"O Segredo da Empregada" Capítulo 5 — O Homem do Relógio
Isabela não conseguiu tirar os olhos do relógio de Marcelo.
Dourado.
Antigo.
Pesado demais para parecer apenas um acessório.
Era o mesmo brilho que vira na adega quando Rafael segurara seu pescoço contra a parede e o outro homem permanecera junto à mesa.
Marcelo percebeu.
Cobriu parcialmente o relógio com o punho da camisa.
“Algum problema, Isabela?”
“Não.”
“Tem certeza?”
“Tenho.”
Dante surgiu ao lado dela.
“Precisamos sair.”
Marcelo ergueu uma sobrancelha.
“Alguma emergência?”
“Assunto pessoal.”
“Posso ajudar?”
“Não.”
O sorriso de Marcelo permaneceu intacto.
“Claro.”
Quando passaram por ele, Isabela sentiu o olhar do homem em suas costas.
Só respirou novamente depois que entrou no carro.
Bruno dirigia.
Dante estava ao lado dela.
“Não faça isso outra vez.”
Isabela virou o rosto.
“O quê?”
“Olhar para o relógio dele como se tivesse acabado de reconhecer uma arma.”
“Eu reconheci.”
“Você reconheceu um relógio.”
“Minha mãe falou sobre um homem do relógio antes de morrer.”
“Isso não transforma Marcelo num assassino.”
“Eu não disse que transforma.”
“Seu rosto disse.”
Isabela cruzou os braços.
“Ele sabia do meu pescoço.”
“Eu sei.”
“Teresa não contou.”
“Eu sei.”
“Então?”
“Então estamos investigando.”
“Enquanto ele entra e sai da sua casa?”
Dante olhou pela janela.
“Marcelo trabalha com minha família há vinte e três anos.”
“Isso deveria tranquilizar?”
“Não.”
A resposta surpreendeu Isabela.
Dante continuou:
“Significa apenas que, se ele estiver envolvido, aprendeu a esconder rastros muito antes de você entrar naquela adega.”
O Hospital Santa Cecília ficava numa rua movimentada de São Paulo.
Isabela conhecia aquele lugar.
Não o prédio antigo, reformado anos antes, mas o cheiro.
Desinfetante.
Café ruim.
Ar-condicionado frio.
Hospitais sempre a levavam de volta aos últimos meses de Marina.
Dante percebeu quando ela diminuiu o passo.
“Quer esperar no carro?”
“Não.”
“Isabela.”
“Passei um ano entrando e saindo de hospital com minha mãe. Consigo atravessar um corredor.”
Eles foram até o arquivo administrativo.
Dante havia feito duas ligações no caminho.
Quando chegaram, uma supervisora já os esperava.
“Senhor Montenegro.”
“Precisamos consultar um registro antigo.”
Ela olhou para Isabela.
“De 2008.”
Dante colocou a fotografia sobre o balcão.
No verso:
Santa Cecília — 214.
A mulher examinou.
“Pode ser um número de guarda-volumes.”
Isabela se inclinou.
“O hospital tinha isso?”
“Antes da reforma, sim. Funcionários e acompanhantes podiam alugar pequenos compartimentos.”
“Os registros ainda existem?”
“Alguns.”
Foram levados até uma sala no subsolo.
Caixas antigas ocupavam estantes metálicas.
Bruno permaneceu no corredor.
A supervisora pesquisou em um computador.
“Duzentos e quatorze…”
Ela parou.
“Está aqui.”
Isabela segurou a respiração.
“Em nome de quem?”
A mulher aproximou o rosto da tela.
“Marina Oliveira Martins.”
Isabela fechou os olhos.
Dante ficou ao lado dela.
Não tocou.
“Quando foi aberto pela última vez?”, perguntou.
“Segundo o registro, em setembro de 2008.”
“Depois nunca mais?”
“Não.”
“E ainda existe?”
A supervisora hesitou.
“O conteúdo dos compartimentos antigos foi transferido durante a reforma.”
“Para onde?”
“Arquivo patrimonial.”
Foram até outra sala.
Um funcionário abriu uma porta de ferro.
Dentro havia dezenas de pequenos compartimentos numerados.
214.
Isabela aproximou-se.
A fechadura era minúscula.
A chave que sua mãe escondera no livro certamente caberia ali.
“Precisamos abrir”, disse Dante.
“Sem a chave, precisamos de autorização administrativa.”
“Consiga.”
A supervisora saiu.
Isabela passou os dedos pelo número.
“Ela deixou isso aqui por dezoito anos.”
“Talvez estivesse esperando o momento certo.”
“Ela morreu há dois.”
Dante não respondeu.
“Se eu não tivesse visto a adega, nunca saberia.”
“Talvez fosse exatamente isso que Marina queria.”
Isabela virou-se.
“Você sempre encontra uma maneira de justificar segredos.”
“Não estou justificando.”
“Está fazendo isso desde a cozinha.”
Dante sustentou o olhar.
“Eu preferiria que você nunca tivesse sido envolvida nisso.”
“Mas fui.”
“Sim.”
“Então pare de decidir o que posso saber.”
A porta abriu.
A supervisora voltou com um funcionário da manutenção.
Poucos minutos depois, a pequena fechadura foi removida.
O homem abriu o compartimento.
Vazio.
