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"O Segredo da Empregada" Capítulo 4 — A Dívida de Dezoito Anos

正文开头

Naquela noite, Isabela não voltou para seu apartamento.

Dante insistiu que ela permanecesse na mansão.

Ela concordou por um único motivo.

Lucas também estava protegido pelos homens de Bruno.

Ainda assim, dormir era impossível.

Às seis da manhã, Isabela estava sentada na cama do quarto de hóspedes olhando para uma fotografia da mãe no celular.

Marina sorria para a câmera segurando um bolo simples de aniversário.

Nada naquela mulher parecia combinar com livros secretos, dinheiro escondido ou famílias poderosas.

Mas talvez essa fosse a parte que mais doía.

Isabela percebia que conhecera a mãe como filha.

Nunca como mulher.

Nunca como alguém que tivera medo.

Nunca como alguém que guardara segredos.

Às oito, bateram à porta.

“Pode entrar.”

Era Teresa.

A governanta carregava café, pão de queijo e frutas.

“Não estou com fome.”

“Eu não perguntei.”

Isabela quase sorriu.

Teresa colocou a bandeja.

“Dante saiu cedo.”

“Para onde?”

“Faria Lima.”

“Marcelo?”

Teresa parou.

“Como sabe?”

“Preciso falar com ele.”

“Dante não vai gostar.”

“Ele não é meu dono.”

“Eu sei.”

Teresa sentou-se.

“Mas Marcelo Ferraz é perigoso.”

Isabela observou a mulher.

“Mais do que Rafael?”

“Rafael é um homem violento.”

“E Marcelo?”

Teresa pensou antes de responder.

“Marcelo é um homem que quase nunca precisa levantar a voz.”

Aquilo pareceu pior.

“Você conheceu minha mãe?”

Teresa abaixou os olhos.

“Pouco.”

“Todo mundo conhecia Marina menos eu.”

“Você era criança.”

“Isso não é desculpa.”

“Para uma mãe com medo, pode ser.”

Isabela sentiu a garganta apertar.

“Ela veio aqui?”

“Algumas vezes.”

“Para trabalhar?”

“Sim.”

“Por que nunca me contou?”

“Marina pediu.”

“Por quê?”

“Ela disse que, quanto menos pessoas ligassem você aos Montenegro, melhor.”

Isabela ficou em silêncio.

“Então ela sabia que ainda estava em perigo.”

“Talvez.”

“E vocês deixaram ela ir embora sozinha?”

Teresa absorveu a acusação.

“Na época, ninguém entendia o tamanho daquilo.”

“Ela entendia.”

“Sim.”

Teresa parecia arrependida.

“E pagou por isso.”

Isabela levantou os olhos.

“O que quer dizer?”

Teresa percebeu que havia falado demais.

“Teresa.”

“Não sei se a doença da sua mãe teve alguma relação.”

“Mas suspeita.”

“Depois de ontem, suspeito de muitas coisas.”

Isabela levantou-se.

“Preciso encontrar Dante.”

Pouco depois das nove, ela entrou pela primeira vez na sede do Grupo Montenegro, na Avenida Faria Lima.

O prédio de vidro parecia outro universo.

Homens de terno reconheceram Dante quando ele atravessou o saguão ao encontro dela.

“Eu disse para ficar na mansão.”

“E eu disse que preciso falar com Marcelo.”

“Não.”

“Ele estava na adega.”

“Você não sabe.”

“Ele usa relógio?”

“Metade dos homens deste prédio usa.”

“Antigo. Dourado.”

Dante ficou em silêncio.

“Ele usa?”

“Sim.”

“Então quero vê-lo.”

“Isso não prova nada.”

“Eu sei.”

“Se Marcelo estiver envolvido, não podemos mostrar que suspeitamos.”

“Então me deixe trabalhar.”

Dante franziu a testa.

“Como?”

“Ele me conhece como empregada.”

“Exatamente.”

“Para ele, eu sou invisível.”

Dante compreendeu.

Isabela continuou:

“Homens como Marcelo falam na frente de mulheres como eu porque acham que não entendemos nada.”

正文1

“E Rafael quase matou você porque percebeu que entendia.”

“Por isso agora estou prestando mais atenção.”

Dante não gostou.

Mas concordou.

Às onze, Marcelo Ferraz chegou à mansão para uma reunião.

Isabela já estava de uniforme.

O hematoma no pescoço fora parcialmente escondido por uma gola mais alta.

Ela servia café quando Marcelo entrou.

Quarenta e seis anos.

Cabelos grisalhos nas têmporas.

Terno impecável.

Sorriso educado.

“Bom dia, Dante.”

“Marcelo.”

Ele cumprimentou Bruno.

Depois olhou para Isabela.

O sorriso não mudou.

“Bom dia.”

“Bom dia, senhor Ferraz.”

Ela colocou a xícara diante dele.

Então viu.

No pulso esquerdo.

Relógio dourado.

Antigo.

