já estava avaliando crédito com o apartamento antes de me pedir em casamento?"

O silêncio durou mais do que qualquer resposta anterior.

Depois ele disse:

"Você está deixando o Marcelo te usar para tirar o corpo fora."

"Estou perguntando por você."

"Eu pensava no nosso futuro. Não vou pedir desculpas por tentar construir alguma coisa."

Olhei para a pasta no banco do passageiro.

Eu havia passado dois anos construindo uma vida com ele.

Não sabia que havia outra construção, feita por trás da minha.

"Não me ligue para falar da empresa", respondi. "Qualquer assunto sobre os documentos, trate com a Renata."

Desliguei antes que me pedisse para ouvir mais uma explicação.

À noite, em casa, procurei a fotografia do pedido de casamento.

Estávamos na varanda de um restaurante. Meu rosto aparecia vermelho de chorar. Bruno sorria com a caixa aberta na mão.

Eu lembrava da felicidade inteira.

Não era uma lembrança falsa só porque ele escondera alguma coisa. A minha alegria tinha existido.

Precisaria aprender a olhar para ela sem tratá-la como prova da minha estupidez.

O telefone vibrou sobre a mesa.

Era Marcelo.

Encontrei mais uma mensagem na sequência que exportei. A Renata também está recebendo.

Abri o arquivo.

A mensagem vinha de Bruno. Fora enviada na semana do pedido, antes de eu começar a avisar os amigos.

Li o horário, o destinatário e a frase.

Depois li de novo, com a fotografia ainda aberta ao lado.

Ela já aceitou casar. Agora dá para continuar com a ideia do apartamento.

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