"O Segredo da Empregada" Capítulo 2 — O Homem Que Sabia Demais
Isabela quis sair imediatamente.
Dante não deixou.
“Meu irmão está sozinho.”
“Bruno está com ele.”
“Não conheço Bruno.”
“Eu conheço.”
“Isso deveria me tranquilizar?”
A pergunta saiu mais dura do que ela pretendia.
Dante não reagiu.
“Lucas está mais seguro com ele do que estaria vindo até aqui.”
“Como pode ter certeza?”
“Porque quem deixou aquele envelope queria que ele fosse encontrado.”
Isabela sentiu frio.
“Como sabe?”
“Se quisessem machucar Lucas, não deixariam uma mensagem.”
“Você fala disso como se fosse normal.”
“Na minha vida, infelizmente, é.”
Ela passou os braços pelo corpo.
A adrenalina começava a desaparecer.
A dor ficava mais forte.
Dante viu quando Isabela fez uma careta.
“Você precisa de um médico.”
“Não.”
“Henrique pode vir sem registrar nada.”
“Não quero médico nenhum.”
“Você pode estar com uma costela quebrada.”
“Não está.”
“Como sabe?”
“Porque já tive uma.”
Dante a observou por um momento.
“Quem quebrou?”
Isabela olhou para ele.
“Não transforme tudo numa investigação.”
“É difícil quando você responde cada pergunta com um segredo.”
“E você?”
Dante não disse nada.
“Você acabou de admitir que investigava minha família antes de eu trabalhar aqui.”
“Eu disse que conhecia o nome da sua mãe.”
“Não. Você disse: ‘desde antes de você entrar nesta casa’.”
Dante caminhou até a bancada.
Continuava mantendo distância.
“Todo funcionário da minha residência passa por verificação.”
“Teresa me disse que verificavam antecedentes criminais.”
“Também.”
“Não disse que investigavam parentes.”
“Nem todos.”
Isabela sentiu o estômago se apertar.
“Só os meus?”
“Seu sobrenome chamou minha atenção.”
“Martins?”
“Oliveira Martins.”
“Metade do Brasil tem Oliveira no nome.”
“Marina Oliveira Martins não era metade do Brasil.”
Isabela o encarou.
“Quem era ela para você?”
Dante demorou a responder.
“Não para mim.”
“Então para quem?”
Antes que ele falasse, alguém bateu.
Três vezes.
Isabela se assustou.
Dante foi até a porta.
“Quem é?”
“Teresa.”
Ele destrancou.
Teresa Almeida entrou usando um robe escuro sobre a camisola.
A governanta tinha cinquenta e oito anos e comandava os funcionários da mansão com a autoridade de uma general.
Seu olhar caiu em Isabela.
Ela empalideceu.
“Meu Deus.”
“Estou bem”, disse Isabela.
“Não está.”
Teresa se aproximou, mas parou quando percebeu Isabela enrijecer.
“Foi Rafael?”
Isabela virou-se rapidamente.
“Você também sabe?”
Teresa olhou para Dante.
Aquilo bastou.
“Todo mundo sabe coisas sobre mim, menos eu?”
“Isabela”, começou Teresa.
“Não.”
Ela apontou para Dante.
“Ele sabe onde Lucas trabalha. Sabe o nome da minha mãe. Agora você entra e adivinha quem me machucou.”
Teresa fechou os olhos.
“Rafael tem problemas.”
“Problemas?”
A voz de Isabela subiu.
“Ele quase me estrangulou.”
Dante interveio.
“Teresa, deixe-nos.”
“Ela precisa ser examinada.”
“Eu vou cuidar disso.”
Teresa olhou para Isabela.
Havia culpa em seu rosto.
Antes de sair, disse:
“Eu sinto muito.”
A porta fechou.
Isabela riu amargamente.
“Isso está ficando cada vez melhor.”
O celular de Dante tocou.
Bruno.
Desta vez ele colocou no viva-voz.
“Fala.”
“Estou com Lucas.”
Uma voz jovem surgiu ao fundo.
“Isa?”
Isabela correu para perto.
“Lucas!”
“Estou bem.”
“Fizeram alguma coisa com você?”
“Não.”
“Tem certeza?”
“Tenho. Mas tem uma coisa estranha.”
“O envelope?”
“Sim.”
“Não abra.”
“Tarde demais.”
Isabela fechou os olhos.
“Irmão…”
“Só tem uma foto.”
Dante se aproximou.
“Lucas, descreva.”
“Quem é?”
“Dante Montenegro.”
Silêncio.
Lucas soltou:
“Meu chefe sempre diz para nunca falar com gente que aparece no jornal.”
Apesar de tudo, Isabela quase sorriu.
“Lucas, a foto”, insistiu.
“É antiga. Muito antiga.”
“De quê?”
“Da mãe.”
O sorriso desapareceu.
“Como assim?”
“Ela está bem mais nova. Talvez da sua idade.”
“Está sozinha?”
“Não.”
“Com quem?”
Lucas hesitou.
“Tem uma mulher ao lado dela.”
Dante ficou rígido.
“Descreva a mulher.”
“Cabelo escuro. Elegante. Tem uma casa enorme atrás.”
“Vire a fotografia”, disse Dante.
“Tem alguma coisa escrita?”
Ruído.
“Tem.”
“O quê?”
