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"Ela Apontou Uma Arma Para Mim. Depois Disse Que Eu Tinha Uma Filha." Capítulo 1 — A Arma Nas Minhas Costas

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Capítulo 1 — A Arma Nas Minhas Costas

A arma encostada nas minhas costas era da minha própria casa. A mão que a segurava pertencia à faxineira.

A nove metros de nós, setecentas pessoas aplaudiam um vídeo sobre a minha generosidade.

No telão, eu abraçava crianças diante de uma escola reformada pelo Instituto Bellini. No corredor, uma mulher de uniforme preto pressionava o cano de uma pistola contra a minha escápula.

Minha mão estava a poucos centímetros da arma sob o paletó.

“Você está segurando isso errado”, murmurei.

Ela aproximou a boca do meu ombro.

“Então não me obrigue a descobrir se consigo atirar.”

Reconheci a voz. Lívia Duarte. A governanta temporária que havia assumido a equipe doméstica dezoito dias antes.

Eu sabia o nome porque assinara sua contratação.

Não sabia por que ela estava prestes a morrer.

“Afaste a arma. Devagar.”

“Quatro homens entraram pela doca. Joel abriu o portão.”

Continuei olhando para o reflexo de nós dois no vidro da porta.

Joel Batista comandava minha segurança havia doze anos. Tinha carregado meu pai até uma ambulância. Conhecia minhas rotas, meus horários e o quarto onde eu dormia.

“Escolha melhor a sua mentira.”

“Ele atirou no vigia que perguntou pelo registro da entrega.”

O tremor na mão dela passou para o tecido do meu paletó.

“Como você conseguiu essa pistola?”

“O vigia deixou cair. Eu estava levando café para a portaria.”

Uma gota vermelha escorria do punho dela.

Não parecia sangue suficiente para ser de um ferimento próprio.

No salão, o apresentador anunciou meu nome. Os aplausos aumentaram.

Eu deveria voltar, subir ao palco, agradecer aos empresários que compravam respeitabilidade em mesas de vinte mil reais.

Em vez disso, toquei o comunicador escondido sob a gola.

“Joel. Qual é a situação no corredor oeste?”

Um segundo.

Dois.

“Normal, senhor. Pode voltar ao salão.”

A voz era dele.

Lívia apertou meu braço com a mão livre.

“Não volte.”

“Confirmar protocolo”, falei. “Jardim.”

A resposta daquela noite deveria ser “inverno”. Eu a escolhera pessoalmente às seis da tarde.

Joel respondeu:

“Seguro.”

Uma palavra errada. Doze anos encerrados em seis letras.

Retirei o dedo do comunicador.

“Não fale mais nele”, Lívia sussurrou. “Eu ouvi um dos homens pedindo a sua localização.”

Olhei para o corredor que levava à cozinha.

Vazio.

Vazio demais.

Durante uma festa daquele tamanho, deveria haver garçons, bandejas, caixas, gente reclamando do calor. Agora, as portas de serviço estavam fechadas.

“Para onde você quer me levar?”

“Elevador de carga. Depois, subsolo.”

“As câmeras do subsolo estão desligadas.”

“Eu sei.”

Virei o rosto o suficiente para enxergá-la.

Os olhos castanhos estavam arregalados. Havia sujeira no colarinho branco, e uma mecha solta grudava na boca.

“Quem contou?”

“Ninguém. Eu vi cortarem os fios na terça-feira passada.”

“E não avisou?”

“Entreguei um relatório ao Joel.”

Atrás da porta do salão, meu tio Augusto ria de alguma coisa.

Senti o estômago endurecer.

Lívia não desviou os olhos.

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“Ele disse que resolveria.”

Um trinco se moveu na outra ponta do corredor.

Eu segurei a mão armada dela, baixando o cano entre nossos corpos.

“Agora você anda comigo.”

Não arranquei a pistola. Ainda não.

Seguimos lado a lado, como patrão e funcionária discutindo um problema que não deveria aparecer na festa. Abri a porta de serviço sem pressa.

Assim que ela se fechou, saquei minha arma.

Lívia olhou para a pistola na minha mão e engoliu em seco.

“Se eu quisesse matar você”, disse, “teria deixado que entrasse no salão.”

“Se eu acreditasse que quer me matar, você não estaria andando.”

Ela apertou o botão do elevador.

Um ruído metálico veio da escada.

Puxei Lívia para trás de uma coluna. Dois homens atravessaram o corredor inferior carregando armas compridas sob casacos escuros.

Um deles tocou o ouvido.

“O alvo saiu da antessala.”

Alguém respondeu pelo rádio, baixo demais para eu entender.

O homem olhou para o elevador.

As portas se abriram.

Entrei com Lívia e apertei o botão do subsolo. Quando o elevador começou a descer, ela acionou a parada de emergência.

