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"Ela Apontou Uma Arma Para Mim. Depois Disse Que Eu Tinha Uma Filha." Capítulo 3 — A Carta Que Nunca Chegou

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Capítulo 3 — A Carta Que Nunca Chegou

Não abri a carta enquanto dirigia.

Guardei-a no bolso interno do paletó e segui até uma garagem pequena na zona oeste, longe das propriedades registradas em nome dos Bellini.

Eu a comprara anos antes por meio de uma empresa encerrada. Nem Joel sabia que a chave ainda estava comigo.

Rafael conhecia o lugar.

Por isso, antes de entrar, obriguei-o a me entregar o celular.

Também desliguei o meu.

Lívia observou enquanto eu fechava o portão.

“Você acha que rastrearam a gente?”

“Acho que alguém abriu a minha casa para me matar. Vou partir do pior.”

No escritório dos fundos havia uma pia, um sofá e uma caixa de primeiros socorros.

Isabela se sentou perto da tia. Rafael permaneceu de pé.

Tirei o envelope.

O papel estava dobrado em três partes. A tinta tinha perdido força nas bordas, mas a primeira frase continuava legível.

Dante, eu não fui embora porque deixei de amar você.

Sentei-me.

Durante quinze anos, eu tinha odiado Helena por exatamente isso.

Continuei lendo.

Ela dizia que haviam mostrado fotografias de Lívia saindo da escola. Sabiam os horários, o trajeto do ônibus, o nome da vizinha que guardava uma chave.

Disseram que eu escolheria a família.

Disseram que, se ela me procurasse, a irmã pagaria.

No último parágrafo, a letra ficava menor.

Estou grávida. Não sei se esta carta vai chegar. Preciso que você saiba que tentei.

Li duas vezes.

Na terceira, as palavras começaram a se misturar.

“Quem recebeu isso?”, perguntei.

Lívia respondeu:

“Esse é o rascunho que ela guardou. A carta foi enviada por uma mulher em quem ela confiava.”

Olhei para Rafael.

Ele não desviou.

“Você sabia.”

O silêncio dele confirmou antes da voz.

“Eu sabia que havia ameaças.”

Levantei.

Rafael aceitou o primeiro soco sem tentar se defender.

Bateu contra o armário, derrubando uma caixa vazia. Isabela se encolheu no sofá.

Ouvi a respiração dela.

Foi o que me impediu de bater de novo.

Afastei-me.

Lívia se colocou diante da sobrinha.

“Ela já viu gente demais resolver as coisas assim.”

Abaixei as mãos.

Rafael limpou o sangue do lábio.

“Eu levei a mensagem de que Helena queria terminar.”

“Você me entregou a carta.”

“Entreguei uma carta.”

“Você sabia que não era dela?”

Ele olhou para Isabela.

“Olhe para mim”, ordenei.

“Desconfiei depois.”

“Depois de quanto tempo?”

“Quando tentei encontrar Helena. Seu tio disse que ela já tinha deixado São Paulo.”

Não falou que Augusto mandara falsificar nada. Não tinha prova disso, e eu ouvi a diferença.

“E você parou.”

Rafael assentiu.

“Parei.”

Não havia defesa suficiente para aquilo.

“Sabia da gravidez?”

“Não. Soube da Isabela no começo deste ano.”

Lívia confirmou com um movimento de cabeça.

“Foi quando ele encontrou uma pessoa que trabalhou com a minha irmã.”

“E levou seis meses para me contar?”

“Quando cheguei até elas, alguém já estava procurando a menina. Com fotos suas, perguntando quem era o pai.”

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Senti a raiva mudar de direção.

“Quem?”

“Não conseguimos identificar”, Lívia disse. “Mas citaram lugares onde minha irmã tinha morado. Lugares que eu nunca contei ao Rafael.”

Observei os três.

Rafael tinha mentido no passado. Lívia ocultara o motivo da contratação. Isabela segurava as alças da mochila como se eu também pudesse desaparecer.

Eu precisava de fatos.

Peguei o telefone fixo da garagem e liguei para Teresa Alencar, a médica que cuidava de mim fora dos hospitais usados pela família.

Não contei onde estava.

Pedi que trouxesse material para tratar um corte e providenciasse uma coleta de parentesco, com discrição e identificação correta das amostras.

Quando desliguei, Isabela estava me olhando.

“Você vai fazer um exame?”

“Vou.”

Ela baixou os olhos.

Aproximei uma cadeira, mas não sentei perto demais.

“Não estou pedindo que você prove que merece estar aqui.”

“É o que parece.”

Aceitei a resposta.

“Preciso confirmar uma coisa que esconderam de mim. Seja qual for o resultado, ninguém vai entregar você aos homens que estão procurando sua família.”

Ela olhou para a tia.

Lívia não respondeu por ela.

“Eu quero fazer”, Isabela disse. “Também quero saber.”

Assenti.

Era a primeira decisão que tomávamos sem alguém escolher pelo outro.

Enquanto esperávamos, Lívia lavou o sangue das mãos. Vi um corte pequeno perto do polegar.

Abri a caixa de primeiros socorros.

