"O Segredo da Empregada" Capítulo 1 — A Porta Trancada às Três da Manhã
Às três e sete da madrugada, Isabela Oliveira Martins já havia lavado a mesma panela de cobre tantas vezes que conseguia ver o próprio rosto deformado no metal.
O sangue no canto de sua boca começava a secar.
Cada vez que respirava fundo, uma dor aguda atravessava suas costelas.
Mas era o pescoço que mais doía.
Ainda sentia os dedos de Rafael apertando sua garganta contra a parede da despensa.
Isabela aumentou a água da torneira.
Precisava pensar em outra coisa.
Naquela manhã, cobriria o hematoma com maquiagem. Colocaria um lenço no pescoço. Diria a Teresa que havia escorregado na escada de serviço.
Depois continuaria trabalhando.
Era isso que pessoas endividadas faziam.
Continuavam.
Aos vinte e seis anos, Isabela trabalhava havia onze meses na mansão da família Montenegro, no Jardim Europa, em São Paulo.
Oficialmente, era auxiliar de serviços domésticos.
Na prática, limpava quartos, servia jantares, organizava bandejas e aprendia a desaparecer sempre que homens importantes começavam a conversar.
O salário era melhor do que qualquer outro que encontrara.
Ela precisava dele.
Depois da morte da mãe, Marina, restaram contas hospitalares, empréstimos e uma dívida grande demais para uma mulher que ganhava a vida limpando a casa dos outros.
Isabela esfregou a panela novamente.
Então ouviu a porta.
Ela congelou.
Passos desceram os últimos degraus.
A porta da cozinha de serviço se abriu.
Dante Montenegro apareceu.
Isabela sentiu o estômago afundar.
Dante tinha trinta e quatro anos e comandava o Grupo Montenegro, um conglomerado que possuía empresas de logística, construção, segurança e imóveis.
Nos jornais, era empresário.
Nos corredores da mansão, ninguém usava uma palavra específica.
Não precisava.
Havia histórias suficientes sobre os Montenegro para que funcionários aprendessem rapidamente duas regras: não fazer perguntas e nunca escutar atrás de portas.
Dante usava camisa branca, mangas dobradas até os antebraços e calça social preta.
Sem gravata.
Sem paletó.
Mesmo assim, parecia mais intimidador do que qualquer homem armado que Isabela já vira naquela casa.
Os olhos dele encontraram os dela.
Desceram até sua boca.
Pararam em sua bochecha.
Depois chegaram ao pescoço.
Isabela baixou o rosto.
“Senhor Montenegro.”
Dante entrou.
“Por que você ainda está trabalhando?”
“Não conseguia dormir.”
“Então decidiu lavar uma panela às três da manhã?”
“Ela estava suja.”
Dante olhou para o cobre brilhante.
Isabela percebeu o erro.
“Eu ia terminar e subir.”
Ele não respondeu.
Em vez disso, virou-se.
Sua mão alcançou a fechadura.
Clique.
A porta foi trancada.
Isabela recuou tão rápido que bateu o quadril na pia.
Dante imediatamente tirou a mão da porta.
Os dois ficaram imóveis.
Ele percebeu.
Ela percebeu que ele havia percebido.
“Eu não vou tocar em você”, disse Dante.
“Eu sei.”
“Não parece.”
Isabela apertou a esponja.
Dante permaneceu perto da porta.
Não avançou nem um passo.
“Quem fez isso com você?”
“Fiz o quê?”
“Não faça isso.”
“Não sei do que o senhor está falando.”
“Isabela.”
Ela levantou os olhos.
Dante Montenegro nunca havia usado seu primeiro nome.
Aquilo a assustou quase tanto quanto a porta trancada.
“Eu caí.”
“Onde?”
“Na despensa.”
“Quando?”
“Hoje.”
“Que horas?”
Isabela hesitou.
“Depois do jantar.”
Dante observou seu pescoço.
“Você caiu na despensa e ficou com marcas de dedos?”
A mão de Isabela subiu involuntariamente.
Ela a abaixou depressa.
Tarde demais.
“Estou bem.”
“Você está sangrando.”
“Parece pior do que é.”
“Tem certeza?”
“Sim.”
“Olhe para mim.”
Ela não olhou.
“Isabela.”
“Eu preciso terminar isso.”
“Coloque a panela na bancada.”
“Senhor Montenegro—”
“Coloque.”
A voz não ficou mais alta.
Não precisava.
Isabela colocou a panela ao lado da pia.
Dante deu um passo.
Ela recuou.
Ele parou novamente.
Seu rosto mudou.
Não havia pena ali.
Havia algo pior.
Compreensão.
“Foi um homem?”
Isabela ficou em silêncio.
“Ele trabalha aqui?”
Nada.
“Foi um dos seguranças?”
Ela apertou os lábios.
“Foi Rafael?”
O mundo pareceu parar.
Isabela olhou para Dante.
Só por um segundo.
Foi suficiente.
A mandíbula dele endureceu.
“Entendi.”
“Eu não disse nada.”
“Não precisava.”
Dante tirou o celular do bolso.
“Não.”
Isabela atravessou o espaço entre eles e segurou o pulso dele.
No instante em que percebeu o que fizera, soltou.
“Desculpa.”
Dante olhou para o próprio pulso e depois para ela.
“Não ligue para ele”, pediu Isabela.
“Eu não vou ligar para Rafael.”
“Então para quem?”
“Bruno.”
“Não.”
“Meu chefe de segurança precisa saber que alguém atacou uma funcionária dentro da minha casa.”
“Por favor.”