“Precisamos conversar.”

“Precisamos sair.”

“Tem gente esperando lá embaixo.”

A luz amarela iluminou o sangue seco nos dedos dela.

“Você disse subsolo.”

“Eu disse que havia uma saída. Não que o caminho estava livre.”

Minha vontade foi sacudi-la até que todas as informações caíssem de uma vez.

Em vez disso, observei o painel.

O elevador servia a quatro níveis. Adega no primeiro subsolo. Depósitos no segundo. A sala de máquinas ficava entre eles, acessível pela escada técnica.

“Você conhece a porta de manutenção?”

“Fica atrás dos carrinhos de lavanderia.”

Desativei a parada, selecionei o primeiro subsolo e mantive minha arma apontada para o chão.

Quando as portas abriram, empurrei um carrinho para dentro, apertei o segundo subsolo e saí com Lívia.

O elevador continuou sozinho.

Ela me olhou.

“Vão seguir o indicador.”

“Por alguns segundos.”

Eram os segundos que tínhamos.

Atravessei a adega pelo corredor central. No fundo, uma porta estreita escondia a escada técnica.

Lívia passou à minha frente.

“Por aqui.”

Ela apontou para um armário de produtos de limpeza. Atrás dele, a parede tinha uma faixa de reboco recente.

“Isso não é uma saída”, falei.

“Meu relatório também dizia que havia infiltração. Ninguém leu essa parte.”

Ela se ajoelhou e tirou dois tijolos soltos da base.

Atrás deles havia escuridão.

Meu pai mencionara aquele túnel uma única vez. Um canal antigo, construído antes da ampliação da propriedade. Dissera que estava condenado.

Ajoelhei-me ao lado dela e retirei outro tijolo.

O cimento cedeu fácil demais.

“Você preparou isso.”

“Depois que vi as câmeras sendo desligadas.”

“Por que continuou aqui?”

Lívia puxou uma pequena ferramenta de dentro do avental e me entregou.

“Pergunte quando estivermos vivos.”

Não gostei da resposta.

Gostei menos de precisar dela.

Trabalhamos em silêncio. Cortei a palma da mão numa borda quebrada. Lívia afastou o entulho usando o próprio avental, impedindo que as peças batessem no piso.

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Um estrondo veio da adega.

“Confere o depósito!”

A abertura ainda era estreita.

Passei a ferramenta para ela.

“Entre.”

“Você primeiro.”

“Não vou discutir isso aqui.”

Lívia se virou de lado e atravessou. Eu a segui, raspando o paletó nos tijolos.

Ela tentou recolocar uma peça na abertura.

Segurei seu pulso.

Tarde demais.

Uma lanterna varreu o depósito.

Ficamos imóveis, agachados dentro da passagem, enquanto a luz atravessava uma fresta acima da minha cabeça.

Minha arma estava erguida. A mão de Lívia apertava meu antebraço com tanta força que senti as unhas.

Se aquele homem olhasse para baixo, eu teria de atirar. O disparo denunciaria nossa posição aos outros.

“Tem alguma coisa aí?”, perguntou alguém.

O feixe ficou parado.

Um rádio chiou.

“O elevador chegou vazio. Desçam. Agora.”

A luz desapareceu.

Esperei até ouvir a porta bater.

Então puxei Lívia para longe da abertura.

O túnel cheirava a terra úmida e ferrugem. Água fria cobria o solado dos meus sapatos. Acendi a lanterna pequena presa ao chaveiro e vi marcas recentes na lama.

Mais alguém conhecia aquele caminho.

Lívia começou a tremer.

Primeiro os dedos. Depois os ombros. Encostou a mão na parede, mas os joelhos cederam.

Guardei a pistola por um instante e a segurei antes que caísse.

“Olhe para mim.”

Ela tentou respirar. O ar não entrava direito.

“O vigia”, conseguiu dizer. “Ele perguntou se eu tinha colocado açúcar.”

Eu fiquei quieto.

“Foi a última coisa que ele me perguntou.”

Aquela mulher não estava tremendo porque segurara uma arma contra Dante Bellini.

Estava tremendo porque vira um homem morrer por fazer seu trabalho.

“Qual era o nome dele?”

“Márcio.”

Eu o conhecia. Dois filhos. Turno noturno desde janeiro.

“Eu vou lembrar”, disse.

Lívia fechou os olhos.

Acima de nós, algum peso se arrastou pelo piso. O perigo não tinha acabado.

Ajudei-a a ficar em pé.

“Você poderia ter se escondido. Por que voltou?”

Ela limpou o rosto com o dorso da mão.

“Não fiz isso por você.”

Olhei para a passagem atrás dela, depois para seus olhos.

“Então por quem?”

Lívia respirou fundo.

“Pela sua filha.”

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