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"Debaixo da Cama, Ouvi Meu Marido Planejar Minha Ruína." Parte 4 — Agora Vocês Vão Me Ouvir

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Parte 4 — Agora Vocês Vão Me Ouvir

"Desliga isso."

Bruno deu dois passos na direção do móvel.

A voz dele saiu da caixinha antes que alcançasse o aparelho.

"Primeiro ela concorda com os ajustes. Depois entramos com o financiamento usando o imóvel."

Marcelo largou o guardanapo.

Na gravação, Sônia perguntou quanto ele conseguiria.

"Talvez um milhão e duzentos. Depende da análise."

Bruno estendeu a mão para o botão, mas meu pai se levantou e ficou entre ele e o móvel.

"Deixa terminar."

"Álvaro, isso é uma conversa privada."

Sônia já estava de pé.

"Lara, meu filho estava preocupado com a empresa. Você não pode usar uma conversa entre mãe e filho para humilhar a gente."

A gravação respondeu por mim.

"E quando ela descobrir que o dinheiro foi para a empresa?"

"Vou dizer que surgiu uma oportunidade."

Camila virou devagar para o irmão.

Eu apertei o controle e interrompi o áudio.

Meu coração batia tão forte que senti o pulso no pescoço. A voz, quando consegui falar, saiu baixa.

"Essa conversa aconteceu na nossa noite de núpcias. Eu estava no quarto."

Bruno olhou para o corredor.

"Você estava ouvindo escondida?"

"Eu estava debaixo da cama. Queria fazer uma surpresa."

Camila levou a mão à boca.

Sônia me examinou como se procurasse em mim alguma coisa ridícula que pudesse usar.

"Uma mulher de trinta e um anos se escondendo debaixo de uma cama?"

"Foi uma brincadeira", respondi. "O que vocês estavam combinando não era."

Bruno voltou para a mesa.

"Você ouviu uma conversa num momento de pressão. Eu ia te explicar tudo."

"Quando?"

"Assim que tivesse uma proposta concreta."

Renata puxou da bolsa uma cópia do documento recebido pela financeira.

"Esta proposta já estava concreta o suficiente para ser encaminhada."

Colocou a folha no centro da mesa.

Diego não olhou.

Bruno olhou rápido demais.

"Isso foi um erro de procedimento."

"Com a minha assinatura?", perguntei.

"Eu não assinei por você."

"Então explica como apareceu."

Diego molhou os lábios.

"Recebi o material pronto. Minha parte era verificar possibilidades de crédito."

"De quem você recebeu?", Renata perguntou.

Ele virou para Bruno.

Meu marido apoiou as duas mãos na mesa.

"Não vamos transformar um jantar num interrogatório."

"Foi você que trouxe outra versão para eu assinar", falei. "Trouxe o Diego para explicar. Agora ele pode explicar."

Marcelo pegou a folha.

Leu o cabeçalho, depois o endereço.

"Esse é o apartamento da Lara."

Ninguém respondeu.

Ele ergueu os olhos para Bruno.

"Você ia usar o imóvel dela para levantar dinheiro para a empresa?"

"Eu estava estudando alternativas."

"Sem falar comigo?"

"Você conhece as dificuldades que estamos tendo."

"Conheço as que você me contou."

A frase fez Diego se mexer na cadeira.

Marcelo percebeu.

"Quanto está faltando?"

Bruno puxou a folha da mão dele.

"Vamos conversar no escritório."

"Quanto?"

Sônia se aproximou do filho.

"Marcelo, ele está tentando salvar o negócio de vocês."

Diego falou antes de Bruno.

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"O levantamento que recebi tinha dois milhões e seiscentos mil."

Marcelo ficou imóvel.

Até aquele momento, eu tinha pensado na dívida como uma coisa sem tamanho, um buraco escuro que Bruno pretendia cobrir com meu apartamento.

Ouvir o valor mudou o silêncio da sala.

"Dois milhões e seiscentos?", Marcelo repetiu.

Bruno fechou os olhos por um instante.

"Tem obrigação que ainda pode ser renegociada."

"Você me mostrou menos da metade disso na última reunião."

"Porque eu estava resolvendo."

Marcelo soltou uma risada sem alegria.

