"O Filho do Chefe da Máfia Apontou Para Mim Entre Todas as Mulheres… E Disse: “Ela Estava Comigo Naquele Dia”" Capítulo 1 — A Mulher Que Gabriel Escolheu
As risadas morreram no instante em que Gabriel Montenegro levantou o dedo.
Até então, o salão principal da mansão em Jardim Europa parecia cenário de uma festa criada para aparecer nas colunas sociais de São Paulo. Lustres de cristal iluminavam vestidos importados, taças de champanhe e mulheres escolhidas a dedo entre famílias influentes.
Todas estavam ali pelo mesmo motivo.
Dante Montenegro.
Ou, pelo menos, era isso que fingiam não admitir.
Dante observava tudo perto da lareira, vestindo um terno preto impecável. Aos trinta e cinco anos, comandava o Grupo Montenegro e carregava um sobrenome que fazia empresários baixarem a voz antes de pronunciá-lo.
Naquela noite, porém, ele parecia preferir estar em qualquer outro lugar.
“Isso foi uma péssima ideia”, murmurou.
Bruno Almeida, chefe de sua segurança havia mais de dez anos, permaneceu ao lado dele.
“Gabriel precisa voltar a conviver com pessoas.”
“Conviver é diferente de colocar oito mulheres na minha sala para disputar a atenção de uma criança.”
Bruno não respondeu.
A ideia havia começado como uma tentativa discreta de apresentar novas pessoas a Gabriel. Depois da morte da mãe, e principalmente depois do incidente ocorrido oito meses antes, o menino havia se fechado.
Falava pouco.
Não gostava de estranhos.
Acordava chorando no meio da madrugada.
E Dante, acostumado a resolver problemas com dinheiro, influência ou medo, descobrira da pior maneira que nenhuma dessas coisas funcionava com um filho de quatro anos.
“Dante.”
Valentina Sampaio aproximou-se sorrindo.
Ela usava um vestido vermelho elegante e segurava um pequeno carro esportivo de brinquedo.
“Posso tentar?”
Dante olhou para Gabriel.
O menino estava agarrado à perna do pai.
“Pergunte a ele.”
Valentina se abaixou.
“Gabriel, olha o que eu trouxe para você.”
O menino nem tocou no brinquedo.
Outra mulher tentou oferecer chocolate.
Uma terceira falou sobre cavalos.
Nada.
Então as portas laterais do salão se abriram.
Uma funcionária entrou primeiro.
Atrás dela apareceu uma mulher que claramente não pertencia àquela festa.
Isabela Oliveira Martins segurava um arranjo enorme de flores nos braços.
Seu vestido creme, simples, tinha pequenas flores alaranjadas. Os cabelos castanhos estavam presos de qualquer jeito, como se ela tivesse passado o dia inteiro trabalhando.
Ela parou ao perceber dezenas de olhos voltados para si.
“Desculpa. Eu só vim entregar o arranjo.”
Uma das convidadas riu discretamente.
“Pela entrada principal?”
Isabela ficou vermelha.
“O segurança mandou entrar por aqui.”
Dante mal prestou atenção.
Até sentir Gabriel soltar sua mão.
“Gabriel?”
O menino atravessou o salão.
Isabela colocou o arranjo sobre uma mesa, confusa ao vê-lo se aproximar.
Gabriel parou diante dela.
Olhou para seu rosto.
Depois para o vestido.
Flores pequenas.
Alaranjadas.
Os olhos do menino se arregalaram.
“É ela.”
Dante ergueu a cabeça.
“O quê?”
Gabriel apontou.
“Ela.”
Um sorriso surgiu no rosto de algumas convidadas.
Valentina cruzou os braços.
“Parece que finalmente alguém foi escolhido.”
Isabela olhou ao redor.
“Escolhida para quê?”
Dante ignorou a pergunta.
A expressão do filho havia mudado.
Gabriel não estava sorrindo.
Estava assustado.
“Gabriel”, Dante chamou. “Venha aqui.”
O menino não obedeceu.
Aproximou-se ainda mais de Isabela.
“Você voltou.”
Isabela empalideceu.
Dante percebeu.
Caminhou até os dois.
“Vocês se conhecem?”
“Não.”
A resposta de Isabela veio rápido demais.
Gabriel franziu a testa.
“Conhece, sim.”
“Gabriel…”
“Ela estava comigo.”
O salão ficou em silêncio.
Dante olhou para o filho.
“Quando?”
Gabriel apontou novamente para Isabela.
“Naquele dia.”
O rosto de Bruno mudou.
Foi quase imperceptível.
Mas Dante Montenegro havia sobrevivido tempo suficiente entre homens perigosos para notar quando alguém ficava nervoso.
Ele se abaixou diante do filho.
“Que dia?”
Gabriel hesitou.
Seus pequenos dedos agarraram a saia de Isabela.
“Quando eu fiquei sozinho.”
Dante ficou imóvel.
Oito meses antes.
A propriedade da família em Cotia.
Um encontro privado.
