"Debaixo da Cama, Ouvi Meu Marido Planejar Minha Ruína." Parte 5 — A Mulher Que Eles Disseram Que Eu Era
Parte 5 — A Mulher Que Eles Disseram Que Eu Era
"Quanto?"
Marcelo não respondeu imediatamente.
"Quero conferir o lançamento original. Não vou te dar um valor de memória e piorar as coisas."
"Então me manda quando conferir."
Ele assentiu.
Bruno apareceu no corredor.
"O que vocês estão cochichando?"
Marcelo se afastou para pegar a pasta que deixara numa cadeira.
Eu não respondi.
Meu pai segurou a porta enquanto eu saía. No elevador, a vontade de voltar me atingiu com tanta força que precisei apoiar a mão na parede.
Não para perdoar Bruno.
Para abrir as gavetas, olhar cada papel, descobrir quantas vezes eu havia entregado uma coisa sem perceber o que ele fazia com ela.
Papai apertou o botão do térreo.
"Você volta com calma. Não vai resolver tudo hoje."
Na casa dele, tirei a aliança e a coloquei dentro de uma xícara.
Depois fiquei sentada na beirada da cama em que dormira antes de me mudar.
Meu telefone vibrou durante quase uma hora.
Bruno mandou pedidos de desculpa, cobranças, explicações sobre a empresa. Disse que eu o havia exposto ao próprio sócio. Disse que ainda me amava.
Não respondeu quem tinha colocado aquela assinatura no documento.
Às duas da manhã, desliguei as notificações.
Dormir foi mais difícil do que na suíte.
Lá, eu precisava impedir que Bruno percebesse o que eu sabia. Agora não precisava fingir nada, e o corpo parecia finalmente autorizado a sentir.
Chorei com o rosto no travesseiro para não acordar meu pai.
No sábado, Renata falou com um advogado que passaria a cuidar da separação comigo. Eu contei o que Marcelo dissera e lhe enviei a conversa inteira com Bruno.
Não apaguei nem os pedidos de desculpa.
Queria os registros como tinham acontecido.
À tarde, voltei ao apartamento com meu pai.
Bruno havia concordado por mensagem em passar alguns dias na casa de Sônia. Quando chegamos, faltavam roupas, o notebook dele e duas malas.
A pasta que insistira para eu assinar também tinha desaparecido.
Fotografei as gavetas onde guardávamos os documentos e levei minhas pastas pessoais para o escritório de Renata.
Papai ficou na sala enquanto eu conferia o quarto.
O terno do casamento continuava pendurado.
Toquei a manga antes de fechar a porta do armário.
Na segunda-feira, uma cliente me perguntou se estava tudo bem.
Havia gentileza na voz dela, mas também um cuidado que não costumava existir entre nós.
"Por quê?"
"Recebi uma mensagem da sua sogra. Ela perguntou se você tinha comentado alguma coisa sobre estar sobrecarregada."
Senti meu rosto aquecer.
"O que ela disse?"
A cliente hesitou.
"Que você teve uma crise depois do casamento. Fiquei preocupada."
Agradeci pela preocupação e disse que entregaria o projeto no prazo.
Quando desliguei, fiquei olhando para o desenho aberto no computador.
Sônia conhecia aquela cliente porque eu a apresentara num evento. Eu mesma tinha dado a ela um caminho para entrar no meu trabalho.
Liguei para Renata.
"Ela está falando com pessoas do meu escritório."
"O que exatamente foi dito?"
Contei.
Renata pediu que eu anotasse e guardasse o que conseguisse confirmar. Depois me perguntou se precisava avisar alguém que tratava diretamente comigo.
Enviei uma mensagem curta à minha assistente.
Expliquei que estava em processo de separação e que qualquer assunto pessoal deveria ser encaminhado para mim. Os projetos seguiriam normalmente.
Não contei a noite inteira.
Não precisava transformar a recepção do escritório na segunda mesa daquele jantar.
