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"Minha Sogra Fez Minha Mãe Se Ajoelhar. Eu Fiz Ela Sair da Minha Casa." Parte 6 — Minha mãe não estava ali por acaso

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Parte 6 — Minha mãe não estava ali por acaso

Marcelo chegou às cinco e meia sem Vera.

Trouxe um saco de pães de queijo e dois ovos de chocolate, embora o Natal ainda nem tivesse passado.

As crianças correram para ele.

Eu senti o impulso de sorrir por hábito.

Fiquei onde estava.

Célia sentou perto da janela. Minha mãe permaneceu no quarto, por escolha dela. Antes de ele chegar, eu perguntara se queria vê-lo.

“Hoje, não”, respondeu.

Marcelo brincou com Pedro no tapete. Clara mostrou o coelho e contou que a avó estava com o braço doendo.

Ele olhou para mim.

Eu não o ajudei a mudar de assunto.

“Eu sei”, disse à menina.

“Foi você?”

A pergunta saiu simples, sem acusação, como quando ela queria saber quem tinha quebrado um copo.

Marcelo deixou o carrinho no chão.

“A vovó se machucou numa discussão.”

Clara apertou o coelho.

“Não pode.”

“Não pode”, ele respondeu.

Depois de quarenta minutos, pedi a Célia que levasse os dois à sua casa para olhar as luzes de Natal do quintal. Seu marido estava lá.

Marcelo acompanhou os filhos até o portão.

Quando voltou, encontrou sobre a mesa o papel em que eu organizara os acontecimentos.

“Agora vai me interrogar?”

“Vou perguntar uma coisa. Você sabia que sua mãe estava procurando documentos do meu pai?”

Ele puxou a cadeira, mas não sentou.

“Ela trabalhou com ele. É normal que tenha assuntos antigos.”

“Você sabia?”

“Ela comentou que havia papéis da época da empresa.”

“E sabia que ela mexeu na máquina?”

O maxilar dele se contraiu.

“Quem te falou isso?”

“Minha mãe.”

Ele olhou para a porta do quarto.

“Ela está aí?”

“Está. Não quer conversar com você.”

Marcelo sentou.

Por alguns segundos, só ouvimos o motor da geladeira.

“Minha mãe disse que precisava recuperar documentos que pertenciam ao meu pai.”

“Por que não pediu diretamente a mim?”

“Porque não confiava que você entregaria.”

A resposta veio rápida demais para ser improvisada.

Abri a mensagem que Jandira me enviara pouco antes da visita.

Eu tinha perguntado por que ela não pudera fazer a limpeza durante minha viagem.

Ela respondera com uma captura de tela.

Não precisa vir esta semana. A mãe da Renata ficará aqui e vamos resolver entre nós.

A mensagem era de Vera.

Mostrei a Marcelo.

“Jandira não cancelou. Sua mãe dispensou.”

Ele leu.

“Eu não sabia que tinha mandado isso.”

“Você me disse que Jandira não pôde vir.”

“Foi o que minha mãe me falou.”

“Então você repetiu sem conferir.”

“Eu tinha trabalho, Renata.”

“E minha mãe também tinha uma vida antes de vir ajudar.”

Peguei outra folha.

Nos registros da câmera do portão, minha mãe aparecia tentando sair numa manhã. Estava com a bolsa no ombro. Vera surgiu logo depois, gesticulando. Lúcia voltou para dentro.

Não havia som.

Eu mostrara a imagem a minha mãe antes de incluí-la na sequência.

Ela explicara que queria comprar um remédio. Vera dissera que não podia deixar Marcelo sozinho com os gêmeos.

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Naquela mesma manhã, Jandira havia sido dispensada.

“Você lembra desse dia?”, perguntei.

Marcelo olhou para a imagem.

“Minha mãe tinha consulta.”

“Ela saiu?”

“Não.”

“Por quê?”

Ele afastou o celular.

“Não lembro.”

“Minha mãe lembra. Sua mãe pediu que ela abrisse a máquina antes de sair.”

Marcelo passou a mão pela boca.

“Eu não participei disso.”

“Você estava na cozinha quando ela falou dos originais.”

Ele não negou.

Tive vontade de levantar e terminar a conversa. Mas precisava saber até onde o conhecimento dele ia.

“O que Vera te disse que havia nesses papéis?”

“Provas do que seu pai fez.”

“Do que ele fez a quem?”

“Ao meu pai.”

A voz saiu mais alta.

Esperei.

Marcelo se inclinou para a frente.

