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"Ela Apontou Uma Arma Para Mim. Depois Disse Que Eu Tinha Uma Filha." Capítulo 2 — A Menina Que Me Chamou de Pai

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Capítulo 2 — A Menina Que Me Chamou de Pai

“Eu não tenho filha.”

Lívia não tentou me convencer com palavras.

Enfiou os dedos sob o colarinho e puxou uma corrente de prata. Na ponta havia um medalhão oval, amassado perto da dobradiça.

Ela o abriu.

A luz da minha lanterna caiu sobre uma fotografia pequena.

Helena.

Não a mulher que eu imaginara envelhecendo em algum lugar longe de mim. A Helena de vinte e dois anos, com os cabelos presos atrás da orelha e aquele sorriso que começava de um lado só.

A fotografia tinha sido tirada na minha varanda.

Eu estava fora do enquadramento. Lembrava porque fora eu quem apertara o botão.

Segurei o medalhão.

“De onde tirou isso?”

“Era da minha irmã.”

Olhei de novo para Lívia.

O sobrenome Duarte constava na ficha de contratação. Eu não fizera a associação. Helena tinha ido embora quinze anos antes. A irmã mais nova era uma adolescente de quem eu guardava apenas a imagem de um uniforme escolar.

“Você é a Lívia.”

“Sou.”

Lembrei de Helena dizendo que precisava buscar a irmã na escola. Lembrei de reclamar que ela passava tempo demais cuidando de todo mundo.

Agora, aquela menina estava diante de mim, adulta, com sangue de um funcionário meu nas mãos.

“Helena morreu.”

“Há quatro anos.”

A notícia que eu recebera falava em muito mais tempo.

Meu tio me mostrara uma página de jornal. Um acidente na estrada. Um carro queimado.

O nome dela estava lá.

“Disseram que...”

Uma pancada ecoou atrás de nós.

Lívia fechou o medalhão.

“Depois.”

Dessa vez, não precisei que repetisse.

Seguimos pelo túnel. Ela iluminava o chão com um pequeno aparelho que tirara do avental. Eu mantinha minha lanterna voltada para trás.

“Quem está na saída?”, perguntei.

“Rafael.”

Parei.

Ela deu mais dois passos antes de perceber.

“Rafael Moreira?”

“Sim.”

“Foi ele que mandou você me tirar da festa?”

“Ele me colocou na casa. O ataque aconteceu antes do que esperávamos.”

Rafael estivera no salão comigo. Vinte minutos antes de Lívia aparecer, dissera que precisava atender uma ligação.

Eu o conhecia desde os dezessete anos.

Já tinha arriscado a vida por ele.

Talvez devesse ter aprendido com Joel.

“Há quanto tempo vocês se falam?”

“Seis meses.”

“Você entrou na minha casa com uma identidade verdadeira e um motivo falso.”

“Entrei para descobrir por que estavam perguntando pela Isabela.”

O nome ficou entre nós.

Isabela.

“Ela tem quantos anos?”

“Quatorze.”

Fiz a conta antes de conseguir impedir.

Lívia viu.

“Helena já estava grávida quando foi embora.”

Apertei a pistola.

“Ela teria me contado.”

“Ela tentou.”

“Você sabe disso porque sua irmã disse?”

“Porque guardei o que ela deixou.”

Outra pancada.

Mais perto.

Lívia segurou minha manga.

“Pode me interrogar ou pode continuar andando. Não dá para fazer os dois parado.”

Eu continuei.

O túnel terminou numa sala de bombas desativadas. Uma lâmpada fraca iluminava a porta de aço do outro lado. O cadeado antigo tinha sido substituído por um novo.

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Alguém usara aquela passagem recentemente.

Lívia tirou uma chave do bolso.

Segurei sua mão antes que chegasse à fechadura.

“Existe outra saída?”

“Uma escada até a garagem de manutenção.”

“E atrás dessa porta?”

“Um corredor. Depois, a sala dezessete.”

“Você esteve lá?”

“Hoje à tarde.”

Examinei o vão inferior. Nenhuma sombra se movia. Na lateral, uma janela estreita de inspeção estava coberta por poeira.

Limpei o vidro com a manga.

Vi caixas empilhadas e uma segunda porta, aberta.

Nada além.

O celular de Lívia vibrou.

Ela me entregou sem que eu pedisse.

A mensagem vinha de um número sem nome.

A MENINA ESTÁ SEGURA. TRAGA ELE PARA A SALA 17.

“Responda que ele deve vir sozinho.”

Lívia me encarou.

“Dante...”

“Você quer que eu confie em Rafael porque confiei nele durante vinte anos?”

Ela digitou.

