"Minha Sogra Fez Minha Mãe Se Ajoelhar. Eu Fiz Ela Sair da Minha Casa." Parte 8 — O homem que não tinha morrido
Parte 8 — O homem que não tinha morrido
“Eu vou ouvir”, respondi.
Álvaro pediu que o encontro acontecesse no escritório de Otávio. Não queria ir à casa, nem encontrar Vera.
Concordei.
Antes de desligar, perguntei sobre Marcelo.
“Ele pode estar lá?”
A resposta demorou.
“Pode.”
Otávio combinou o horário com ele. Depois telefonei para meu marido.
Não comecei pelo exame, nem pela gravação.
“Álvaro foi localizado. Ele aceitou conversar amanhã.”
Marcelo não respondeu.
Ouvi sua respiração.
“É ele mesmo?”
“O contato antigo de Otávio confirmou. Ele sabe detalhes dos documentos e quer trazer os originais.”
“Eu vou.”
“Vamos ao escritório do Otávio. Não à casa dele.”
“Está bem.”
Na manhã seguinte, deixei os gêmeos com Célia e uma cuidadora que havia passado pelas referências. Lúcia quis ir comigo, mas apenas até o escritório.
“Não preciso ficar na sala o tempo todo”, disse. “Quero poder escolher.”
Marcelo chegou antes de nós.
Estava encostado no carro, com a camisa amassada e os olhos vermelhos.
Não perguntei se tinha dormido.
Subimos juntos, sem conversar.
Álvaro estava sentado numa poltrona da recepção.
Eu o reconheci por uma fotografia antiga que Marcelo guardava numa caixa. O homem da imagem tinha cabelos escuros e um filho pequeno nos braços.
O que estava à nossa frente tinha setenta e um anos, uma bengala apoiada no joelho e as mãos manchadas pelo tempo.
Quando viu Marcelo, levantou devagar.
Meu marido parou a dois passos dele.
“Você está vivo.”
Álvaro apertou a bengala.
“Estou.”
“Esse tempo todo.”
“Sim.”
Nenhum dos dois se abraçou.
Otávio abriu a porta da sala.
Entramos. Minha mãe ficou comigo, perto da janela.
Álvaro colocou uma bolsa de couro sobre a mesa. Retirou três pastas e um envelope.
“Antes de olhar isso, eu preciso dizer uma coisa.”
Marcelo continuava em pé.
“Então diz.”
“Eu não fui embora porque não gostava de você.”
“Gostar não impediu que fosse.”
Álvaro abaixou a cabeça.
“Não.”
A resposta fez Marcelo puxar uma cadeira com força.
O pai esperou até ele sentar.
“Quando as contas começaram a ser questionadas, havia documentos com minha assinatura. Alguns eu tinha assinado para autorizar serviços. Outros não reconheci. Vera me disse que, se eu entregasse as pastas, ela explicaria tudo como um erro administrativo.”
“E você acreditou?”, perguntei.
“Não. Por isso procurei Antônio.”
Ele abriu o primeiro envelope.
Havia cópias de pedidos de conferência, respostas de fornecedores e recibos.
“Seu pai reconheceu que alguns pagamentos não correspondiam às obras. Pediu prazo. Nesse intervalo, chegaram cobranças no meu nome. Um fornecedor apareceu na minha casa. Outro ameaçou me denunciar.”
Otávio perguntou por uma data.
Álvaro encontrou a folha.
Meu pai soubera.
Tivera tempo para agir, mas tentara primeiro controlar a situação dentro da empresa.
“Você podia ter procurado outra ajuda”, falei.
“Podia.”
“E podia ter procurado seu filho.”
Álvaro olhou para Marcelo.
“Também podia.”
Eu esperava uma explicação que tornasse tudo inevitável. Ele não ofereceu.
“Fiquei com medo, saí de Campinas e fui ficando longe. No começo, Vera sabia como falar comigo. Depois disse que Marcelo não queria me ver. Eu acreditei porque era mais fácil acreditar do que voltar e enfrentar vocês.”
Marcelo passou a mão pelos olhos.
“Eu era criança.”
“Eu sei.”
“Você deixou que ela me explicasse quem você era.”
Álvaro assentiu.
Minha mãe se levantou.
“Vou tomar uma água.”