Isabela ficou sem reação.
“Não.”
Dante se aproximou.
Nada.
“Alguém chegou antes”, disse Bruno.
A supervisora consultou o registro.
“Isso não faz sentido.”
“Por quê?”
“Não existe anotação de abertura.”
Isabela sentiu o desespero subir.
“Então acabou?”
Dante iluminou o interior com o celular.
“Espere.”
Havia um pedaço de papel preso ao fundo.
Ele puxou.
Era um comprovante antigo.
Banco Paulista de Custódia.
Caixa privada 317.
Isabela pegou o papel.
“Outra chave.”
“Provavelmente.”
“E alguém roubou a nossa.”
Bruno recebeu uma mensagem.
Leu.
Seu rosto mudou.
“Dante.”
“O quê?”
“As câmeras da mansão.”
“Encontrou quem entrou no quarto?”
“Não exatamente.”
Bruno mostrou o celular.
O corredor do quarto de Isabela aparecia vazio.
Às 10h14, a imagem congelava.
Voltava às 10h29.
Quinze minutos apagados.
“Quem pode fazer isso?”, perguntou Isabela.
“Eu”, respondeu Bruno. “Dante. E duas pessoas do sistema de segurança.”
“Rafael?”
“Não.”
“Marcelo?”
Bruno olhou para Dante.
“Marcelo tem acesso administrativo porque supervisiona contratos de segurança do grupo.”
Isabela sentiu frio.
Dante pegou o telefone.
“Descubra onde ele está.”
Bruno ligou.
Pouco depois, respondeu:
“Na sede.”
“Tem certeza?”
“Crachá registrado há oito minutos.”
Isabela riu amargamente.
“Então ele está construindo um álibi.”
Dante olhou para ela.
“Ou realmente está trabalhando.”
“Você ainda está defendendo ele?”
“Estou evitando cometer o erro de acreditar apenas no que quero acreditar.”
Saíram do hospital.
No estacionamento, Isabela recebeu uma mensagem.
Número desconhecido.
Uma fotografia.
Lucas entrando no apartamento protegido naquela manhã.
Abaixo:
**PARE DE PROCURAR.**
Ela perdeu a cor.
Dante viu.
“Mostre.”
Isabela hesitou.
“Agora.”
Ela entregou o celular.
Dante leu.
A calma desapareceu de seu rosto.
Ligou para Bruno.
“Troque Lucas de lugar. Ninguém da equipe atual acompanha. Só você.”
“Entendido.”
“E encontre Rafael.”
Bruno se afastou.
Dante devolveu o celular.
“Ele não vai tocar no seu irmão.”
“Você não pode prometer isso.”
“Posso.”
“Como?”
“Porque agora eu sei que existe alguém dentro da minha estrutura entregando informações.”
“Marcelo.”
“Talvez.”
Isabela quase gritou.
“Ele sabia do meu pescoço! Usa o relógio! Tem acesso às câmeras!”
“E é exatamente por isso que pode estar sendo colocado no centro de tudo.”
Ela ficou em silêncio.
Dante continuou:
“Rafael quer que a gente olhe para algum lugar. A pergunta é por quê.”
O telefone de Isabela vibrou novamente.
Outra mensagem.
Desta vez, sem fotografia.
Apenas palavras:
**SUA MÃE TAMBÉM NÃO SOUBE PARAR.**
Isabela mostrou a Dante.
Ele leu duas vezes.
“Agora não é mais sobre o que você viu ontem.”
“Eu sei.”
“É sobre Marina.”
“Eu sei.”
“Você quer parar?”
Isabela olhou para ele.
“Minha mãe passou dezoito anos escondendo alguma coisa.”
“Isso não responde.”
“Passou os últimos meses de vida repetindo uma frase que eu achei que não fazia sentido.”
“Isabela.”
“E alguém acabou de usar minha mãe morta para me ameaçar.”
Ela guardou o celular.
“Não. Eu não quero parar.”
Dante assentiu.
“Então precisamos da chave.”
“Foi roubada.”
“Do livro.”
“Sim.”
“Mas talvez Marina tenha deixado outra.”
Isabela pensou.
Sua mãe desconfiava de tudo.
Guardava cópias de documentos.
Escondia dinheiro em lugares absurdos.
Então lembrou.
“Minha caixa de costura.”
Dante franziu a testa.
“O quê?”
“Depois que ela morreu, guardei a caixa de costura dela no meu apartamento.”
“Bruno vai buscar.”
“Não.”
“Não vamos ao seu apartamento sem verificar primeiro.”
“É minha casa.”
“E alguém sabe onde Lucas trabalha.”
“Você não manda em mim.”
“Não.”
Dante aproximou-se apenas o suficiente para baixar a voz.
“Mas prefiro que fique com raiva de mim a encontrar você sangrando de novo.”
Isabela não respondeu.
Horas depois, Bruno trouxe a caixa.
Entre carretéis e botões, encontraram um pequeno envelope costurado sob o forro.
Dentro havia uma chave.
E um bilhete escrito pela mão de Marina:
**317.**
Abaixo, outra frase.
Se chegaram até aqui, não confie em ninguém que diga que está protegendo você.
Isabela leu novamente.
Depois ergueu os olhos para Dante.
Pela primeira vez, percebeu que a advertência também podia ser sobre ele.
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