"O Segredo da Empregada" Capítulo 3 — O Nome da Minha Mãe
O amanhecer encontrou Isabela sentada numa poltrona da biblioteca dos Montenegro.
Ela ainda usava o uniforme.
Teresa havia limpado o corte em seu lábio.
Dr. Henrique Sampaio chegara pouco depois das quatro e confirmara que nenhuma costela estava quebrada.
Havia contusões.
Hematomas.
E marcas no pescoço que ninguém conseguiria chamar de acidente.
Lucas permanecia ao lado da irmã.
Dante estava diante da janela.
“Quero ir embora”, disse Lucas.
Isabela segurou sua mão.
“Agora não.”
“Isa, esse homem sabia onde eu trabalhava antes de você contar.”
Dante não se virou.
“Eu também acho estranho”, respondeu Isabela.
“Então por que estamos aqui?”
“Porque Rafael sabe onde você mora.”
“Posso ficar na casa de um amigo.”
“Ele provavelmente sabe quem são seus amigos.”
Lucas olhou para Dante.
“Isso é verdade?”
“Se Rafael fez o trabalho direito, sim.”
“Ótimo.”
Lucas soltou uma risada nervosa.
“Minha irmã trabalha numa mansão e de repente eu estou num filme ruim.”
“Lucas.”
“Estou errado?”
Ninguém respondeu.
Dante finalmente se virou.
“Bruno vai levar você para um apartamento seguro.”
“Não vou sem Isabela.”
“Ela fica comigo.”
Lucas levantou-se.
“Isso não ajuda.”
Isabela também se levantou.
“Lucas.”
“Você está machucada.”
“Eu sei.”
“Alguém tentou te estrangular.”
“Eu sei.”
“E agora vai ficar na casa do chefe do cara?”
Dante respondeu:
“Rafael não manda nesta casa.”
Lucas o encarou.
“Mas circulava aqui livremente.”
Aquilo acertou Dante.
Isabela percebeu.
“Lucas, por favor.”
O irmão respirou fundo.
“Você me liga a cada hora.”
“Prometo.”
“Se não ligar, eu volto.”
Dante quase sorriu.
“Bruno não vai permitir.”
“Quero ver tentar.”
Dessa vez Isabela realmente sorriu.
Por alguns segundos, voltou a ser apenas irmã.
Depois Lucas saiu com Bruno.
Quando a porta fechou, o silêncio mudou.
Isabela encarou Dante.
“Agora.”
“Agora o quê?”
“Minha mãe.”
Dante apontou para a poltrona.
Ela permaneceu em pé.
“Prefiro assim.”
Ele aceitou.
“Em 2008, Helena começou a apresentar sintomas estranhos.”
“Você já contou.”
“Há uma parte que não contei.”
“Finalmente.”
Dante ignorou o sarcasmo.
“Minha mãe estava prestes a assinar documentos que transfeririam parte de sua participação no Grupo Montenegro.”
“Para quem?”
“Meu pai.”
“Isso parece normal.”
“Seria, se meu pai soubesse.”
Isabela franziu a testa.
“Os documentos eram falsos?”
“Algumas assinaturas eram.”
“Então alguém queria roubar sua mãe.”
“Mais do que isso.”
Dante abriu uma gaveta e retirou uma pasta.
Colocou sobre a mesa.
“Quando Marina percebeu que Helena estava sendo medicada de forma errada, ela começou a prestar atenção.”
“Minha mãe sempre fazia isso.”
“Isso?”
“Prestava atenção.”
Dante assentiu.
“Ela ouviu conversas. Viu documentos. Descobriu que alguém usava empresas do grupo para movimentar dinheiro.”
“E contou ao seu pai?”
“Parte.”
“Por que não tudo?”
“Não sabemos.”
“Você continua dizendo isso.”
“Porque é verdade.”
Isabela se aproximou da mesa.
“Minha mãe morreu acreditando que eu não sabia nada disso.”
“Talvez quisesse proteger você.”
“Ela poderia ter me contado quando eu cresci.”
“Talvez o perigo nunca tenha desaparecido.”
Isabela pensou em Rafael.
No aperto em seu pescoço.
Na foto de Lucas.
“E o livro?”
Dante ficou sério.
“Existe um registro financeiro que desapareceu naquela época.”
“O livro que eu vi?”
“Talvez.”
“Por que é importante?”
“Porque continha movimentações que nunca chegaram à contabilidade oficial.”
“Dinheiro roubado?”
“Dinheiro escondido.”
“Qual é a diferença?”
“Depende de quem estava escondendo e por quê.”
Isabela cruzou os braços.
“E o selo azul?”
Dante demorou.
“Era usado em documentos internos do conselho antigo.”
“Então você reconheceu.”
“Sim.”
“E sabia que minha mãe poderia aparecer neles.”
“Suspeitava.”
Isabela sentiu a raiva voltar.
“Por isso me contratou?”
Dante a encarou.
“Não exatamente.”
“Não minta.”
“Eu não estou mentindo.”
“Você reconheceu meu nome quando viu minha ficha?”
Silêncio.
“Dante.”
“Sim.”
A resposta doeu mais do que deveria.
“Então nada foi coincidência.”
“Teresa precisava de alguém.”
“E você escolheu a filha de Marina.”
“Eu autorizei sua contratação.”
“Por quê?”
“Porque queria saber se você tinha alguma coisa que sua mãe deixou.”
Isabela ficou imóvel.
“Você me trouxe para esta casa para me investigar.”
“Não.”
“Acabou de admitir.”
“Eu queria observar.”
“Que palavra bonita.”
“Isabela.”