Perguntei se queria que eu fosse junto.
Ela negou e saiu sozinha.
Álvaro acompanhou sua saída com os olhos.
“Vera encontrou meu endereço novo no ano passado”, disse. “Primeiro pediu as pastas. Depois mandou um envelope com cópias de documentos.”
Peguei o comprovante que encontráramos.
“Este?”
Ele conferiu o número.
“Foi essa entrega.”
Retirou do envelope uma carta digitada.
Vera afirmava que a disputa antiga poderia ser resolvida com uma compensação patrimonial. Em troca dos originais e de uma declaração que ela já redigira, Álvaro receberia uma parcela do valor de uma operação.
No texto, ela se apresentava como pessoa autorizada a negociar em nome de Lúcia Duarte.
Li o nome da minha mãe duas vezes.
“Que operação?”
Álvaro abriu a terceira pasta.
Uma cópia do registro de um terreno. Um mapa. Uma proposta recente.
Reconheci o endereço.
O terreno que meu pai recuperara para minha mãe.
Minha boca secou.
“Ela prometeu te pagar com dinheiro disso?”
“Disse que a família de Antônio devia uma reparação e que tinha autorização.”
“Você aceitou?”
“Não. A declaração que ela queria me fazer assinar dizia que todos os documentos antigos estavam encerrados e que eu não tinha nada a contestar.”
“Por que não avisou Otávio?”
Álvaro esfregou as mãos.
“Eu devia ter avisado.”
Não havia uma resposta boa.
Era a segunda vez naquela semana que alguém admitia ter deixado Vera agir porque enfrentar a situação parecia difícil demais.
Otávio separou os documentos por data.
A proposta mais recente previa a cessão de uma parte do terreno a uma empresa interessada em ampliar a área de armazenagem.
A pessoa de contato era Vera.
A proprietária indicada era Lúcia.
Uma linha dizia que a assinatura final aconteceria dali a dois dias.
Levantei da cadeira.
“Minha mãe nunca me falou disso.”
Otávio chamou-a de volta.
Quando Lúcia viu os papéis, pegou o mapa.
“Eu não conheço essa proposta.”
“Assinou algum documento relacionado ao terreno?”, ele perguntou.
Ela tentou lembrar.
“Não depois que soube que estava no meu nome.”
“A senhora assinou alguma folha que Vera trouxe?”
Minha mãe olhou para mim.
“Havia um cadastro.”
“Que cadastro?”
“Ela disse que vocês estavam organizando a escola das crianças. Pediu meus dados porque eu poderia buscá-las.”
Marcelo levantou a cabeça.
“Eu levei esse papel.”
Minha mãe assentiu.
“Você disse que era para adiantar.”
Meu marido ficou pálido.
“Era o que minha mãe tinha me falado.”
Otávio pediu que não chegássemos a uma conclusão antes de localizar a folha.
Enquanto ele telefonava para o contato indicado na proposta, pedi a Lúcia que me contasse tudo de que lembrava: onde estava sentada, quantas páginas havia, quem segurava o papel.
Anotei sem interromper.
Marcelo retirou o celular do bolso e procurou nas mensagens.
“Foi no dia em que sua mãe chegou para ficar com as crianças.”
Encontrou uma conversa com Vera.
Leva a ficha para Lúcia assinar. Preciso mandar ainda hoje.
Havia uma fotografia anexada.
Ele tocou na imagem.
Apareceu uma folha com dados da escola e espaços para nome, documento e assinatura.
Fotografei a tela com autorização dele e pedi que enviasse o arquivo original da conversa.
Otávio voltou.
“A empresa confirma que há uma assinatura prevista. Vou informar imediatamente que a proprietária não reconhece a negociação e pedir o material que receberam.”
Minha mãe puxou a proposta para perto.
“Eu não vou assinar isso.”
“Não vai”, respondi.
Ela olhou para Álvaro.
“O senhor trouxe tudo?”
“Tudo que Vera me mandou.”
“Então deixa com o advogado.”
Havia firmeza na voz dela.
Eu ainda estava juntando as peças quando compreendi o risco inteiro.
Vera perdera o acesso à máquina. Perdera o controle sobre a casa. Mas continuava tentando usar um documento com a assinatura da minha mãe.
E tinha marcado uma data para transformar aquela folha em dinheiro.
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