“Por que você está protegendo Rafael?”
“Não estou.”
“Então por que está com medo?”
Isabela respirou e sentiu as costelas protestarem.
“Porque o senhor não entende.”
“Então me faça entender.”
“Não posso.”
“Ele ameaçou você?”
Silêncio.
Dante continuou:
“Ameaçou alguém da sua família?”
Isabela sentiu os olhos queimarem.
Dante percebeu.
“Quem?”
Ela virou o rosto.
“Meu irmão.”
A expressão dele ficou vazia.
Perigosamente vazia.
“O que Rafael fez com Lucas?”
Isabela ergueu a cabeça.
“Como sabe o nome dele?”
Dante não respondeu.
“Como sabe que meu irmão se chama Lucas?”
“Isso não importa agora.”
“Importa para mim.”
Dante guardou o celular.
“Rafael tem seu endereço?”
“Tem mais do que isso.”
“O quê?”
Isabela tentou controlar a voz.
“Uma foto.”
“De Lucas?”
Novamente.
O nome.
Sem hesitação.
Isabela sentiu um arrepio.
“Ele me mostrou uma foto dele saindo do trabalho.”
Dante ficou sério.
“Da oficina?”
Ela perdeu a cor.
“Que oficina?”
Dante percebeu o erro.
Isabela se afastou.
“Eu nunca contei onde Lucas trabalha.”
“Isabela—”
“Nem para Teresa.”
“Escute.”
“Como sabe da oficina?”
Dante permaneceu em silêncio.
Agora era ela quem fazia perguntas.
E ele quem evitava responder.
“Ele trabalha numa oficina na Vila Mariana”, disse Isabela lentamente. “Como o senhor sabe disso?”
“Eu sei quem entra na minha casa.”
“Isso inclui investigar irmãos de empregadas?”
“Quando necessário.”
“Necessário para quê?”
Dante desviou a conversa.
“Por que Rafael atacou você?”
Isabela riu sem humor.
“Não.”
“O quê?”
“Primeiro responda.”
“Depois.”
“Então não vou contar nada.”
Os dois se encararam.
Por fim, Dante falou:
“Se Rafael fotografou Lucas, seu irmão pode estar em perigo agora.”
Aquilo atingiu o ponto certo.
Isabela fechou os olhos.
“Eu vi uma coisa.”
“O quê?”
“Na adega.”
Dante não se moveu.
“Continue.”
“Eu fui buscar duas garrafas de vinho depois do jantar. Ouvi vozes na sala de armazenamento.”
“De Rafael?”
“Sim.”
“Com quem?”
“Não vi o rosto.”
“O que viu?”
“Uma pasta preta.”
Dante ficou atento.
“Couro?”
“Parecia.”
“Mais alguma coisa?”
“Fotografias. Papéis. Uma espécie de livro com números.”
“Um livro-caixa?”
“Talvez.”
“Você leu alguma coisa?”
“Não tive tempo.”
“Algum símbolo?”
Isabela tentou lembrar.
A adega.
A luz baixa.
Rafael curvado sobre a mesa.
A segunda mão virando uma folha.
Então recordou.
“Um selo.”
“Que cor?”
“Azul.”
Dante perdeu parte da cor do rosto.
Isabela percebeu imediatamente.
“O que significa?”
“Você tem certeza?”
“Tenho.”
“Azul-escuro?”
“Sim.”
Dante se afastou da porta.
Pela primeira vez, parecia genuinamente preocupado.
“O que Rafael disse quando percebeu você?”
Isabela tocou o pescoço.
“Que eu tinha visto coisa demais.”
“Mais alguma coisa?”
“Que, se eu abrisse a boca, Lucas pagaria por mim.”
Dante pegou novamente o celular.
“Bruno.”
“Eu disse que—”
“Não estou pedindo permissão.”
Ele fez a ligação.
“Vá até a Vila Mariana. Agora.”
Isabela tentou protestar.
Dante levantou a mão.
“Encontre Lucas Oliveira Martins. Não assuste o rapaz. Só confirme que ele está seguro.”
Isabela ficou imóvel.
Dante desligou.
“Ele está trabalhando esta noite?”
“Às vezes dorme na oficina quando termina tarde.”
“Então Bruno vai encontrá-lo.”
“Por que sabe tanto sobre nós?”
Dante não respondeu.
“Por que sabe meu sobrenome completo? Por que sabe onde Lucas trabalha?”
Silêncio.
Isabela sentiu um medo diferente nascer.
Não de Rafael.
De Dante.
“Há quanto tempo o senhor está investigando minha família?”
Os olhos dele se fixaram nela.
“Desde antes de você entrar nesta casa.”
Isabela parou de respirar.
“Por quê?”
Dante olhou para a porta trancada.
Depois voltou a encará-la.
“Porque eu conhecia o nome da sua mãe.”
O coração de Isabela bateu violentamente.
“Marina?”
Dante ficou em silêncio.
Ela deu um passo.
“Como você conhecia minha mãe?”
O celular dele vibrou.
Bruno.
Dante atendeu.
Ouviu por alguns segundos.
Seu rosto endureceu.
“Entendido.”
Desligou.
“O que aconteceu?”
“Lucas está vivo.”
Isabela quase perdeu as forças.
“Mas?”
Dante olhou diretamente para ela.
“Alguém esteve na oficina antes de Bruno.”
“Rafael?”
“Não sabemos.”
“Fizeram alguma coisa com ele?”
“Não.”
“Então o quê?”
Dante respirou devagar.
“Deixaram um envelope com o nome da sua mãe.”
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