Mostrador claro.

O mesmo formato que vira sob a luz fraca da adega.

Seu coração acelerou.

Isabela baixou os olhos.

“Obrigado”, disse Marcelo.

Ela se virou para sair.

“Isabela.”

Parou.

Marcelo sabia seu nome.

“Sim?”

Ele tomou um gole de café.

“Seu pescoço está melhor?”

O ar desapareceu dos pulmões dela.

Dante ergueu lentamente os olhos.

Bruno ficou imóvel perto da porta.

Isabela manteve o rosto neutro.

“Desculpe?”

Marcelo apontou vagamente para a própria garganta.

“Teresa comentou que você teve um acidente.”

Mentira.

Isabela sabia.

Teresa jamais comentaria aquilo com Marcelo.

“Estou melhor.”

“Que bom.”

Ele sorriu.

“Uma casa grande pode ser perigosa à noite.”

Isabela sentiu o aviso escondido.

Dante interrompeu:

“Marcelo.”

“Sim?”

“Vamos trabalhar.”

Isabela saiu.

Assim que fechou a porta, suas mãos começaram a tremer.

Não era prova.

Mas era suficiente para mudar tudo.

Duas horas depois, voltou ao quarto.

A porta estava entreaberta.

Ela tinha certeza de que a fechara.

Entrou devagar.

Parou.

As gavetas estavam abertas.

Suas roupas haviam sido mexidas.

A bolsa estava sobre a cama.

Isabela correu até ela.

Carteira.

Celular.

Dinheiro.

Tudo ali.

Então viu a pequena caixa com objetos da mãe.

Aberta.

Fotografias espalhadas.

Um colar.

Uma medalha.

Mas faltava alguma coisa.

O antigo livro de orações de Marina.

Isabela saiu correndo.

“Dante!”

Ele apareceu no corredor acompanhado de Bruno.

“O que aconteceu?”

“Entraram no meu quarto.”

Dante mudou imediatamente.

Bruno levou a mão ao rádio.

“Feche os portões.”

“Não levaram dinheiro”, disse Isabela.

“O que levaram?”

Ela tentou lembrar por que alguém se interessaria por aquele velho livro.

Marina o carregara durante anos.

As páginas estavam amareladas.

A lombada havia se soltado certa vez.

Isabela tinha dezessete anos quando viu a mãe consertá-la pessoalmente com linha grossa.

Não permitira que ninguém ajudasse.

Uma lembrança veio.

Marina sentada à mesa.

Uma tesoura.

Linha.

E algo pequeno de metal sendo colocado dentro da lombada antes de fechá-la.

Isabela ficou branca.

“Não.”

Dante segurou o olhar dela.

“O quê?”

“Eu lembro.”

“De quê?”

“Minha mãe escondia alguma coisa naquele livro.”

“O quê?”

Isabela fechou os olhos.

Uma pequena peça metálica.

Comprida.

Com dentes.

Ela abriu os olhos.

“Uma chave.”

Dante ficou imóvel.

“Que tipo de chave?”

“Não sei.”

Bruno entrou no quarto.

“Não há sinais de arrombamento.”

Dante olhou para ele.

“Então foi alguém com acesso à casa.”

Isabela pensou em Marcelo.

No relógio dourado.

Na pergunta sobre seu pescoço.

Depois pensou em Rafael.

Em Teresa.

Nos funcionários.

Nos seguranças.

De repente, a mansão inteira parecia cheia de portas atrás das quais alguém poderia estar ouvindo.

“Por que alguém roubaria uma chave depois de dezoito anos?”, perguntou Isabela.

Dante olhou para a caixa de Marina.

“Porque talvez só agora tenham descoberto que ela existia.”

“E o que ela abre?”

Dante não respondeu.

Isabela pegou uma fotografia caída no chão.

No verso havia uma anotação feita pela mãe.

Uma data.

E três palavras.

**Santa Cecília — 214.**

Dante leu por cima do ombro dela.

Isabela o encarou.

“Hospital Santa Cecília.”

Bruno perguntou:

“Duzentos e quatorze pode ser um quarto?”

“Ou um armário”, respondeu Dante.

Isabela sentiu o coração acelerar.

Dezoito anos.

Sua mãe escondera uma chave.

Alguém acabara de roubá-la.

E talvez ainda não soubesse o que ela abria.

Dante guardou a fotografia no bolso interno do paletó.

“Vamos para o hospital.”

Isabela olhou para ele.

“Agora?”

“Antes que quem roubou o livro descubra a mesma coisa.”

Ao atravessarem o corredor, Marcelo apareceu no fim da escada.

Ele ajeitou discretamente o punho da camisa.

O relógio dourado brilhou sob a luz.

Isabela parou.

Marcelo sorriu.

“Algum problema?”

Ela olhou para o relógio.

Depois para os olhos dele.

E finalmente compreendeu por que a mãe repetira aquela frase até os últimos meses de vida.

Não confie no homem do relógio.

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