“Fazenda Montenegro, 2008.”
Dante fechou os olhos.
Isabela viu.
“Você reconheceu.”
Ele não respondeu.
“Quem é a mulher?”
Dante desligou o viva-voz.
“Bruno, traga Lucas para cá.”
“Dante!”
Ele encerrou a ligação.
“Quem está na foto com minha mãe?”
Dante passou a mão pelo rosto.
“Minha mãe.”
Isabela ficou imóvel.
“Helena Montenegro?”
“Sim.”
“Minha mãe conhecia sua mãe?”
“Conhecia.”
“Como?”
“Essa é uma história longa.”
“Tenho a madrugada inteira.”
Dante encarou-a.
“Marina trabalhou para minha família.”
“Mentira.”
“Não.”
“Minha mãe trabalhou em hospital, lavanderia, casa de família. Ela nunca mencionou os Montenegro.”
“Talvez tivesse motivo.”
“Que motivo?”
Dante olhou para os hematomas dela.
“O mesmo motivo que fez você decidir esconder o que Rafael fez.”
Isabela sentiu raiva.
“Não compare.”
“Não estou comparando. Estou dizendo que medo faz pessoas esconderem coisas até de quem amam.”
Ela desviou o olhar.
Dante continuou:
“Dezoito anos atrás, minha mãe ficou doente.”
“Doente como?”
“Fraqueza, desmaios, confusão. Os médicos não encontravam explicação.”
“E minha mãe?”
“Marina fazia trabalhos temporários como cuidadora.”
Isabela tentou encaixar aquela informação nas lembranças.
Tinha oito anos na época.
Lembrava da mãe saindo cedo.
Lembrava de ficar com uma vizinha.
Lembrava de Marina chegar algumas noites tremendo.
Mas nunca soubera onde ela trabalhava.
“Ela cuidou de Helena?”
“Por algumas semanas.”
“E depois?”
“Desapareceu.”
“Minha mãe não desapareceu.”
“Da nossa vida, desapareceu.”
Isabela sentiu a raiva crescer.
“Você fala como se ela tivesse feito alguma coisa errada.”
“Não foi isso que eu disse.”
“Então diga o que aconteceu.”
Dante permaneceu em silêncio.
Isabela voltou para a pia.
“Claro.”
“Isabela.”
“Homens como você adoram informação quando ela pertence aos outros.”
Dante absorveu o golpe.
“Quer saber o que eu vi na adega?”
Ele ficou atento.
“Quero.”
“Então primeiro me diga a verdade.”
“Eu não tenho toda a verdade.”
“Diga a parte que tem.”
Dante respirou.
“Minha mãe acredita que Marina salvou a vida dela.”
Isabela virou-se.
“O quê?”
“Helena estava sendo envenenada.”
A cozinha pareceu ficar menor.
“Por quem?”
“Nunca descobrimos.”
“E minha mãe?”
“Percebeu que os sintomas pioravam depois de um determinado remédio.”
“Ela contou?”
“Sim.”
“Para quem?”
“Para meu pai.”
“E ele acreditou?”
“Não no começo.”
“Depois?”
“Depois mandou analisar o medicamento.”
Dante fez uma pausa.
“Havia uma substância que não deveria estar ali.”
Isabela sentiu os braços arrepiarem.
“E poucos dias depois minha mãe foi embora?”
“Sim.”
“Por quê?”
“Ela não explicou.”
“Talvez alguém tenha ameaçado ela.”
“É o que estou começando a acreditar.”
A fechadura principal da área de serviço soou ao longe.
Minutos depois, Bruno entrou acompanhado de Lucas.
Isabela correu até o irmão.
Abraçou-o.
Lucas imediatamente percebeu sua dor.
“Isa, o que aconteceu?”
“Nada.”
Ele viu o pescoço.
“Isso não é nada?”
“Depois.”
Lucas encarou Dante com desconfiança.
Bruno entregou o envelope.
Dante retirou a fotografia.
Isabela a viu pela primeira vez.
Marina estava sorrindo.
Jovem.
Viva.
Ao lado dela, Helena Montenegro segurava seu braço.
Atrás das duas estava uma enorme casa de campo.
No verso:
Fazenda Montenegro — 17/08/2008.
Mas havia algo dentro do envelope além da fotografia.
Um pedaço dobrado de papel.
Dante abriu.
Uma única frase estava escrita à mão:
**ELA VIU O LIVRO.**
Isabela sentiu o sangue gelar.
“O livro da adega?”
Dante não respondeu.
Ela lembrou da pasta preta.
Dos números.
Do selo azul.
“Eu vi um nome”, disse.
Dante ergueu os olhos.
“Que nome?”
Isabela engoliu em seco.
“Não consegui lembrar antes.”
“Agora consegue?”
“Sim.”
“Qual?”
Ela olhou para a fotografia da mulher morta havia dois anos.
“Marina Oliveira Martins.”
O rosto de Dante mudou.
Isabela percebeu.
“Minha mãe estava naquele livro.”
Dante apertou o papel entre os dedos.
“Sim.”
“Como você sabe?”
Ele não respondeu.
“Dante.”
Foi a primeira vez que ela o chamou pelo primeiro nome.
“Como sabe?”
Ele olhou para a fotografia.
Então falou:
“Porque sua mãe salvou a minha.”
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