Uma bota raspou a pedra do túnel.

Puxei Lívia para trás da bomba velha.

A luz de uma lanterna apareceu na curva.

Um tiro atingiu o metal acima do meu ombro.

O estrondo foi menor do que deveria, mas o impacto arrancou lascas da parede.

Atirei em direção à luz. Ela se apagou.

Lívia abriu o cadeado. Atravessei depois dela e fechei a porta de aço. Giramos juntos a tranca interna.

Uma bala bateu do outro lado.

“Isso não segura muito tempo”, ela disse.

“Então não vamos ficar aqui.”

Examinei o corredor. Encontrei a escada indicada, subi três degraus e vi uma saída para o pátio de manutenção.

Não havia veículo diante dela.

Voltei.

Três batidas soaram na porta da sala dezessete.

“Sou eu.”

Rafael.

“Abra devagar”, ordenei. “Mãos vazias.”

A porta se moveu.

Ele apareceu de camisa branca, sem paletó. Um corte atravessava sua sobrancelha. Trazia as mãos abertas na altura do peito.

Apontei a arma.

Lívia ficou ao meu lado.

Rafael olhou para ela.

“Você conseguiu.”

“Não fale com ela. Fale comigo.”

Ele sustentou meu olhar.

“O portão norte ainda está sob controle do Joel. Não podemos sair por lá.”

“Você sabia do ataque.”

“Descobri que haveria uma movimentação durante a festa. Não sabia quem estava dentro.”

“E decidiu colocar uma governanta entre mim e quatro homens armados?”

“Decidi colocar alguém que não fosse ouvido como inimigo.”

“Alguém descartável?”

Lívia tocou meu braço.

“Eu aceitei.”

“Você aceitou sem saber que eles entrariam hoje.”

“Isso é verdade”, Rafael disse.

A resposta não o ajudou.

Atrás da porta de aço, um golpe pesado fez a tranca vibrar.

Rafael estendeu uma chave.

“Tem uma caminhonete na garagem externa. Saímos pelo acesso da oficina.”

“Quem está com você?”

Ele demorou meio segundo.

Foi suficiente.

Aproximei a arma.

“Quem?”

Uma voz veio da sala.

“Eu.”

Rafael virou o rosto.

“Isabela, fica aí.”

A menina apareceu mesmo assim.

Vestia calça jeans, tênis brancos e um casaco azul grande demais. Segurava uma mochila contra o peito.

O rosto tinha o formato do de Helena.

Mas, quando parou diante de mim, pressionou a unha do polegar contra a lateral do indicador.

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Eu fazia aquilo desde criança.

Meu pai reclamava que um Bellini não devia mostrar nervosismo.

Baixei a arma alguns centímetros.

A menina olhou para ela, depois para mim.

“Você está machucado?”

Demorei a entender que falava da minha mão.

“Não é nada.”

Lívia se aproximou e tocou o rosto dela.

“Você está bem?”

Isabela assentiu, sem parar de me olhar.

Rafael falou meu nome.

Eu não respondi.

Tinha passado os últimos minutos tentando não morrer. Agora, uma garota de quatorze anos estava diante de mim e eu não sabia onde colocar as mãos.

Ela molhou os lábios.

“Pai?”

A palavra saiu incerta, quase uma pergunta.

Eu pensei em dizer que precisávamos confirmar. Pensei em perguntar por Helena. Pensei em todas as explicações que um homem usa quando tem medo de responder à coisa certa.

Nenhuma saiu.

Um golpe sacudiu a porta de aço.

Isabela deu um passo para trás.

Recuperei o movimento.

“Vamos.”

Na garagem, entreguei a Rafael a chave que ele trouxera.

“Eu dirijo. Você fica atrás.”

Lívia ajudou Isabela a entrar. Saí pelo acesso da oficina com os faróis apagados até ultrapassar a cerca baixa do terreno anexo.

Só então acendi as luzes.

Na avenida, o trânsito seguia como se a minha casa não estivesse cheia de homens tentando me matar.

Isabela estava no banco traseiro, atrás de mim.

“Se a minha tia não tivesse voltado”, perguntou, “você nunca ia saber que eu existia?”

Olhei pelo retrovisor.

“Eu não sabia.”

“Não foi isso que eu perguntei.”

Não havia acusação na voz.

Isso tornou tudo pior.

“Eu teria procurado”, respondi. “Se soubesse que havia o que procurar.”

Ela ficou quieta por alguns segundos.

Depois abriu a mochila.

“Minha mãe também tentou.”

Uma mão pequena apareceu entre os bancos, segurando um envelope envelhecido.

Meu nome estava escrito nele.

Na letra de Helena.

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