Ao meio-dia, Bruno me mandou três capturas de tela.
Numa delas, eu escrevera:
Pode resolver por aí. Depois você me manda o comprovante.
Em outra:
Quero que isso fique pronto antes de a gente mudar.
A terceira mostrava um coração e a frase:
Obrigada por cuidar de tudo.
A mensagem dele veio em seguida.
Você sabia que eu estava movimentando dinheiro. Agora está fingindo que nunca me autorizou a nada.
Abri a conversa antiga.
A primeira frase respondia a um orçamento da marcenaria.
A segunda tratava da instalação dos armários.
O coração tinha vindo depois da fotografia de uma bancada entregue.
Nas imagens que Bruno enviara, os assuntos anteriores não apareciam.
Passei o restante do almoço exportando a conversa completa e procurando os comprovantes daquele período.
Em vários pedidos, ele juntara informações demais numa única mensagem. Uma parcela para o vendedor, uma taxa, um pagamento da obra. Eu conferia os valores principais e confiava no restante.
Agora precisava separar tudo.
Marcelo ainda não tinha me enviado nada.
Telefonei.
"Estou levantando os documentos", ele respondeu.
"Você já sabe o valor?"
Houve barulho de papel do outro lado.
"Existe um lançamento de oitenta mil reais."
Encostei na cadeira.
Eu conhecia aquele valor.
Tinha enviado oitenta mil para Bruno durante a reforma.
Era uma parcela que ele deveria repassar à empresa responsável pela marcenaria.
"Você pode me mandar o registro?"
"Vou precisar conversar com o contador."
"Marcelo, você me disse que havia dinheiro meu na empresa. Preciso saber o que aconteceu."
"Eu sei. Só não quero falar sem ter tudo."
Ele desligou prometendo retornar.
Peguei a pasta da reforma.
Havia um orçamento, um cronograma de pagamentos e mensagens de Bruno dizendo que estava resolvido.
O comprovante específico não estava ali.
Procurei nos e-mails.
Também não.
Eu tinha visto os armários instalados e considerado aquilo suficiente.
No fim da tarde, Camila apareceu no meu escritório.
Estava sem maquiagem, com o celular apertado nas duas mãos.
"Minha mãe está dizendo para todo mundo que você planejou aquele jantar para acabar com o Bruno."
Pedi que se sentasse.
"Você estava lá."
"Eu sei."
Ela olhou para a porta antes de continuar.
"Mas ele diz que falou besteira porque estava desesperado. Diz que você nunca perguntou como a empresa estava."
"Perguntei muitas vezes."
Camila abaixou os olhos.
Eu não queria convencê-la a deixar de amar o irmão.
Queria que parasse de me pedir para tratar o que ouvira como uma frase mal escolhida.
"Ele tentou conseguir crédito com o meu apartamento sem me explicar o plano. Apareceu um documento com uma assinatura que não fiz. Isso não aconteceu porque eu deixei de fazer uma pergunta."
Ela assentiu devagar.
"Eu não estou pedindo que você volte."
Ficamos em silêncio.
Então Camila disse:
"Tem uma coisa que achei estranha depois do jantar."
Esperei.
"Minha mãe já sabia daquele dinheiro. Antes de vocês casarem."
"A herança?"
"Sim. Eu estava na casa dela quando o Bruno levou uma pasta. Tinha informação do apartamento e um extrato. Minha mãe falou que agora entendia por que ele estava insistindo tanto naquela compra."
Senti a boca secar.
"Quando foi isso?"
"Não lembro o dia. Foi antes de vocês mandarem fazer os convites."
Abri no computador a transferência dos oitenta mil.
A data estava no canto da tela.
Camila continuava falando, mas precisei pedir que esperasse.
Eu acabara de perceber que não podia começar a investigação no casamento.
Precisava voltar até a reforma.
E conferir o que Bruno fazia enquanto eu escolhia os armários da casa onde imaginava envelhecer com ele.
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