Funcionários.
Seguranças.
Parentes.
E, durante quarenta e sete minutos, Gabriel simplesmente desaparecera.
Nenhuma câmera mostrara como saiu.
Nenhum segurança soubera explicar.
Depois o encontraram quilômetros adiante, perto de uma estrada rural.
Ileso.
Assustado.
Dante havia interrogado todos naquela noite.
Ninguém sabia de nada.
Gabriel também não conseguira explicar.
Tinha apenas quatro anos.
Durante semanas, acordara de madrugada repetindo a mesma frase.
“A moça das flores me achou.”
Dante pensara que fosse uma memória confusa.
Uma enfermeira.
Alguma mulher que ele tivesse visto depois.
Talvez até um sonho.
Agora olhava para o vestido de Isabela.
Flores.
“Qual é o seu nome?”, perguntou.
Ela engoliu em seco.
“Isabela.”
“Isabela o quê?”
“Oliveira Martins.”
“Você já viu meu filho antes?”
“Não sabia que era seu filho.”
Dante sentiu o estômago endurecer.
Não era uma negativa.
“Então já viu.”
Isabela olhou para Gabriel.
O menino continuava agarrado à roupa dela.
“Foi há alguns meses.”
Bruno deu um passo.
“Dante, talvez seja melhor conversar em outro lugar.”
Dante virou lentamente o rosto para ele.
“Por quê?”
“Tem muita gente aqui.”
Dante percorreu o salão com os olhos.
As mulheres que minutos antes tentavam conquistar seu filho agora assistiam à cena sem respirar.
“Todo mundo para fora.”
Ninguém se moveu imediatamente.
Dante não levantou a voz.
“Agora.”
Funcionários começaram a conduzir os convidados.
Valentina permaneceu.
“Dante, eu posso ficar com Gabriel enquanto você—”
“Não.”
A palavra encerrou a discussão.
Em poucos minutos, restaram apenas Dante, Gabriel, Isabela, Bruno e Teresa Nogueira, a governanta da família.
Dante voltou-se para Isabela.
“Quero saber exatamente onde você viu meu filho.”
Ela respirou fundo.
“Perto de São Roque.”
Bruno desviou os olhos.
Dante percebeu outra vez.
“Que lugar?”
“Uma estrada secundária. Meu carro tinha quebrado.”
“Quando?”
“Uns oito meses atrás.”
Dante já sabia a resposta, mas precisava ouvi-la.
“Você encontrou uma criança sozinha?”
“Sim.”
“Era Gabriel?”
Isabela olhou para o menino.
“Era.”
Teresa levou a mão à boca.
Dante sentiu algo frio atravessar o peito.
“Por que nunca apareceu?”
“Porque eu não sabia quem ele era.”
“Você não perguntou?”
“Perguntei. Ele estava chorando. Só dizia o primeiro nome.”
Gabriel levantou o rosto.
“Ela me deu água.”
Isabela fechou os olhos por um instante.
A lembrança parecia atingir os dois ao mesmo tempo.
“Sim”, disse ela.
Dante se aproximou.
“Quem levou Gabriel de você?”
Isabela demorou a responder.
“Dois homens.”
Bruno ficou rígido.
“Que homens?”
“Eles disseram que trabalhavam para a família dele.”
Dante olhou diretamente para Bruno.
O relatório oficial afirmava outra coisa.
Naquela noite, Bruno Almeida declarara ter localizado pessoalmente Gabriel.
Dante ainda conseguia visualizar o documento.
Assinatura.
Horário.
Local.
Tudo.
“Foi ele?”
Dante apontou para Bruno.
Isabela examinou o rosto do segurança.
Um segundo.
Dois.
Então balançou a cabeça.
“Não.”
Bruno perdeu a cor.
Dante ficou imóvel.
“Tem certeza?”
“Absoluta.”
Gabriel se escondeu atrás de Isabela.
Aquilo foi pior.
Dante encarou o homem em quem confiava havia mais de uma década.
“Bruno.”
“Eu posso explicar.”
“Então explica.”
Bruno olhou para Isabela.
Depois para Gabriel.
“Não aqui.”
Dante aproximou-se até ficar a poucos centímetros dele.
“Meu filho desapareceu durante quarenta e sete minutos. Você escreveu que foi pessoalmente buscá-lo.”
Bruno respirou fundo.
“Eu sei.”
“Essa mulher diz que entregou Gabriel a dois homens que não eram você.”
Silêncio.
“Então um de vocês está mentindo.”
Bruno baixou os olhos.
Dante não precisou ouvir mais nada.
Virou-se para os seguranças que aguardavam do lado de fora.
Sua voz saiu baixa.
Gelada.
“Fechem os portões.”
Isabela o encarou.
“Como assim?”
Dante não tirou os olhos de Bruno.
“Ninguém entra.”
As portas começaram a se fechar.
“Ninguém sai.”
E, pela primeira vez em oito meses, Dante Montenegro percebeu que o desaparecimento do filho talvez nunca tivesse terminado.
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