“Durante onze meses eu limpei sua casa enquanto você esperava para ver se eu carregava algum segredo?”
Dante deu um passo.
Ela imediatamente se afastou.
Ele parou.
Outra vez.
Aquele gesto silencioso confundia Isabela.
Dante podia ordenar que homens a seguissem.
Podia investigar sua família.
Mas, desde que vira os hematomas, recusava-se a invadir um centímetro do espaço dela.
“Eu nunca mandei ninguém entrar na sua casa”, disse ele.
“Que generoso.”
“Nunca toquei nas suas coisas.”
“Só investigou minha vida.”
“Sim.”
A honestidade a irritou ainda mais.
“Por que?”
“Porque seu sobrenome apareceu novamente.”
“Onde?”
“Em Santos.”
Isabela ficou quieta.
“Uma empresa ligada ao Grupo Montenegro recebeu pagamentos durante anos. Quando fizemos uma auditoria, descobrimos que um dos primeiros documentos tinha uma assinatura como testemunha.”
“Da minha mãe.”
“Marina Oliveira Martins.”
“Ela roubava vocês?”
“Não acredito nisso.”
“Por quê?”
“Porque minha mãe também não acreditava.”
Isabela respirou fundo.
“Helena está aqui?”
“Está.”
“Quero falar com ela.”
“Não.”
“Por quê?”
“Porque minha mãe não está bem.”
“Doente?”
“Ela passou por muita coisa.”
“Isso não responde.”
“Ela vive na casa de campo desde que meu pai morreu.”
“E não vem para São Paulo?”
“Raramente.”
“Então me leve até ela.”
Dante olhou para Isabela.
“Hoje?”
“Agora.”
“Você foi atacada há poucas horas.”
“Justamente por causa de algo que minha mãe viu dezoito anos atrás.”
Ela apontou para o próprio pescoço.
“Isso me dá o direito de saber.”
Dante não discutiu.
Duas horas depois, estavam na estrada.
A Fazenda Montenegro ficava no interior de São Paulo, cercada por árvores antigas e muros discretos.
Durante o trajeto, quase não conversaram.
Isabela observava Dante.
Pela primeira vez, via algo além do homem que fazia funcionários baixarem a voz.
Ele parecia cansado.
Quando chegaram, Teresa já havia avisado Helena.
A mulher esperava na varanda.
Sessenta e um anos.
Elegante.
Cabelos escuros cortados na altura dos ombros.
Quando Isabela saiu do carro, Helena perdeu a cor.
“Marina?”
Isabela parou.
Dante aproximou-se da mãe.
“Mãe.”
Helena levou a mão à boca.
“Meu Deus.”
“Eu sou Isabela.”
Os olhos de Helena se encheram de lágrimas.
“Eu sei quem você é.”
Aquilo a abalou.
“Como?”
Helena tocou delicadamente o rosto dela.
Isabela não recuou.
“Você tem os olhos dela.”
Entraram.
A fotografia foi colocada sobre a mesa.
Helena passou os dedos pela imagem.
“Ela salvou minha vida.”
“Por que foi embora?”
A mulher ficou em silêncio.
“Dona Helena, por favor.”
“Porque estava com medo.”
“De quem?”
“Ela nunca disse.”
“Minha mãe apareceu em documentos financeiros dos Montenegro.”
Helena levantou a cabeça.
“Documentos?”
“Com selo azul.”
A xícara em sua mão bateu no pires.
Dante percebeu.
“Mãe?”
Helena olhou para ele.
“Você disse selo azul?”
“Sim.”
“E um livro”, acrescentou Isabela.
Helena empalideceu.
“Que livro?”
“Preto. Com números.”
Helena levantou-se.
“Não.”
“Mãe?”
“Esse livro foi destruído.”
“Então existia.”
Helena caminhou até uma estante.
Retirou uma pequena caixa de madeira.
Dentro havia uma fotografia dobrada.
Ela entregou a Dante.
Era a mesma fazenda.
Mas havia quatro pessoas.
Helena.
Marina.
O pai de Dante.
E outro homem.
Isabela observou.
“Quem é?”
Dante respondeu:
“Álvaro Ferraz.”
“Ferraz?”
“Pai de Marcelo.”
Helena fechou os olhos.
“Marina me disse uma coisa antes de desaparecer.”
“O quê?”, perguntou Isabela.
Helena demorou.
“Ela disse que, se alguma coisa acontecesse com ela, eu deveria procurar o homem do relógio.”
Isabela sentiu um choque.
Uma memória atravessou sua mente.
Sua mãe doente.
A voz fraca.
Uma frase repetida várias vezes.
Não confie no homem do relógio.
Isabela segurou a mesa.
“Minha mãe dizia isso.”
Dante se aproximou.
“O quê?”
“Nos últimos meses antes de morrer.”
“Exatamente o quê?”
Isabela fechou os olhos.
Ouviu Marina outra vez.
“Se alguma coisa acontecer comigo, não confie no homem do relógio.”
Helena ficou branca.
Dante perguntou:
“Que relógio?”
Isabela abriu os olhos.
E lembrou da adega.
Não vira o rosto do segundo homem.
Mas vira a mão sobre a pasta preta.
No pulso dele havia um relógio antigo.
Dourado.
Grande.
Inconfundível.
“Eu vi”, sussurrou.
Dante ficou imóvel.
“Na adega?”
“Sim.”
“Quem estava usando?”
Isabela balançou a cabeça.
“Não vi o rosto.”
Mas agora sabia que Rafael não estivera sozinho.
E que o homem ao lado dele carregava no pulso exatamente o objeto que sua mãe temera até morrer.
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