“Você cresceu ouvindo que Antônio ajudava todo mundo. Eu cresci ouvindo outra história. Minha mãe trabalhou naquela empresa, meu pai assinava as obras, e quando o dinheiro sumiu quem ficou com tudo foi o seu pai.”

“Tudo o quê?”

“Terrenos. Contratos. A empresa.”

“Você viu documentos mostrando isso?”

“Vi o livro.”

“A pasta vermelha?”

Ele assentiu.

Abri no computador a cópia da página guardada no acervo de meu pai.

“Ontem sua mãe mostrou uma folha com esse mesmo cabeçalho. O valor era outro.”

Marcelo aproximou o rosto.

“Pode ser de outro mês.”

“A data é a mesma.”

“Uma pode ter sido corrigida.”

“Pode. Quero descobrir qual e por quê.”

Ele ficou olhando para a tela.

“Ela me mostrou isso quando a gente começou a namorar.”

Senti um peso frio no estômago.

“Você entrou no nosso casamento achando que minha família devia à sua?”

“Eu não casei por dinheiro.”

“Não foi o que perguntei.”

Marcelo levantou os olhos.

“Eu achei que seu pai podia ter ajudado mais. Minha mãe dizia que ele tinha condições e deixou a gente se virar.”

Lembrei dos favores concedidos, das contas que eu cobria quando os contratos dele atrasavam, das vezes em que Vera chamava qualquer limite meu de egoísmo.

“Quando eu pagava alguma coisa”, perguntei, “você achava que era uma ajuda ou uma dívida sendo acertada?”

Ele abriu a boca.

Não respondeu.

Fechei o computador.

“Eu vou verificar esses documentos. Você pode me entregar o que viu ou continuar repetindo a versão dela.”

“Ela é minha mãe.”

“E Lúcia é a minha.”

Marcelo se levantou e caminhou até a janela.

Na rua, os gêmeos riam com Célia. Ele ficou ouvindo por alguns segundos.

“Eu devia ter te contado que ela se machucou”, disse.

“Você devia ter impedido. E depois não devia ter colocado a mão nela.”

Ele apoiou a testa na grade da janela.

“Eu estava irritado. Ela disse que eu tratava vocês como se fossem obrigadas a me sustentar.”

“E você respondeu empurrando uma mulher de sessenta e oito anos?”

“Eu puxei pelo ombro. Foi rápido.”

“Foi suficiente para machucar.”

Ele assentiu, ainda de costas.

Não pedi desculpas por não consolar meu marido.

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Quando se virou, perguntou:

“Se eu te trouxer o livro, você vai ouvir o que eu tenho para dizer?”

“Vou ouvir o que os documentos mostram. Isso não apaga o resto.”

Marcelo saiu pelo portão.

Meu primeiro impulso foi telefonar para Otávio. Esperei até ter certeza de que ele não estava apenas tentando ganhar tempo.

Vinte minutos depois, voltou com a pasta vermelha dentro de uma sacola de mercado.

“Ela está na casa da minha tia”, disse. “Peguei no armário.”

Colocou a sacola sobre a mesa.

Antes de abrir, fotografei a pasta fechada. Marcelo assistiu sem protestar.

Dentro havia folhas encadernadas, recibos soltos e cópias de correspondências antigas.

Encontramos a página que Vera mostrara.

Ao lado da versão digital, as diferenças ficaram mais claras. O papel tinha sido substituído: a margem interna estava cortada de outro jeito, e os furos não alinhavam com os das folhas seguintes.

Isso, sozinho, não explicava quem fizera a troca.

Mas já impedia que eu aceitasse o livro como um conjunto intacto.

Marcelo tocou a borda da página.

“Nunca reparei.”

“Você procurou?”

Ele retirou a mão.

Continuei virando as folhas, sem desmontar a encadernação.

Perto do fim, apareceu um comprovante recente dobrado entre dois recibos de 1997.

Não pertencia ao livro.

Tinha sido emitido cinco meses antes, por um serviço de entrega.

O remetente era Vera Nogueira.

O destinatário, Álvaro.

Marcelo pegou o papel antes que eu terminasse de ler. As mãos dele começaram a tremer.

“Isso não pode ser.”

O comprovante registrava a entrega de um envelope a uma casa em Sorocaba.

Abaixo do nome do destinatário havia uma assinatura e uma confirmação de recebimento.

Marcelo olhou para mim.

“Minha mãe disse que ninguém sabia onde ele estava.”

Ampliei a fotografia no celular.

Vera não havia encontrado aquele endereço por acaso dentro de um livro antigo.

Ela mandara um envelope para lá.

E alguém o recebera cinco meses antes.

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