“Deixe eu ver.”

“Você precisa cuidar da sua.”

“Eu vou.”

Ela estendeu a mão.

Limpei o corte, ouvindo o ruído da água ainda correndo na pia.

“Por que não foi embora depois de encontrar a parede?”, perguntei.

“Porque eu estava na sua casa para descobrir quem estava atrás dela.”

Olhou para Isabela.

“Fugir sem saber não resolvia.”

“Você não é investigadora.”

“Não. Mas sei quando mudam uma escala. Sei quando um funcionário recebe dinheiro por fora. E sei que ninguém olha duas vezes para uma mulher carregando um balde.”

Pegou um caderno fino de dentro do avental.

Páginas dobradas, datas, horários, números de notas fiscais.

Também havia fotografias impressas.

“Não levei documentos que fariam falta. Copiei o que podia.”

Uma cobrança de manutenção chamou minha atenção. O serviço descrito era substituição de câmeras.

O pagamento tinha sido autorizado antes de os equipamentos serem desligados.

Examinei o nome da prestadora.

Horizonte Serviços Integrados.

Eu o conhecia.

Não da segurança.

De contas antigas relacionadas a propriedades administradas pelo meu tio.

“Rafael. O que você encontrou sobre Helena?”

Ele abriu a pasta que deixara junto à porta.

Retirei os documentos sem permitir que se aproximasse.

Havia comprovantes de aluguel pagos por terceiros e uma transferência feita poucas semanas depois da partida dela.

O beneficiário intermediário tinha o mesmo nome.

Horizonte.

Coloquei os dois papéis lado a lado.

“Isso não prova quem mandou”, Lívia observou.

Olhei para ela.

“Eu sei.”

Foi a primeira vez que percebi que ela não estava tentando alimentar minha raiva. Queria uma resposta que sobrevivesse a perguntas.

Rafael apontou uma data.

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“Essa empresa mudou de dono várias vezes. Mas continuou prestando serviços ao grupo.”

Fotografei os documentos com um aparelho antigo guardado na gaveta. Fiz duas cópias e mantive os originais separados.

Eu tinha uma ligação entre o passado e aquela noite.

Ainda não tinha a história inteira.

Teresa chegou perto das duas da manhã, acompanhada de uma profissional responsável pela coleta. Conferiu nossos documentos, explicou o procedimento e tratou minha mão.

Isabela observou cada etapa.

Antes de ir embora, Teresa olhou para meu paletó rasgado.

“Não vou perguntar por telefone o que aconteceu.”

“Melhor assim.”

“Não. Melhor seria você não precisar pedir isso.”

Ela conhecia minha vida o suficiente para não se impressionar.

Quando a porta se fechou, mandei Rafael buscar comida na cozinha da garagem. Lívia deitou Isabela no sofá, cobrindo-a com um casaco limpo.

A menina segurou o pulso da tia antes de fechar os olhos.

“Você vai ficar?”

“Vou.”

Voltei para a mesa.

“Também vou”, falei.

Isabela não respondeu, mas soltou o pulso de Lívia.

Rafael trouxe pão, água e duas latas de atum. Um homem acostumado a escolher vinhos para ministros colocou aquela comida na mesa sem comentar.

Eu não comi.

Abri o computador antigo da garagem e consultei as notícias.

Ainda não havia confirmação sobre mim. A primeira reportagem falava em interrupção de um evento privado e movimentação policial perto da propriedade.

Podíamos aproveitar aquele vazio.

“Não vamos avisar que saí”, disse.

Lívia ergueu a cabeça.

“Vão pensar que você morreu?”

“Ou que estou ferido. Quem preparou isso vai precisar agir antes que eu reapareça.”

Rafael entendeu.

“Vão tentar assumir o controle.”

“E vão deixar rastros.”

Lívia aproximou sua cadeira.

“Enquanto isso, minha sobrinha fica escondida numa garagem?”

“Por algumas horas. Depois arrumo um lugar melhor.”

“Quero saber qual lugar antes de você decidir.”

Olhei para o sofá.

Depois para ela.

“Você vai saber.”

Na tela, uma nova manchete apareceu.

O texto vinha acompanhado de uma fotografia minha na entrada do salão.

DANTE BELLINI É INVESTIGADO APÓS ATAQUE EM EVENTO BENEFICENTE.

Atualizei a página.

Outra reportagem citava uma fonte próxima à família. Segundo ela, eu teria usado a festa para acertar contas com antigos parceiros e fugido antes da chegada da polícia.

Rafael começou a falar.

Levantei a mão, pedindo silêncio.

A transmissão ao vivo abriu alguns segundos depois.

Meu tio Augusto estava diante dos portões da minha casa, cercado por repórteres.

Parecia abalado.

Atrás dele, Joel conversava com um policial.

“Meu sobrinho precisa se apresentar”, Augusto dizia. “Se ele não tem nada a esconder, não há motivo para fugir.”

Lívia olhou para mim.

Fechei a mão ferida sobre a carta de Helena.

Eles não queriam apenas me matar.

Já tinham preparado a história que contariam se eu sobrevivesse.

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