"Com a casa da sua esposa?"

Sônia bateu a palma na mesa.

"Chega. Vocês estão falando como se ele tivesse roubado alguma coisa. O apartamento continua aqui, não continua?"

Olhei para a mão dela junto ao meu prato.

Durante dois anos, eu tinha deixado aquela mulher definir o que era generosidade, respeito, família. Ela me corrigia sorrindo e depois dizia que eu levava tudo para o lado pessoal.

Agora não sorria.

"Continua aqui porque eu recusei os papéis e interrompi uma solicitação que não fiz."

"Você interrompeu uma possibilidade de ajudar seu marido."

"Uma possibilidade que vocês esconderam de mim."

Bruno puxou a cadeira e se sentou.

A mudança foi tão súbita que pareceu ensaiada. A voz dele amoleceu.

"Lara, eu estava desesperado. Não queria começar nosso casamento te contando que a empresa estava com problemas."

"E preferiu começar pedindo que eu assinasse uma autorização sem entender?"

"Eu nunca deixaria você perder o apartamento."

Peguei uma das folhas que Renata havia separado.

"Quando minha avó morreu, recebi um milhão e trezentos e cinquenta mil reais. Juntei esse dinheiro a quatrocentos e cinquenta mil dos meus próprios ganhos."

Sônia abriu a boca.

Continuei antes que me interrompesse.

"Você recebeu as transferências para pagar o vendedor. Negociou e acompanhou a compra. Eu reconheci essa ajuda. Mas a casa não foi um presente seu."

Camila olhou para a mãe.

"Você disse que o Bruno tinha comprado."

"Eu disse que ele tinha providenciado", Sônia respondeu.

"Você disse que ele tinha dado o apartamento para ela."

Minha sogra ajeitou a bolsa no braço.

"Não vou discutir palavras."

Meu pai colocou as mãos no encosto da cadeira, mas deixou que eu falasse.

Agradeci por isso sem olhar para ele.

Bruno pegou minha mão.

Eu a retirei.

Foi um movimento pequeno. Mesmo assim, ele olhou para meus dedos como se eu tivesse feito algo mais violento do que qualquer frase dita naquela noite.

"Você podia ter conversado comigo sozinha."

"Conversei. Perguntei quem assinou. Você disse que eu estava criando um escândalo."

"Porque você chamou uma advogada."

"Porque alguém usou meu nome."

Renata recolheu os documentos do centro da mesa.

"Essas divergências vão ser tratadas pelos canais adequados. Por enquanto, Lara não vai assinar novos papéis."

Bruno apontou para ela.

"Você está colocando ideias na cabeça da minha mulher."

"Renata está me ajudando a entender o que você tentou esconder", respondi. "A decisão é minha."

Ele voltou o rosto para mim.

"Que decisão?"

O silêncio seguinte me deu tempo para respirar.

"Eu quero me separar."

Camila começou a chorar sem fazer barulho.

Sônia balançou a cabeça.

"Você vai jogar fora dois anos por causa disso?"

Olhei para Bruno.

Esperei alguma coisa que não fosse uma explicação sobre dinheiro. Uma pergunta sobre o que eu sentira, um reconhecimento do que havia feito comigo naquela noite.

Ele disse:

"Você não sabe o tamanho do problema que está criando."

Eu me levantei.

"Sei o problema que impedi."

Meu pai me perguntou se queria sair.

Bruno olhou para ele.

"Ela mora aqui comigo."

"Eu vou passar a noite com meu pai", falei. "Amanhã combinamos, por escrito, como buscar suas coisas e resolver a separação."

Ele começou a dizer que eu estava sendo dramática.

Peguei a bolsa e fui ao quarto buscar meu telefone.

Quando voltei, Marcelo estava no corredor, esperando.

"Preciso conferir uma coisa antes de afirmar qualquer coisa", disse baixo.

Eu parei.

"O quê?"

"Tem uma entrada na conta da empresa com seu nome."

Senti a alça da bolsa escorregar do meu ombro.

"Eu nunca investi na empresa."

Marcelo olhou para a sala, onde Bruno discutia com Diego.

"No controle interno, consta como empréstimo seu. O Bruno disse que você tinha concordado em ajudar."

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